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E o semeador saiu a semear

E o semeador saiu a semear

O ensino por parábolas não foi invenção de Jesus. Era uma das formas
didáticas da época e o Mestre soube aproveitar os costumes para que suas lições
fossem melhor compreendidas. Hilel, filósofo judeu da época do Cristo, ensinava
as Escrituras também se servindo de histórias com ilações morais e instrutivas.
É normal. O codificador Allan Kardec fez o mesmo na elaboração de O Livro dos
Espíritos. Perguntas e respostas, estabelecendo um diálogo, era técnica usada no
seu tempo. Não há por que usar fórmulas desconhecidas ou de difícil assimilação,
especialmente quando se fala ao povo, um coletivo heterogêneo no que se refere à
compreensão.
Para que as histórias contadas por Jesus fossem assimiladas com facilidade, Ele
se serviu dos conhecimentos do seu tempo. Dividiu as parábolas em três
principais grupos: costumes da época, a vida familiar e a natureza. Entre
outras, temos a do filho pródigo e a dos dois filhos, como exemplos de família.
Os trabalhadores da vinha, a figueira que secou, o joio e o trigo, e muitas
outras, sobre a natureza. Já sobre os costumes da época, vamos encontrar a do
bom samaritano, a do rico e do Lázaro, o óbolo da viúva, e por aí seguem.
Quando falou de joio e trigo, Jesus se serviu de um hábito daquele tempo. O joio
é planta que facilmente se confunde com trigo, forma também espigas, mas tem um
princípio tóxico. Nasce no meio do trigo e se a arrancarmos antes que este forme
o grão, corremos o risco de eliminar também a planta boa. Nas leis havia
penalidade para aquele que semeasse joio no trigal do vizinho, para prejudicá-lo
e tirar vantagem para a sua lavoura.
A parábola do semeador, já dissemos no início, destaca-se pela abrangência que
apresenta, e mostra quatro situações das sementes, comparando-as às pessoas.
“E o semeador saiu a semear”. Esta figuração deve nos levar à imagem da
semeadura a lanço, quando o agricultor colocava as sementes em uma peneira e as
jogava por sobre o ombro para trás. Assim se semeavam grandes campos. Não havia
covas individuais.
Por isso, argumentou Jesus, que algumas caíram ao lado da estrada, porque o
vento as teria levado para fora da área a ser cultivada. Foi pisada e comida por
pássaros.
Outro grupo de sementes caiu sobre local onde havia pouca terra e pouca umidade.
Quis germinar, mas logo depois acabou morrendo.
A terceira coleção de sementes foi abafada pelos espinhos e morreu.
Finalmente um grupo caiu em terra fértil e produziu muito. A mil frutos por
semente.
Depois de contadas as histórias, Jesus deixava que as pessoas interpretassem o
seu enunciado para chegar às próprias conclusões, por meio de comparações.
E dizia: Por isso eu conto a vocês essas histórias e vocês entendem. Aos mais
poderosos e sabidos, não adianta contar porque eles riem e não acreditam.
À medida que o tempo passa, as interpretações dessas histórias chamadas
parábolas se ampliam.
Os primeiros estudos comparam essas sementes às pessoas e ao semeador, àquele
que prega a doutrina nova, as lições do Evangelho.
Pessoas que ouvem mas não crêem, nem têm interesse. Parece-lhes que podem
dispensar essas lições e conhecimentos. As palavras ditas são sementes que foram
devoradas e se perderam.
Outros mais entusiasmados, tomam contato com o Evangelho e se deslumbram. Por um
tempo, parece-lhes que nada mais existe e está ali tudo o que precisam. Ignoram
a necessidade do esforço próprio para incorporar novos valores que os
transformem. Por isso, logo desanimam. É a semente que começa a germinar, mas
falta-lhe adubo e umidade.
Há também pessoas que tomam contato com a Boa Nova e se interessam. Mas não
querem abrir mão dos valores do mundo. Precisam do elogio, dos cargos e de
outros valores humanos que envaidecem. São os espinhos que afogam a alma que
deseja libertar-se.
E há, finalmente, aquele que se assemelha ao terreno próprio, fértil, adubado,
em condições perfeitas para receber a boa semente. Aí, rapidamente, a planta
germina e se desenvolve. Depois, produz muito. Se observarmos dentro do
Espiritismo, vamos encontrar Kardec, Chico, Bezerra, Cairbar e inúmeros irmãos
que sustentaram e fizeram desenvolver a doutrina para que chegasse até nós com
tamanha fertilidade e produzindo frutos que alimentam a todos.
Nos grupos espíritas vemos amiúde pessoas que se enquadram no que acima foi
dito. Chegaram no centro por um problema pessoal, grave, delas próprias ou de um
familiar, mas logo assimilaram as lições e perceberam que seu problema era
pequeno. Quando não, era um problema necessário, porque servia de remédio para
curar enfermidades antigas, deslizes do passado, injustiças praticadas contra si
mesmo ou terceiros.
Vão ficando e se integram no grupo de trabalhadores que oferecem seus préstimos,
esquecendo-se de si mesmo. Seus problemas ali estão, às vezes cresceram, mas a
forma de encará-los faz com que se tornem fardos suaves.
Enquanto alguns chegam e logo se vão, recebam ou não a ajuda que foram buscar,
esses perseveram apesar dos problemas, muitas vezes graves, mas que diminuem com
o entendimento que a pessoa já conseguiu.
Noutras ocasiões, não são apenas pessoas, individualidades. São agrupamentos.
São doutrinas, religiões, seitas, como prefiram chamá-las, cujos dirigentes
conheceram as palavras de Jesus e, habilmente, as manipularam em proveito
próprio e da sua igreja. Pegam-se no Evangelho da letra e desprezam a notícia
espiritual. Tudo torcem para servir-se do céu em seu benefício. Feliz a religião
que prega e vive, a partir de seus dirigentes maiores, as verdade do Evangelho,
na sua simplicidade.
Finalmente, ao olhar para dentro de nós mesmos, convém perguntar, quer como
semeadores, quer como sementes, em qual delas nos enquadramos. Somos a beira do
caminho ou a semente que foi comida? Somos a pedra de pouca umidade ou a semente
que não prosperou na sua germinação? Somos os espinhos ou a semente que foi
afogada, vítima de vaidade e outros defeitos? Ou somos a boa terra ou a semente
fértil que, casando-se com o solo perfeito, fez-se planta adulta e está
produzindo a partir do dia em que foi plantada?
Cada um dê a resposta à sua própria consciência e ao seu próprio coração.

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