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Educação: Vias e Desvios que Contribuem para a Ignorância do Sofrimento Animal

“A Indústria Cultural impede a formação de indivíduos autônomos, independentes, capazes de julgar e de decidir conscientemente”. T. Adorno

Obrigatoriamente, todos os alunos que se formam em Licenciatura, ao menos dentro da disciplina de Filosofia, cedo ou tarde terão aula de Psicologia da Educação, aulas estas que visam demonstrar como o docente poderá conseguir aproximar-se dos alunos e ensinar-lhes o que deseja do modo mais simples, aprimorando sua educação de forma a levar os alunos a conquista de sua liberdade e de sua autonomia. Seu propósito fundamental é apresentar opções que possam levar a uma prática educativa mais dinâmica. O propósito, tecnicamente é este, a questão é: isso ocorre sempre na prática diária da docência?

Não vou generalizar aqui os educadores , nem condenar a psicologia, apenas tentar demonstrar o que uma determinada ideologia pode causar a uma turma inteira de Filosofia. Nossa primeira aula sobre Psicologia da Educação tratou dos condicionamentos , dos reforços positivos e negativos. Embora seja triste, é preciso admitir que poucos são os docentes preparados para ter em sala de aula, alunos com uma visão diferente da tradicional; alunos que estejam envolvidos com a causa animal, alunos questionadores que irão contra argumentar sobre o que foi dito ou feito em relação à experimentação animal.

O caso que mais chamou a atenção e que me levou a escrever este artigo, foi a explicação velada, omissa e apreciativa de como Anton Pavlov descobriu que o condicionamento, com reforços positivos ou negativos , pode auxiliar os seres humanos.

Num discurso leve e apaixonado o professor nos mostrou a beleza da experimentação animal, apenas “afastando” a comida dos cães para deixá-los com fome, vindo após isso com a refeição para que eles fossem, aos poucos, condicionados aquilo a que o experimentador desejava. Segundo nos foi explicado, Pavlov “amarrava tubinhos de vidro” aos focinhos dos animais para recolher a saliva, dito de tal modo parecia não haver qualquer traço de maus-tratos em sua importante experimentação, ao contrário, a narrativa soou até mesmo prazerosa para aqueles colegas que desconheciam a verdade sobre a experimentação de Pavlov.

Até que um aluno fez uma objeção, lançando uma pergunta no ar, afinal questionar para des-velar é o trabalho da Filosofia: “A psicologia a serviço da barbárie, da dominação?”.

Teve início então um ligeiro debate sobre a condução do discurso, foi quando se descobriu que nem todos os alunos se comportam como o professor deseja.

Porque os experimentos que ainda hoje são feitos com animais em algumas faculdades de psicologia para demonstrar certos comportamentos, não conseguem perceber que,psicologicamente, a privação da liberdade por si mesma já interfere no comportamento do animal (vide animal senciente que sente medo e dor) tal como os seres humanos que os utilizam: psicologicamente, a uma pessoa normal, seria impossível torturar um animal a não ser pelo método da dessenssibilização, muito utilizada pelos professores que são a favor da experimentação animal.

Como concordar com disciplinas que se apoiam numa contradição apontada por Charles Magel?

“Pergunte aos vivisseccionistas por que eles experimentam em animais e eles responderão: ‘Porque os animais são como nós’. Pergunte aos vivisseccionistas por que é moralmente possível experimentar em animais e eles responderão: ‘Porque animais não são como nós’. A Experimentação animal apoia-se em contradição de lógica”.

Como tratá-las? Antiéticas e nocivas? Meus alunos não podem ser cobaias, mas posso mostrar a eles que podem matar outros seres vivos para testarem suas teorias em seus pacientes? Como aceitar, como graduandos em Filosofia, um ramo disciplinar que vá contra os conceitos éticos nos quais a Filosofia tenta se fundamentar? Se tal disciplina, muitas vezes, alegando fazer o bem, inicia fazendo o mal…

Como ver algo de bom na tortura de animais quando a própria Ciência demonstrou que os não-humanos são sencientes, se a própria Ciência admite que eles são iguais a nós? E voltou-se então ao questionamento do aluno: Será a disciplina que se apoia na experimentação ou o professor que vê nisso uma coisa ética , ou serão ambos amigos barbárie e da dominação, fazendo com que muitos, como já dissemos, de degradem pelo caminho? Temos que admitir que a visão da morte sem sentido e sem sensibilidade é uma das causas do desrespeito para com as pessoas e não somente para com os animais.

Da barbárie contra animais à barbárie para com os seres humanos há um véu muito fino.Isso em todos os ramos e disciplinas que apresentam a vivissecção invasiva ou não(a medicina e seu descaso com as pessoas tem sido observada todos os dias) é uma parte da “psicologia vivisseccionista” em ação, a retirada da sensibilidade dos alunos por meio de recompensas e castigos. E chegamos à outra questão também interessante que começou a borbulhar na mente de alguns alunos não envolvidos com a causa animal : “Se não havia implicações dolorosas, por que Pavlov não utilizou pessoas ao invés de cães, afinal, a psicologia era feita para seres humanos.

Confesso que o mais estranho foi realmente o tratamento, o floreio utilizado pelos professores ao tratarem desse assunto, tão simples e romântico como se fosse a coisa mais limpa e ética do mundo.

É preciso nos lembrar que somos humanos e não apenas uma massa de manipulação, essa domesticação imposta nos torna insensíveis, não apenas em relação ao sofrimento dos animais, mas nos torna indiferentes a tudo que deveria nos indignar.Somos treinados a acreditar que tudo é *“assim mesmo”, que tudo é “normal” e que anormal é aquele que pensar o contrário.

Mas os alunos nem sempre se comportam como o esperado e alguns conseguem enxergar a alienação em que podem ser envolvidos se, se mantiverem calados dentro das salas acadêmicas.

A contra argumentação nos dizia que havia inúmeros outros projetos de Ciência no mundo e que a psicologia necessitava ancorar-se em um modelo ou paradigma onde pudesse “controlar” seu objeto de estudo, afim de conseguir prever “situações nas quais o “fenômeno” tem maior probabilidade de ocorrer”, entendeu-se que as psicologias que não usassem esse modelo teriam, por força do cientificismo, uma dificuldade muito maior de se firmarem no cenário acadêmico, já que não poderia ser validado, já que tendemos a acreditar naqueles que nos demonstram dados quantitativos.

Mas ecoava em alguns cérebros mais “rebeldes” o que nos havia sido narrado sobre as experimentações nos cães, de forma a se firmar cientificamente a ideia do experimentador e claramente ficou des-velada a omissão de muitos detalhes que poderiam ser igualmente preciosos a uma turma de Filosofia: Como realmente a saliva havia sido coletada? Por quanto tempo os cães haviam ficado sem comer e o que havia sido feito com eles após a experimentação? Qualquer coisa que, coerentemente, pudesse fornecer aos discentes a escolha de julgarem se o ato era correto ou não, se era ético ou não, se era válido ou não.

“Tendemos a acreditar naqueles que nos demonstram dados quantitativos”. E foi exatamente isso o que ocorreu quando se tornou claro, pela voz de um aluno, o que Pavlov realmente fizera.

Pavlov não amarrava tubinhos de vidro aos pescoços ou focinhos dos cães e não os deixava passar fome simplesmente abstendo-se de dar-lhes comida. O que foi omitido de uma turma de Filosofia questionadora foi o conhecido estômago de Pavlov onde cirurgicamente, o pescoço dos cães e seu esôfago eram abertos, de tal forma que qualquer alimento que o cão ingerisse cairia para fora de seu corpo por essa abertura, deixando o cão infinitamente faminto e salivante. Por mais que abocanhasse a comida, ele nunca deixaria de ter fome porque a comida não seguiria para seu estômago, sua fome jamais seria aliviada, ao contrário, aumentaria cada vez mais assim como sua salivação, pois o que o fazia salivar era o cheiro do alimento e a fome, cada dia maior.Tudo para observar os estímulos e o condicionamento psicológico.Lembrando que o cão fazia festa quando lhe traziam o alimento.

Toda saliva coletada dos cães era feita através de perfurações e não de tubinhos de vidro ,por onde passavam-se sondas coletoras, jamais pela boca do animal. Numa coisa nosso docente tinha acertado, era realmente preciso conhecer as pesquisas em psicologia que apresentam o ser humano naquilo que ele tem de típico e, em muitos dos tratamentos ministrados aos animais de laboratório é possível notar muitas coisas.

Será mesmo que temos que perseverar nesse modelo, nessa aceitação da “verdade” por quem traz dados qualitativos ou devemos procurar conhecer o que pode nos ter sido acobertado?

Uma coisa é mesmo certa, a “ Atitude Crítica é Fundamental” para que não sejamos dominados ou dessenssibilizados em nossa caminhada rumo ao conhecimento, já que pudemos descobrir em uma única aula, o carinhoso e gentil Pavlov que dominava seus cães com violência, regido pelo paradigma de que eles são inferiores.

É preciso acordamos desse sono e tirar a “beleza” que muitos colocam na imagem da experimentação animal, mostrando a verdadeira face que abusa de corpos de seres sencientes e desprovidos de qualquer estatuto moral.

 

Frase

* Antonio Simões, Graduado e Pós Graduado em Filosofia e Ciências Sociais

 

Ps.: Os conceitos aqui emitidos não expressam necessariamente a filosofia Feal, sendo de exclusiva responsabilidade de seus autores.

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