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Esperança Obama

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 Enéas Canhadas

Estamos vivendo uma espécie de clima de esperança ou de expectativas que podemos chamar de “expectativas Obama”. Depositamos numa figura poderosa, a responsabilidade de executar a missão de cumprir as profecias do final dos tempos. Talvez estejamos deslumbrados com a grande novidade de ser, o homem eleito presidente dos Estados Unidos, um negro, o primeiro negro, aliás, que habitará a Casa Branca, sede do governo americano, o país economicamente mais poderoso do planeta.  Primeiramente vamos colocar um ponto de interrogação na expressão “país mais poderoso do planeta”. Depois voltamos ao assunto. Ressaltamos que o fato de ser Obama um homem negro, parece constituir por si só um sinal dos tempos, no bom sentido, é claro.  Nem uma coisa, nem outra. Podemos encontrar muitas outras explicações para o fato de um homem negro chegar à presidência dos Estados Unidos, a começar pela constatação de que a população negra não compõe, em muitos países, a multidão de pessoas marginalizadas, quer pela condição econômica, quer pela sua falta de cultura, quer por outras razões sociais. O desenvolvimento da vida humana neste nosso mundo, de várias maneiras, vem demonstrando certa equivalência das diversas raças tanto no que diz respeito à sua inteligência, como também com relação a serem pessoas que conquistam o seu lugar na vida, constroem suas riquezas pequenas ou grandes e chegam tanto aos governos como a postos de destaques nas empresas, mesmo nas hierarquias mais rígidas. Não devemos dizer que os negros vêm alcançando o seu lugar ao sol, mas sim que o ser humano tem conseguido, muito gradualmente, buscar condições de melhor qualidade de vida em muitos lugares do mundo. Mas também os amarelos, e também os brancos que antes eram igualmente pobres e incultos. É bom lembrar os indígenas que tem conseguido até mesmo cadeiras políticas e dado ao mundo líderes que podem ser a voz do seu povo. O ser humano está progredindo e compondo uma massa de pessoas que, certamente não alcança condições equânimes de qualidade de vida ou de oportunidades, mas está se homogeneizando enquanto inteligência e consciência de suas condições, ainda que inferiorizadas pelo não reconhecimento de outrem, e acima de tudo com a capacidade de reconhecer o seu estado de diferenciação quanto à pobreza e a fome. Ainda não é o retrato do mundo, mas uma foto que, aos poucos vai se tornando mais nítida como imagem da vida humana sobre a terra. Assim sendo, a eleição de Obama é mais um resultado do progresso humano do que do sucesso de uma raça. Não é o da igualdade do valor dos nossos filhos, como queria Martin Luther King, mas fala de uma marca do nosso tempo, e se os místicos quiserem, uma marca do terceiro milênio. Podemos afirmar a partir da doutrina Espírita, que é um resultado inexorável da evolução humana. É um fato novo não porque o mundo já está melhor mas porque coisas como essa um dia, vão tornar o mundo melhor.

Torna-se necessário olhar para o mundo com uma visão mais crítica, pelo menos o suficiente para percebermos que quando um homem chega a essa posição, ele é primeiramente um cidadão daquele país com a herança da sua cultura e as marcas de um povo mais ou menos presentes no seu “DNA” civil e emocional. Depois o fato de ele ter-se tornado o presidente desse país, com as responsabilidades e compromissos que o cargo, a priori, exigirá dele, fazendo com que o desempenho de tal papel e suas atribuições já estejam “compromissados” mesmo antes dele ter nascido. Só então ele pode ou poderá ser Barak Obama, o que será o mais difícil nessa história toda.

Não podemos deixar de concluir esse texto sem voltar à expressão “país mais poderoso do planeta”. Se a esperança Obama for alimentada pela nossa ingenuidade, nos fará cair do cavalo em um tombo que nos deixará paralisados por muito tempo. É preciso compreender de uma vez por todas, tratar-se de um país, cujas instituições estão em estado precário, tanto as políticas quanto as econômicas. É preciso ver com clareza que os Estados Unidos tentam se equilibrar num mar de lama que se mistura a novas intervenções bélicas enquanto ainda chora a morte dos seus filhos mandados para a guerras passadas, independente de suas vontades, desejos e vocações. Afundam-se numa areia movediça de guerras intermináveis, de uma economia que se diz grande por cobrar o direito de serem ricos mas de uma riqueza oca e que não se sustenta mais. Rico proprietário de um conglomerado de empresas falidas ou a beira da falência ou da impotência de suas capacidades produtivas. Tristes reivindicadores da posição de líder mundial quando essa liderança tenta se impor à força de direitos conquistados de onde? Como um líder pode ser imposto e não emergente do reconhecimento das nações? Como uma liderança pode arbitrar o estabelecimento de direitos e obrigações quando os direitos pertencem aos líderes e as obrigações ficam a cargo das demais nações. Por que os Estados Unidos podem colocar-se como os mentores de uma ordem mundial onde um seleto grupo do qual ele é o cabeça de chave, que pode fabricar armas nucleares, pode determinar parâmetros para uma economia mundial e gozar do privilégio de possuir uma moeda que seja para toda a humanidade. Como os dólares americanos podem significar a riqueza ou a miséria de esfomeados da África quando nem os enriquece e nem os tira da extrema miséria, mas diz quanto eles custam ou quanto eles estão dando de despesas para as demais nações? Que país poderoso é esse que discute e se faz de intermediário entre guerras travadas por outros povos quando fabrica as armas que matam uns e outros e se gaba de possuir as tecnologias mais avançadas para matar e exterminar a humanidade? Que pais poderoso é esse que discute as guerras e, no entanto, as produz. E porque se discute as guerras e não se discute a fabricação de armas e o avanço das tecnologias para matar? Como esse país pode ser o mais poderoso em termos de enriquecimento de urânio ou na produção de ogivas nucleares e impede que outros países o façam. Como arbitram no mais simples e convencional estilo do “façam o que nós mandamos e não ousem fazer o que nós fazemos?”.

A esperança Obama precisaria mudar tudo isso e mais um pouco para ser assim considerada e chamada. Um homem não poderá fazer muito para mudar a cultura desse império. Aliás, lembrando de impérios, qual deles teria durado mais? O Romano? O Egípcio? O Chinês? O Bizantino? Quanto durou o império hitlerista? É muito cedo para pensar, puramente, que um ou dois mandatos “democráticos” possam fazer tal e grande transformação. Estamos até hoje tentando entender como Ghandi libertou a Índia sem o uso das armas. Estamos tentando entender até hoje, as definições da República de Platão e a ética de Aristóteles. Como Política e Moral se fundem. A Política de Obama talvez seja passível de a compreendermos pelos conteúdos das suas intenções e até mesmo por algumas ações efetivas, mas o desenvolvimento moral dos povos precisará um pouco mais de tempo para nos ajudar a compreender a pequenina parte que cabe a cada cidadão do nosso mundo, não só dos cidadãos americanos.

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