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Fidelidade x Fraternidade

Fidelidade x Fraternidade

A conjunção das relações humanas junto às práticas doutrinárias nem sempre
consegue alcançar a harmonização desejável. Paralelamente ao exercício do amor e
da fraternidade surgem conflitos, no campo das idéias, inalcançáveis pelo bom
senso, que é a prerrogativa pessoal muitas vezes afastada da lógica universal.

Na conceituação psicológica de racionalização vamos encontrar o entendimento
para muitas de nossas posturas distorcidas. Movidos quase que invariavelmente
pelo orgulho e pela vaidade, sentimos enorme dificuldade de ceder de nossos
pontos de vista e interpretações em favor de outras mais ponderadas. Como
recurso de “sobrevivência” empregamos justificativas desconexas para a
prevalência de posições inaceitáveis que acarretam conflitos, não somente
internos, entre o “EU” e o “EGO”, mas exteriorizados nas relações humanas. A
simples interrupção das disputas ou o passar de poucas horas é suficiente para
nos apercebermos das absurdidades que defendíamos. Mas, mesmo assim, preferimos
o silêncio ao reconhecimento de nossos erros.

Essa postura, tão comum nas relações interpessoais, é móvel de incontáveis
contendas em nossas casas espíritas, onde cada um imagina-se sempre como
defensor da fidelidade doutrinária, sem emprestar ao próximo a mínima parcela da
razão. Em um mundo como o nosso, onde o homem detém relativa parcela da verdade,
não conceder, a si próprio, uma possibilidade percentual de erro em disputas
ideológicas, é demonstração de imaturidade e imprevidência. Um rápido olhar em
nossa história passada evidenciará a fragilidade de nossas posições, muitas
vezes devastadas pelo tempo.

Movidos, assim, com embasamento instável – o das nossas próprias verdades – é
que vemos companheiros faltarem com a fraternidade, desfraldando a bandeira da
fidelidade doutrinária.

Não que devemos em nome da incerteza abandonar a preservação da pureza dos
ensinos da codificação, mas, porque, é forçoso reconhecer, se na base do
edifício do Espiritismo encontramos postulados solidamente fincados pelo
codificador, ao subirmos pelos andares da vivência do movimento espírita nos
deparamos inevitavelmente com questões inquietantes. Se assim, não fosse, não
estaríamos observando as diferenças inumeráveis, e respeitáveis, que acontecem
nas instituições de todo o país. Só o tempo e a conseqüente evolução do homem,
que protagoniza a história espírita, definirão comportamentos mais estáveis e
verdades mais absolutas.

Contudo, o exercício da fraternidade é questão resolvida pelo Mestre Jesus,
que não deixou dúvidas quando afirmou: “Nisto todos conhecerão que são meus
discípulos, se vos amardes uns aos outros”. (João 13:35).

Abraçar o que já é definitivo, mantendo o debate em nível salutar e
respeitoso, deixando à posteridade uma definição final sobre questões polêmicas,
é sinal de sabedoria e prudência.

Não podemos imaginar o cotidiano de nossas relações nas atividades
espiritistas sem que o amor seja o traço-de-união entre todos os adeptos. Já
assistimos casos em que a verdade nos parecia clara, apesar da falta de
entendimento entre ambas as partes. Quando os ânimos asserenaram e a voz da
consciência assumiu o papel de guia individual dos contendores, a verdade brotou
inestancável das próprias circunstâncias. Isto porque, pela força do progresso,
ela emerge da ignorância para ofuscar com sua luz a visão dos orgulhosos ou para
clarear a jornada dos que, com serenidade, por ela aguardam.

Obviamente que não fazemos a apologia da estagnação e da inércia, já que o
homem é uma força da natureza que promove o progresso, mas que, quando voltado
para o seu egocentrismo, pode obstaculizá-lo temporariamente.

Em um momento de transição como o que vivenciamos, onde valores antigos
encontram a derrocada e novas opções são buscadas pelo homem que herdará a
Terra, onde o choque de idéias caracteriza a diversidade das opiniões
distribuídas pelo espectro de ações existentes entre o bem e o mal, a verdade e
a mentira, a fraternidade é fator preponderante para a estabilidade e o
equilíbrio nas relações humanas. E, sem estabilidade e equilíbrio, a nau do
movimento espírita ficará sujeita à tempestuosidade do pensamento humano.

Observando os exemplos de Jesus, recordamos que no confronto de idéias,
diante de irmãos exasperados ou agressivos, o Mestre adotava a opção da
paciência e do silêncio. Na sua visita à cidade de Nazaré, narrada no livro “Boa
Nova”, de Humberto de Campos, Ele teve motivos de sobra para assumir uma postura
revanchista diante das calúnias que recebeu, aliás, como queriam os apóstolos.
Mas preferiu afastar-se, alegando que não se colhem uvas nos espinheiros.

Em “Obras Póstumas”, encontramos mensagem do Espírito Inocente que parabeniza
Allan Kardec afirmando: “Sabeis que responder a todos os ataques seria travar
uma polêmica sem resultados. O vosso silêncio prova a vossa força…”

“… o Senhor dirá: Vinde a mim, vós que sois bons servidores, vós que
soubestes calar os vossos melindres e as vossas discórdias, para que daí não
viesse dano à obra”.

Que, então, antes de vencermos as batalhas das ideologias, possamos vencer a
batalha do personalismo inferior, sucumbindo com o orgulho e a vaidade, para que
o Bem desabroche na convivência fraterna de irmãos, que, em verdade, somos todos
diante de Deus.

Referência: Jornal Mundo Espírita, edição Junho/97 (João da Silva Carvalho
Neto)

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