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Formadores de opinião

É comum ouvirmos o uso da expressão “pesquisa de opinião”, para avaliar o que
determinados grupos pensam sobre um assunto ou uma marca de produto, quem deve representar
a mulher mais bonita ou o homem mais empreendedor.

Ter uma opinião sobre determinado assunto, entretanto, deveria passar por uma
série de processos mentais para que fosse possível formá-la.

A primeira vista pode-se pensar que toda pessoa que tem determinada opinião sobre
um assunto a elaborou a partir que uma análise e reflexão das várias opiniões possíveis
para então optar por uma. Ledo engano, pois muitas opiniões são formadas muito mais
pelo poder de persuasão de outros que pela própria reflexão das pessoas que incorporam
essas opiniões. Destaca-se que persuadir significa levar a crer, ou aceitar, fazer
adquirir certeza.

Todos estamos expostos ao poder de persuadir dos formadores de opinião desde
a vontade de comprar uma nova marca de sabão em pó até adotar determinado comportamento.

Não se tem a pretensão de arrolar aqui todas as pessoas que podem ser consideradas
os formadores de opinião, entretanto, podemos nos lembrar de alguns. Ë evidente
que todos já pensaram em pessoas com vida pública como artistas e animadores de
programa de TV, que pelo fato de “entrar” com muita freqüência em nossa casa nos
oferecem, de maneira sedutoras, produtos e idéias: lembremos também que toda pessoa
que se torna significante para outro tais como colegas, professores, pais, são formadores
de opinião.

Foi muito mal entendida a polêmica do Sr Ministro com a animadora de programa
de TV, quando do lançamento, pelo Ministério da Saúde, da campanha de prevenção
de gravidez na adolescência, não se tratava de criticar uma mulher adulta e com
condições financeiras para sustentar uma criança, mas de alertar sobreas repercussões
de tornar pública esta decisão e explorá-la de forma tão glamourosa a ponto de poder
persuadir, sobretudo adolescentes, que ter um filho lhes podia dar glamour, sem
considerar as repercussões deste evento em suas vidas.

Ë evidente que o poder da TV nos dias de hoje supera todos os demais veículos
de comunicação, assim não fosse não estaríamos tendo nossas crianças a imitar comportamentos
de grupos artísticos de dançarinas ou de personagens de novela como se a melhor
coisa a lhes acontecer seria chegar a esta condição.

Rubem Alves em seu livro “Entre Ciência e a Sapiência – o dilema da educação”
reproduz duas cartas que fez publicar em jornais de grande circulação, cartas estas
dirigidas ao diretor presidente da mais poderosa rede de TV de nosso país. Nelas
o autor o chama de criador de sonhos e o alerta para o fato de quem cria sonhos
banais torna-se por eles responsáveis. Tomamos a liberdade de reproduzir as palavras
do autor:

“Mas o senhor é um bruxo: sabe como fazer os homens sonhar. O senhor é dono de
uma fantástica máquina de fazer sonhar. O senhor tem mais poder para mexer com as
pessoas que tudo o que no Brasil se faz sob o nome de “escola”. O senhor não se
assusta com este poder que lhe foi dado? ‘A quem muito se lhe dá muito se lhe
pedirá’,
diz o evangelho. Se o senhor quisesse, poderia fazer com que milhares
sonhassem com o Paraíso. Se o senhor quisesse, poderia fazer com que milhares se
pusessem a trabalhar para a construção do Paraíso. O senhor tem nas mãos o poder
de plantar as sementes de um novo país. O senhor sabe: a receita está no anúncio
do Marlboro. A beleza pode seduzir o povo a amar a natureza, a preservar a saúde,
a se alegrar com as artes, a cuidar das crianças, a viver de forma civilizada, a
respeitar a vida…”

Diante de todo este poder estamos nós frente a grande desafio. Temos os instrumentos
necessários para neutraliza-los? Sabemos também que não podemos criar as crianças
em redomas de vidro e que a partir dos 10, 11 anos não há como manter a criança
afastada da realidade onde vive.

Há na USP, Campus de São Paulo o LAPIC (Laboratório de Pesquisa em Televisão
e Imaginário Infantil) que como o próprio nome ressalta trata desta questão. Seus
pesquisadores destacam que se a criança tiver alguém a mediar as suas relações com
o conteúdo visto na TV estes não se constituirão os únicos formadores de comportamento.
O diferencial está em quem faz a ponte e como faz esta ponte.

Que elementos estão nesta intermediação, é a grande questão. Hoje já sabemos
que o medo e a culpa são geradores de grande ansiedade e pouco produtivo ao longo
do tempo. O poder de persuasão esta muito mais na capacidade de análise das conseqüências
para si e para o outro ao longo do tempo, e dos elementos éticos envolvidos no processo.

Em a Revista Espírita editada por Kardec, encontramos em vários artigos ele denominando
a tática usada por Jesus como sendo “a doce persuasão”. O que é doce tem sabor de
quero mais e não de chatice. Muito se tem falado da pedagogia de Jesus e sempre
fica claro que Ele fazia seus ensinamentos serem acompanhados de momentos de silêncio
para dar a seu interlocutor tempo para a necessária reflexão.

Se não estamos livres do poder de persuasão dos “grandes” formadores de opinião
também não podemos nos esquecer que de alguma forma também em nível familiar, social
e doutrinário somos formadores de opinião, sobretudo quando nos propomos a realizar
estudos doutrinários, escrever artigos de jornal espírita ou editar livros espíritas.

Sempre há o risco de reescrevermos idéias que não foram contextualizadas para
nosso tempo e para as mudanças sociais ocorridas ao longo dos anos que nos separam
de sua ocorrência.

Sempre nos inquietou a Epístola de Paulo aos Efésios e sempre pensávamos que
isto contrariava todo o contexto evolutivo dos povos sobretudo no que diz respeito
a posição social da mulher, porque na questão 882a de O Livro dos Espíritos encontramos:
“A emancipação da mulher segue o progresso da civilização, sua escravização marcha
com a barbárie” . Esta perplexidade durou até tomarmos conhecimento da obra “Aos
Efésios” de nosso confrade L. Palhano Jr. que contextualizou o conteúdo da carta
ao seu tempo mostrando que para aquela época e sociedade a postura de Paulo, diga-se
um grande formador de opiniões, era um grande avanço.

Para nós “pequenos” formadores de opinião fica o alerta que tudo o que dissermos
em nosso falar ou escrever seja refletido para que não sejamos nem “liberais permissivos”
nem retrógrados fora do contexto”

(Jornal Verdade e Luz Nº 167 Dezembro de 1999)