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Henry Slade

Henry Slade

É possível que actualmente algumas pessoas mais jovens ignorem o que seja
uma ardósia. Deve haver muita gente que jamais viu este objecto.

Trata-se de uma pequena lousa feita de uma lâmina de pedra negra (xisto
argiloso, metamórfico, de granulação finíssima), cujo nome é mesmo ardósia. A
lâmina de pedra é enquadrada por um caixilho de madeira. Antigamente as crianças
aprendiam a escrever e fazer contas nas ardósias (este era o nome comum dessas
lousas).

Para se escrever na ardósia, usava-se um lápis feito do mesmo material, porém
um pouco mais macio. A escrita aparecia com caracteres brancos e podia ser
facilmente apagada. As ardósias substituíam, em grande parte, os cadernos de
papel, usados actualmente nas escolas.

O médium e médico americano, doutor Henry Slade, de que nos iremos ocupar,
caracterizava-se por usar habitualmente a ardósia para obter as mensagens dos
espíritos. A escrita era directa e conseguida de uma forma original. Pegava-se
em duas ardósias colocadas juntas, face a face. Os caixilhos de madeira
propiciavam um espaço livre entre as faces das lâminas de pedra, dentro da qual
se introduzia um pequeno pedaço de lápis de ardósia. As duas lousas assim juntas
eram levadas, seguras por uma das mãos do médium, sob o tampo de uma mesa. Logo
a seguir, podia ouvir-se o ruído do pedaço do lápis sendo atritado sobre as
lousas. Cessado o ruído, as lousas eram retiradas. Ao abrir-se as duas ardósias,
geralmente encontrava-se mensagens escritas directamente pelos espíritos.

Henry Slade não era o único médium a usar este processo para obter a escrita
directa; porém, ele tornou-se conhecido pela frequência com que lançava mão das
lousas de ardósia nas suas demonstrações de mediunismo. Em muitas destas
sessões, Henry Slade foi testado através da escrita em ardósia. Durante uma
dessas vezes, ele sofreu graves consequências relativas à sua reputação como
médium.

Sessões em Londres

Em 1876, Slade estava no auge da fama. De passagem por Inglaterra, onde
chegou dia 13 de Julho daquele ano, deu várias sessões em Londres. É preciso
esclarecer que as suas faculdades não se limitavam apenas à obtenção da escrita
directa em ardósias, conforme explicámos antes.

Nesta ocasião, as lousas, além de sobrepostas, eram previamente seladas e
lacradas, a fim de atender às crescentes exigências dos observadores cépticos. E
a escrita surgia, assim mesmo. As mensagens nas lousas constituíam pequena parte
do seu repertório.

Slade, além disso, produzia materializações parciais, movimentos de mesas,
ouviam-se fortes pancadas nas mesmas e em outros lugares dos cómodos (fenómeno
de troibismo). O próprio médium era levitado à vista de todos. Mãos invisíveis
tocavam instrumentos musicais.

Finalmente, provocava fenómenos de “apport”, em que ocorria aparente
transposição de objectos materiais através de obstáculos de matéria sólida.

Em 30 de Agosto de 1876, um repórter do «The World» deu o seu depoimento, num
longo artigo. Ele descrevia uma sessão privada e a plena luz, que tivera com
Slade, declarando-se embaraçado e perplexo por não saber como explicar os
fenómenos presenciados e por ele descritos.

Não era apenas o repórter do «The World» que se confessava aturdido pelos
factos testemunhados na presença de Slade. Cientistas de renome como «lord»
Rayleigh, Alfred Russel Wallace e Frank Podmore também se renderam à evidência
dos fenómenos desencadeados graças às faculdades do famoso médium.

O episódio das lousas

Em Setembro do mesmo ano de 1876, o professor E. Ray Lankester, membro da
British Association for the Advancement of Science, juntamente com o dr. Donkin,
resolveu desmascarar o decantado agente paranormal.

Naquela ocasião, cobrava-se o ingresso para assistir a uma sessão mediúnica.
Lankester e o seu companheiro, dr. Donkin, pagaram uma libra cada um — era este
o preço do ingresso.

Na primeira sessão limitaram-se a presenciar os factos. O ponto fraco,
pensaram eles, devia estar no fenómeno das lousas de ardósia. Era ali que
poderiam descobrir-se a má-fé, a trapaça do médium. Voltaram uma segunda vez. A
sessão desenrolava-se na sua forma habitual, mas quando o médium recebeu nas
suas mãos as lousas fechadas e lacradas, o prof. Lankester subitamente
arrebatou-as das mãos de Slade, antes que ele tivesse iniciado a operação
habitual para obter a escrita directa, colocando-as sobre a mesa.

Estabeleceu-se um tumulto. A sessão foi logo interrompida. As ardósias foram
abertas e… lá encontrou-se uma mensagem já escrita!

Para Lankester e Donkin alestava a prova da fraude! Aquele facto foi o quanto
bastou para pôr em dúvida a validade dos diversos outros fenómenos testemunhados
por todos os demais observadores.

Lankester move uma acção contra Slade

A questão das ardósias não ficou nisso. Lankester sentiu-se lesado na sua
boa-fé e no seu bolso; imediatamente moveu uma acção judicial contra Slade: além
do processo, publicou um relatório no «The Times», em 16 de Setembro daquele
ano. A acção judicial proposta alegava que o médium estava a obter dinheiro à
custa de simulações. O interessante é que Lankester foi assistir às sessões por
duas vezes. Se houvera desconfiado na primeira, por que tornou a gastar mais uma
libra para ser novamente ludibriado?

Formou-se, em torno do caso, um debate. Surgiram pessoas a favor e contra
Slade. O próprio médium defendeu-se alegando que as lousas foram arrancadas das
suas mãos quando a mensagem já estava a ser escrita. Ele ouvira o ruído e
procurara alertar os assistentes, mas as suas palavras não foram entendidas
devido à confusão estabelecida dali em diante.

O julgamento de Slade

Em 1 de Outubro de 1876, o caso de Slade foi o julgamento da “Bow Street
Police Court”. Os acusadores arrolaram como testemunhas pessoas que não puderam
ser aceites por se acharem irregulares. Entre estas últimas incluía-se um membro
da Royal Society, dr. V. B. Carpenter.

Por fim, um apenas estava em condições de ser credenciado a depor: R. M.
Hutton. Por incrível que pareça, esta testemunha até depôs a favor do acusado!

Para a defesa, o juiz só admitiu o depoimento de quatro testemunhas de entre
as inúmeras que se apresentaram. Entre os escolhidos pelo magistrado, figuravam
o prof. Alfred Russel Wallace, Sergeant E. W. Cox, o dr. George Wyld e mais um
outro. Todos eles, naturalmente, depuseram favoravelmente a Henry Slade,
declarando-se convencidos da legitimidade das faculdades deste médium. O próprio
juiz considerou que os depoimentos contra a acusação eram esmagadores.
Entretanto, achou de seu dever condenar o acusado pelo “crime de tentar alterar
o curso das conhecidas leis da natureza”. Baseado nos depoimentos de Lankester e
de Donkin, condenou Slade a três meses de prisão com trabalhos forçados! Slade
apelou da sentença e obteve a sua anulação.

Lankester tentou novo processo, “no interesse da ciência”, segundo ele.

Slade deixa a Inglaterra

Antes que Lankester entrasse com a segunda acção contra Slade, este,
desgostoso, abandonou a Inglaterra. A sua saúde estava seriamente abalada.
Seguiu para Praga.

Mais tarde, escreveu, de lá, a Lankestre, oferecendo-se para ser por ele
submetido a provas rigorosas. A proposta de Slade isentava Lankester de qualquer
obrigação de uma retratação pública, caso verificasse a legitimidade das suas
faculdades paranormais.

O prof. Ray Lankester nunca respondeu à carta de Slade…

Zoellner estuda Slade

Em Dezembro de 1877, o dr. Johan Karl Friedrich Zoellner (1834-1882),
professor de Física e Astronomia da Universidade de Leipzig, fez uma série de
experiências com o médium Henry Slade.

Além de Zoellner, assistiram a essas experiências vários cientistas de renome
na Alemanha: dr. Wilheim Edward Weber, prof. de Física; dr. W. Scheibner, prof.
de Matemática; dr. Gustav Friedrich Fechner, filósofo e prof. de Física.

Slade ficou hospedado em casa de um dos amigos do prof. Zoellner, o barão Von
Hoffmann. A maior parte das experiências foram feitas nessa residência.

Dia 17 de Dezembro de 1877, pela manhã, Zoellner, seus colegas acima
mencionados e mais outras pessoas presenciaram os primeiros fenómenos provocados
por Slade.

O prof. Zoellner e o prof. W. Weber haviam preparado quatro cordas cujas
respectivas duas pontas foram solidamente atadas uma à outra. Escolhida uma
dessas quatro cordas, ela foi presa pelo nó à beirada de uma mesa, com lacre
fundido e marcado por sinete, no mesmo local. O prof. Zoellner sentou-se frente
à corda presa, tendo o restante da mesma caído sobre o seu colo. As mãos de
Zoellner apoiavam-se espalmadas sobre a beirada da mesa, tendo os seus polegares
colocados lado a lado do nó lacrado.

Slade sentou-se noutra cadeira próxima ao prof. Zoellner, apoiando também as
mãos sobre a mesa. Num dado instante, à vista de todos e à plena luz do dia,
pois era de manhã, surgiram quatro nós no corpo da corda! Durante o evento, o
médium parecia alheio ao ambiente, como que distraído, e não tocou nem uma única
vez na corda.

Zoellner propôs duas hipóteses para explicar os nós dados na corda sem pontas
livres. A primeira seria a transposição da matéria através da própria matéria,
graças a uma rápida desmaterialização das fibras, em determinados pontos da
corda, seguida da sua rematerialização. Seres invisíveis que fossem capazes de
fazer isso, poderiam realizar os nós, dentro do nosso espaço físico.

A segunda hipótese seria admitir-se a existência de uma quarta dimensão
situada num espaço contíguo ao nosso. Neste espaço operariam seres, também com
propriedades tetradimensionais. Tais seres seriam capazes de efectuar movimentos
de objectos ao longo das quatro dimensões.

Nesta segunda hipótese, os nós poderiam ser executados por tais seres, sem
necessidade de desmaterializar a corda em qualquer ponto. Bastar-lhes-ia puxar
um trecho da corda para a quarta dimensão, dar-lhe um certo número de laçadas e
retorná-lo para o nosso espaço físico novamente. Esta hipótese foi confirmada em
8 de Maio de 1878, quando Zoellner fez a mesma experiência com correias de couro
cujas pontas foram também atadas e lacradas. Os nós surgiram nas correias;
porém, estas mostraram-se torcidas após a realização dos nós. Isto significa que
não houve transposição de matéria e sim torção das tiras de couro, devido
provavelmente às laçadas efectuadas numa quarta dimensão, por seres incorpóreos.

Zoellner obteve duas argolas de madeira, prendeu-as a um grosso fio de
«categute» cujas pontas foram atadas e lacradas. Slade colocou as suas mãos
espalmadas sobre o tampo da mesa, tendo dependurada nos seus pulsos a tira de
«categute» com as duas argolas de madeira. Passados alguns instantes, sentiu-se
um cheiro de substância queimada, e as duas argolas desapareceram do fio de
«categute», indo alojar-se enfiadas na haste central duma mesinha circular. O
tampo e o tripé de base desta pequena mesa mantinham-se solidamente fixos na
haste central onde as argolas foram enfiadas, não se sabe como! Esta experiência
foi feita de dia, à luz clara, sob as vistas de todos os assistentes. As argolas
estavam perfeitas.

Uma outra pequena mesa desapareceu por seis minutos, à luz do dia, estando o
médium sob absoluto controlo. O móvel reapareceu em pleno ar, caindo sobre outra
mesa. Na ocasião a mesinha passou de raspão sobre a cabeça de Zoellner,
batendo-lhe com o tampo e ocasionando-lhe uma dor que durou mais de quatro
horas.

Moedas colocadas em caixas fechadas e lacradas saíram do seu interior,
atravessando o tampo duma mesa, para cair sobre uma lousa colocada sob o móvel,
ao mesmo tempo em que era escrita uma mensagem na ardósia.

Para todas estas experiências, Zoellner teve como explicação a existência
duma quarta dimensão de espaço, bem como a actuação de seres capazes de se
locomoverem e actuarem ao longo duma transaltura. (Zoellner, J. K. F. — «Provas
Científicas da Sobreviência», São Paulo: Edicel, 1966).

A Seybert Commission

Em fins do século XIX, um espiritualista da Filadélfia, EUA, de nome Henry
Seybert, deixou um legado de 60 mil dólares à Universidade de Pensilvânia. De
acordo com o testamento, este dinheiro destinava-se à manutenção de uma cátedra
na dita universidade, a ser conhecida como Cátedra de Filosofia Moral e
Intelectual Adam Seybert. O responsável pela cadeira deveria, ou individualmente
ou em conjunto com uma comissão da própria universidade, fazer uma completa e
imparcial investi-gação de todos os sistemas de moral, religião ou filosofia que
admitem representar a verdade, e particularmente do moderno espiritualismo. (Fodor,
N. «Encyclopaedia of Psychic Science», New York: University Books, 1974, p. 31).

Em Março de 1884, formou-se uma comissão, obedecendo à vontade expressa do
testador. O testamenteiro era Thomas R. Hazard, amigo pessoal de Henry Seybert.
A referida comissão tomou o nome de Seybert Commission e estava predestinada a
tornar-se famosa, como iremos ver.

Até 1887 a comissão não havia encontrado nada de verdadeiro no campo dos
fenómenos espiritualistas. Os seus relatórios preliminares foram inteiramente
negativos. Daí em diante, não foi publicado nenhum estudo conclusivo e nem as
investigações foram reencetadas. As poucas vezes que a comissão procurou
investigar os fenómenos espiritualistas, ela fê-lo de maneira totalmente
contrária à orientação testamentária.

Thomas R. Hazard recebera instruções de Henry Seybert no sentido de conduzir
correctamente as pesquisas. O testamenteiro deveria designar os médiuns a serem
consultados e rejeitar a assistência de pessoas cuja presença pudesse perturbar
a harmonia e a boa ordem dos círculos espiritualistas. (Opus cit. P. 342).

Quem tem alguma experiência no trato com os sensitivos sabe perfeitamente a
importância desta condição. O verdadeiro médium sofre intensamente a acção
inibida dos pensamentos e da disposição hostil de uma assistência mal
intencionada.

Pelo que se deduz das actividades da Seybert Commission, descritas nos seus
relatórios, os seus investigadores achavam-se inteiramente despreparados para
semelhantes investigações. Ao contrário do que faria um legítimo pesquisador,
partiam de preconceitos rigidamente estabelecidos. Para eles, todos os fenómenos
espiritualistas eram pura fraude que, mais cedo ou mais tarde, acabaria por ser
descoberta. Ao encetarem uma investigação, esqueciam-se de observar, registar e
medir cuidadosamente os factos e as circunstâncias que rodeavam os fenómenos.
Não procuravam fazer variar um a um os possíveis factores causais, para
observarem as correspondentes alterações nos eventos. Entravam em cena,
atabalhoadamente, como crianças que brincam às escondidas: ao sinal de «Pronto»,
saem a correr e vasculham aleatoriamente todos os recantos, em busca do objecto
escondido. O objecto visado era sempre o desmascaramento dos médiuns e a
desmistificação dos seus adeptos. Tinham de encontrá-lo a qualquer custo, ainda
que fosse necessário inventá-lo. Era uma autêntica caça às bruxas.

Slade cai nas malhas da comissão

Parece que o interesse da Seybert Commission em desmascarar o médium Slade
foi suscitado por um artigo de J. W. Truesdell, publicado no «Botton Facts of
Spiritualism», Nova Iorque, 1883. Neste artigo, Truesdell alegava haver apanhado
Slade em fraude. A história narra um “incidente humorístico” que ter-se-ia dado
durante uma das sessões de Slade. Truesdell conta que descobrira uma lousa com
uma mensagem já preparada, na sala de reunião. Subrepticiamente, acrescentou
outra mensagem de sua lavra: “Henry, cuidado com este fulano; ele está de olho
em si — Alcinda.” Mais tarde, quando a mensagem adulterada foi revelada,
Truesdell divertiu-se ao notar o desapontamento do médium.

Em 1885, o médium foi submetido à investigação da Seybert Commission, em
Filadélfia.

A carreira de Slade foi sempre muito acidentada. Como todo o sensitivo de
alta potencialidade, sempre sofreu os percalços da fama e do descuido
relativamente às condições da sua faculdade. Dificilmente um médium mantém
constante o nível de sua produção. Toda a mediunidade apresenta flutuações e,
quase sempre, entra em declínio no fim da vida. Embora existam, raros são
aqueles que conseguem manter o equilíbrio durante toda a existência.
Particularmente, os médiuns de efeitos físicos são os mais vulneráveis. O
declínio das suas faculdades paranormais muitas vezes arrasta-os à fraude, num
desesperado esforço para manter o seu prestígio e satisfazer as exigências do
daninho cortejo humano que se cria ao seu redor. Por fim, acabam caindo numa ou
noutra armadilha preparada por inimigos gratuitos.

Na sua queda arrastam também aqueles que os investigaram seriamente quando
ainda produziam fenómenos autênticos, deitando por terra todo um labor penoso de
pesquisas pacientes e criteriosas, arruinando a reputação de sábios
honestíssimos. Com isto, retardam desastradamente o avanço da ciência.

Provavelmente, quando a Seybert Commission o apanhou, Slade já devia estar a
notar o declínio da sua mediunidade. Rodeado por investigadores hostis e
exigentes, ele poderia ter cometido alguma falha ou, o que é mais plausível,
terse-ia envolvido nas teias de uma cilada ardilosamente preparada.

O resultado foi um relatório inteiramente negativo por parte da comissão. As
suas declarações à comissão incluíram as sessões que ele tivera com o prof.
Zoellner.

Zoellner também nas garras

Diante das declarações de Slade, a comissão incumbiu o prof. Fullerton da
tarefa de ir à Alemanha para entrevistar os colegas do prof. Zoellner, visando
obter deles declarações que pudessem desacreditar as suas conclusões favoráveis
a Slade. Era a caça às bruxas. Todo o expediente, por mais vil e desonesto que
fosse, estaria justificado pelos fins que se pretendia atingir.

Em 1886, Fullerton entrevistou Wundt, Fechner e Scheibner, professores da
Universidade de Leipzig e Weber da Universidade de Goettingen. Com excepção do
prof. Weber, os demais professores foram habilmente levados a concordar que as
condições mentais de Zoellner não eram normais.

Ao mesmo tempo, Fullerton estabeleceu, através de testemunhas cruzadas, que
Fechner estava parcialmente cego; que Scheibner também sofria da vista e tinha
dúvidas quanto ao seu próprio julgamento relativo aos fenómenos. Quanto a Weber,
este estava em idade avançada e não sabia das deficiências dos seus
companheiros.

Depois destas patifarias, é desnecessário dizer que o relatório da Seybert
Commission foi recebido com indignação pelos espiritualistas.

A reacção contra a comissão e a morte de Zoellner

O testamenteiro, Thomas R. Hazard, foi o primeiro a protestar contra a falta
de ética da Seybert Commission e contra os sórdidos métodos por ela empregados,
em total desacordo com a intenção do testamento.

Seguiu-se-lhe A. B. Richmond, membro do tribunal de Pensilvânia, que escreveu
dois livros criticando a comissão. Logo após, Podmore, através de um artigo
publicado no «Modern Spiritualism», denunciou a Seybert Commission como
delapidadora dos fundos legados por Seybert, bem como por divergir da orientação
testamentária concernente aos objectivos a serem seguidos por ela.

Na Alemanha também houve reacção. O barão Hellenbach, num artigo publicado em
«Nascimento e Morte», descreveu a sua decepção e amargura diante da atitude dos
colegas de Zoellner. Entretanto, Zoellner manteve-se na posse do seu intelecto,
até aos seus últimos momentos, disse ele.

Numa carta datada de 7 de Novembro de 1903 e enviada ao doutor Isaac Funk,
editor e investigador psíquico em Nova Iorque, em resposta à sua indagação
acerca de Zoellner, o doutor Karl Bucher, Magnífico Reitor da Universidade de
Leipzig, afirmou que a informação recebida dos colegas de Zoellner estabelece
que, durante todos os seus estudos, aqui na Universidade, até à sua morte, ele
se manteve mentalmente sadio; mais ainda: em perfeita saúde.

A causa da sua morte foi uma hemorragia cerebral, na manhã do dia 26 de Abril
de 1882, quando tomava o pequeno-almoço com a sua mãe, em razão da qual veio a
falecer logo após.

Zoellner nasceu em 1834. Faleceu, portanto, com 48 anos de idade,
razoavelmente jovem ainda. Quando iniciou as suas experiências com Slade, em
1877, estava com 43 anos.

É bem provável que as declarações atribuídas aos colegas de Zoellner tenham
sido ou forjadas ou maliciosamente induzidas por Fullerton, à custa de intrigas
bem urdidas por este. Verifica-se esta possibilidade devido à mútua
desmoralização atribuída àqueles professores.

Henry Slade terminou os seus dias de vida como alcoólico, inteiramente
despojado das suas faculdades mediúnicas. Faleceu em dolorosa decrepitude física
e mental, no sanatório Michigan, em 1905. A vida tumultuada de Slade encerra uma
grande lição e uma advertência aos médiuns invigilantes.

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