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História do Cristianismo II

História do Cristianismo II

A Bíblia é uma coletânea de diversos livros, subdivididos em Antigo e Novo
Testamentos. Para a maior parte das igrejas cristãs a Bíblia é a suprema
autoridade, constituindo-se na Palavra de Deus.

São livros escritos por autores vários através dos tempos que, segundo o
entendimento, teriam sido ditados por Deus aos homens. Livros escritos
originariamente em hebraico e aramaico, até o surgimento da imprensa, em 1450,
as duplicações de qualquer texto eram manuscritas e naturalmente eivadas de
erros de transcrição, tais como: omissão de letras e palavras, substituição de
locuções por um só vocábulo, separação de uma palavra em duas, ou o inverso,
unindo duas palavras em uma, negligência do escriba, falta de atenção,
interpolações para completar a idéia segundo o critério do copista, ou ainda por
tomarem uma letra por outra muito semelhante, tudo isto ocasionando alteração
das idéias originais, algumas vezes deliberadamente em busca de outros
propósitos.

A Bíblia não é fácil de ser entendida, porque seu linguajar arcaico leva
outras correntes doutrinárias a impropriamente interpretá-la ao pé da letra com
as naturais distorções, donde provém sua rejeição, de um lado pelos mais
exigentes e de outro, pelos acomodados.

Entre as traduções da Bíblia, as mais antigas e famosas são: a Versão dos
Setenta e a tradução feita por Jerônimo, chamada Vulgata. Recentemente, após as
descobertas dos Manuscritos do Mar Morto, processou-se sua tradução por
especialistas de diferentes religiões cristãs, procurando-se eliminar os desvios
semânticos, decorrentes das modificações da língua através dos tempos e de
diferentes interpretações, para que se chegasse a um denominador comum. Essa
tradução foi designada de A Bíblia de Jerusalém.

Ao se consultar o Antigo Testamento, são inúmeras as passagens em que Deus se
manifesta aos homens, constituindo as diversas Teofanias, ou seja, a
aparição, a manifestação de Deus às criaturas. Aqui cabe questionar:

  • Por que Deus não se manifesta hoje em dia ostensivamente e com a mesma
    freqüência dos tempos bíblicos?
  • Teria Deus mudado seu comportamento perante os homens?
  • Seria Deus mutável com o correr dos séculos?
  • O homem bíblico teria maior merecimento do que o homem moderno?
  • Deteriam os antigos privilégios exclusivos negados ao homem atual, da
    parte de Deus?
  • Teriam mudado as leis divinas ? E em tão curto espaço de tempo?

As Teofanias, ou seja, as manifestações de Deus aos homens, ou ainda os
fenômenos e fatos relatados nas escrituras, séculos ou milênios atrás, mandam a
lógica e a razão que necessariamente não só possam como devam repetir-se hoje
exatamente com as mesmas características, dentro das mesmas leis.

Não admitir isto, é o mesmo que admitir a mutabilidade de Deus. Deus teria
comportamento emotivo com o correr dos séculos. Estaria sujeito a tratar
diferentemente os homens conforme simpatizasse ora com uns, ora com outros. Deus
seria inconstante nos seus critérios de assistência aos seus tutelados.

Ora, é sabido que Deus é imutável, soberanamente bom e justo. O mesmo ocorre
com suas leis. Os homens, sim, mudam, porque evoluem e se aprimoram. Leis
outrora desconhecidas vão sendo aos poucos descobertas, sejam elas científicas,
filosóficas ou morais.

Assim, não se pode comodamente classificar os fatos bíblicos como milagres e
muito menos como sobrenaturais, o que seria aceitar uma derrogação das leis
divinas.

A palavra profeta deriva do grego prophetes que quer dizer pessoa que
fala em lugar de outra como intérprete e significa também pessoa que prediz o
futuro. Esta, a palavra, que nas páginas do Antigo Testamento, servia para
designar todos aqueles que faziam predições atribuídas a inspiração divina. Os
profetas de Israel extremamente obedientes e obstinados defensores do Decálogo
sobrepuseram-se aos demais povos pela sua pureza, pela sua moral.

A mais antiga manifestação histórica do profetismo é a que se dá entre os
judeus, corporificando aspectos fundamentais tanto do próprio judaísmo como,
mais tarde, da religião cristã. Os profetas de Israel têm por característica
principal servirem de mediadores entre um deus e um povo determinado, isto é,
entre Javé e os hebreus. O fenômeno remonta à fase de nomadismo das tribos
hebraicas, quando se limitava à expressão oral. Ainda na época de Samuel, de
Saul (séx. XI a.C.), o chamado ou inspirado (navi) era um vidente
extático e andarilho, suscetível de arrebatamentos, desmaios, êxtases,
flagelações, empenhando-se na defesa de Javé e contrapondo-se à influência de
outros cultos, como o da religião cananéia.

O aparecimento e o caráter do profetismo, entre os hebreus, têm relação
estreita com a obra e o papel desempenhado por Moisés — referido (Deut. 34,10)
como o maior dos profetas — na condução do povo de Israel à terra de Canaã.

Dos profetas eram exigidos presságios de acontecimentos futuros, parte
importante de suas tarefas tidas como sinais incontestáveis de serem
representantes de Deus. Tinham que abordar acontecimentos atuais e passados e
simultaneamente instruir o povo nos caminhos de Deus.

O primeiro profeta de que se tem notícia nas escrituras hebraicas é o próprio
Abrahão (Gn. 20-7), fundador da tribo de Israel.

De toda a longa tradição do profetismo hebraico, em que se manteve
inalterável o denominador comum da defesa de Javé e de sua ética, pelo menos 21
profetas se tornaram conhecidos: na primeira fase, monárquica, dos hebreus,
Samuel, Elias, Eliseu, Natã; no séc. VII a.C., Amós, Oséias, Isaías, Miquéias;
no séc. VII, Sofonias, Naum, Habacuque; no séc. VI, Jeremias, Ezequiel e o
Segundo Isaías; nos seçs. V e IV a.C., Ageu, Abdias, Zacarias, Malaquias, Joel,
Jonas e Daniel.

Os Livros Proféticos, de modo geral, registram as principais profecias dos
missionários de Israel. Assim, tem-se:

  • Isaías (séc. VIII a.C.) prevê a vinda do Messias; a ruína de Israel
    por sua infidelidade; a ruína da Babilônia, etc.
  • Jeremias (séc. VII a.C.) vaticina sobre a ruína de Jerusalém e
    Judá.
  • Ezequiel e Daniel (séc. VI a.C.) viveram no exílio da Babilônia,
    tendo Daniel profetizado vários fatos, tornando-se, inclusive, magistrado na
    corte do Rei Nabucodonosor.

2 – As Leis Mosaicas

Segundo vários teólogos, há duas partes distintas na lei mosaica: a lei de
Deus, promulgada sobre o monte Sinai, e a lei civil ou disciplinar, estabelecida
por Moisés; uma é invariável; a outra, apropriada aos costumes e ao caráter do
povo, se modifica com o tempo.

Esta lei é de todos os tempos e de todos os países, e tem, por isso mesmo, um
caráter divino. Todas as outras são leis estabelecidas por Moisés, obrigado a
manter, pelo temor, um povo turbulento e indisciplinado, no qual tinha que
combater os abusos enraizados e os preconceitos hauridos na servidão do Egito.
Para dar autoridade às suas leis, ele deveu atribuir-lhes origem divina, assim
como o fizeram todos os legisladores de povos primitivos; a autoridade do homem
deveria se apoiar sobre a autoridade de Deus; mas só a idéia de um Deus terrível
poderia impressionar homens ignorantes, nos quais o senso moral e o sentimento
de uma delicada justiça eram ainda pouco desenvolvidos. É bem evidente que,
aquele que tinha colocado em seus mandamentos: Tu não matarás; tu não farás
mal ao teu próximo
não poderia se contradizer fazendo deles um dever de
extermínio. As leis mosaicas, propriamente ditas, tinham, pois, um caráter
essencialmente transitório.

As leis mosaicas estão compiladas em cinco livros (Pentateuco), conhecidos
pelo nome de Torá, e contém um conjunto de prescrições e postulados que orientam
a vida moral, social e religiosa do povo judeu e se divide em:

  • Gênesis: Este primeiro livro contém a história primitiva; a criação
    do universo e do homem; o pecado original e toda sua conseqüência até o
    dilúvio.
  • Êxodo: Neste livro encontra-se a libertação dos judeus do Egito; a
    ?Aliança com Deus? no Sinai, com o Decálogo; a instituição de leis reguladoras
    da atividade social e religiosa e, ainda, regras objetivando resguardar a
    pureza do monoteísmo, contra as idolatrias e costumes arraigados por tanto
    tempo na convivência com os egípcios.
  • Levítico: É um livro legislativo, que regula o ritual dos
    sacrifícios de purificação e agradecimento; investidura de sacerdotes; leis
    sobre alimentação animal; sobre a purificação da mulher depois do parto; sobre
    casamentos ilícitos etc., com instituição de penas aos faltosos.
  • Números: Refere-se ao recenseamento de toda a congregação dos
    filhos de Israel, segundo suas famílias, segundo a casa de seus pais, contando
    todos os homens, nominalmente, cabeça por cabeça
    (Nm., 1:2). Aí
    registra-se também a primeira tentativa de se entrar em Canaã (Nm., 1:3); a
    rebelião contra o sacerdócio de Arão (Nm., 16 e 17); o direito de herança,
    etc.
  • Deuteronômio: Encerra um conjunto de três discursos de Moisés ao
    seu povo. No primeiro, conta a história de Israel e de seus objetivos para
    chegar à Terra Prometida, exortando-os à obediência. No segundo, Moisés conta
    a história da legislação, falando-lhes dos dez mandamentos e relembrando as
    leis editadas anteriormente e da necessidade de sua obediência. No terceiro
    discurso, Moisés fala da solene promulgação da lei, das bênçãos decorrentes da
    obediência e dos castigos da desobediência. Nos seus últimos atos, Moisés fala
    da nova aliança de Deus com o povo e das promessas da misericórdia divina; da
    indicação de Josué como seu sucessor e sua benção ao seu povo, antes de sua
    morte.

3 – O Monoteísmo e o Decálogo

As cinco obras básicas atribuídas à autoria de Moisés representam as tônicas
do pensamento religioso dos judeus. Uma parte caracteriza-se como de origem
nitidamente espiritual, conteúdo permanente e de interesse geral, universal,
transcendendo limitações de tempo e espaço, raça e culto. A essência de tal
pensamento está sumarizada no Decálogo. Uma certa unanimidade existe em torno da
considerável importância desse documento. É ele a base, o ponto de partida, a
estrutura de todo o desenvolvimento posterior de uma ética para as multidões que
viriam integrar a tradição judeu-cristã. Quando o Cristo dizia que não veio
derrogar a lei e sim fazê-la cumprir, é certo que se referia a esse conteúdo
espiritual, intemporal e universal do Decálogo.

O restante da obra de Moisés é desdobramento, detalhamento daquele código
básico com a finalidade de adaptá-lo aos costumes e caráter do povo hebreu. É
como se fossem a lei e a sua regulamentação.

Há, pois, no Pentateuco, um código permanente de ética ao lado de uma
legislação mais ou menos variável e adaptada à época e aos hábitos bem como às
crenças específicas do povo hebreu.

É indisputável a autoridade do Decálogo. Reconhecendo isto, a própria Igreja
Católica resolveu aceitá-lo e incorporá-lo aos seus ensinamentos, exatamente por
entender que a sua moral é sólida e que seus preceitos estão acima da posturas
meramente sectárias. Qualquer religião que se preze há de recomendar o que ali
está exposto: o respeito a Deus, à verdade, aos pais, à vida a aos bens alheios.

Um exame atento dos textos nos leva, não obstante, a admitir que o decálogo
não é um documento de amor e sim de comando. Não é sem razão, pois, que seja
também conhecido como os Dez Mandamentos. O primeiro preceito não nos
convida a amar a Deus – identifica-o e determina secamente: Não tereis,
diante de mim, outros deuses
. Aliás, quase todo o decálogo é vazado em forma
negativo-imperativa: não mates, não cometas adultério, não roubes, não prestes
falso testemunho, não desejes a mulher do próximo, não cobices os bens alheios.
Somente dois dos preceitos são escritos de forma positiva – a santificação de um
dia por semana e o respeito aos pais, este último, mesmo assim, não tanto por
amor, mas para que se possa viver longo tempo na Terra que Deus daria ao
povo hebreu.

A doutrina do amor, mantido a respeito pelas determinações do decálogo, seria
introduzida alguns séculos depois pelo Cristo.

Estas observações não têm o caráter de uma crítica que, obviamente, nada
retiraria do mérito incontestável que todos reconhecem no decálogo. Entretanto,
a um povo rude, ainda turbulento e heterogêneo como os hebreus nômades dos
primeiros tempos, seria totalmente inócuo um código que apenas fizesse apelo ao
amor fraterno, à mansuetude, à obediência consciente e voluntária.

O Decálogo figura duas vezes no Pentateuco: em Êxodo 20:2-17 e em
Deuteronômio 5:6-18. Há variações substanciais entre um texto e outro, mas não
tão significativas que invalidem as colocações nele contidas. Os exegetas do
Antigo Testamento acham que os textos, tal como hoje os conhecemos, resultam da
expansão posterior de uma versão original e primitiva bem mais sintética.

O decálogo e a crítica histórica – Até o aparecimento da crítica
histórica, aplicada às Escrituras na segunda metade do séc. XIX, poucos punham
em dúvida a autoria mosaica do Pentateuco, sobretudo de textos considerados
fundamentais, como é o caso do decálogo. Desde 1880, porém, até a atualidade, os
problemas da origem, da forma e da transmissão dos dez mandamentos têm
preocupado grande número de pesquisadores. Em 1889, Julius Welhausen abriu a
discussão com a obra Composição do Hexateuco e dos livros históricos do
Antigo Testamento
, negando que Moisés tivesse promulgado leis como as do
decálogo, de caráter permanente e universal. Desde então, questões como essa
permanecem em debate, em alto nível, entre estudiosos de renome, tanto nos meios
católicos e protestantes como judaicos.

Sigmund Mowinckel (O Decálogo, 1927) defende a teoria de que o decálogo é
fruto do pensamento profético de discípulos de Isaías, dos tempos pré-exílicos,
mas relaciona todo o trecho de Ex 19-24, no qual o decálogo, na forma em que se
apresenta hoje, veio posteriormente a ser inserido, com objetivos de culto e,
particularmente, com as mais antigas festas religiosas relativas ao velho pacto
da aliança entre Deus e o seu povo.

Posteriores hipóteses, principalmente de Albrecht Alt, a respeito do caráter
apodíctico (1) do decálogo, enfraqueceram as teorias de Mowinckel, mas tentaram
deixar claro que era impossível admitir a origem mosaica do documento, a qual
poderia atribuir-se somente às cláusulas relativas à casuística (2) da
legislação contida no Êxodo. Para Alt, a legislação desse último tipo era comum
a outros povos, mas o decálogo seria genuína criação israelita. Entretanto,
descobertas arqueológicas mais recentes levaram G.E. Mendenhall à conclusão de
que a legislação de tipo apodíctico existia já entre os hititas e outros povos,
exatamente com a mesma estrutura do Decálogo e seu contexto: um preâmbulo
histórico, cláusulas proibitivas, e prescrições quanto à guarda e leitura do
documento.

As discussões prosseguem. Não é possível negar a semelhança entre o decálogo
e velhos códigos de povos antigos contemporâneos do povo de Israel. Por outro
lado, é nítido o paralelismo entre algumas leis religiosas da Babilônia, bem
como o Livro dos Mortos (cap. 125) dos egípcios e alguns dos preceitos do
decálogo. Há neste, porém, como diferenças essenciais, o culto exclusivo ao Deus
único (monoteísmo) e a proibição da feitura de imagens: os dois aspectos que de
fato caracterizam a espiritualidade da religião bíblica.


NOTAS

(1) Apodíctico – Diz-se do que é demonstrável ou do que é evidente,
valendo, pois, de modo necessário.
(2) Casuística – Estudo dos casos de consciência, isto é, dos problemas
concretos que se apresentam à ação moral.


QUESTIONÁRIO

  1. Comumente se diz que a Bíblia é a palavra de Deus aos homens. Quais
    seriam os argumentos para que assim não a considerássemos em seu inteiro teor?
  2. Quais as versões mais antigas da Bíblia e em que línguas foram traduzidas
    estas versões?
  3. Qual a versão mais moderna da Bíblia?
  4. O que vem a ser uma Teofania?
  5. Qual a principal característica entre os profetas de Israel?
  6. Na história do povo hebreu, quantos foram os profetas? Cite 7 deles?
  7. Segundo o seu entendimento, o que seriam as leis mosaicas?
  8. Em quais livros do Antigo Testamento estão compiladas as leis mosaicas?
  9. O que é o decálogo e o que ele contém?
  10. Por que razão o decálogo é transcrito em forma negativo-imperativa?

TEXTOS EXTRAÍDOS DE:

  • KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo.
  • DENIS, Léon. Cristianismo e Espiritismo.
  • Curso de Aprendizes do Evangelho, FEESP.
  • DENIS, Léon. Depois da Morte.
  • Atlas da História Universal.
  • GIMÊNEZ, Henrique Neyde. A Mediunidade na Bíblia.
  • Enciclopédia Britânica.
  • MIRANDA, Hermínio C. A Reencarnação na Bíblia.

(Publicado no Boletim GEAE Número 409 de 23 de janeiro de 2001)