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Na Universidade – Indiferença ou Medo?

A Universidade é local de provas e até mesmo de expiações. Qualquer aluno que
enfrentou aulas de um “educastrador” pode testemunhar o que afirmo. No entanto,
na “disciplina” de divulgação da Doutrina Espírita no campus, a prova da
indiferença
dos próprios espíritas parece ter sido organizada com
questões do mais alto nível.

Embora na Casa Espírita (2) concordem que “Ninguém acende uma candeia para
pô-la debaixo do alqueire.(Mateus,V:15), dentro da academia há companheiros que
se dizem contrários. “Julgam vaidade o propósito de se lhe exaltar os méritos e
agradecer os benefícios nas iniciativas de carácter público. Para eles o
Espiritismo fala por si e caminhará por si. Estão certos nesta convicção, mas
acreditamos que isso não nos invalida o dever de colaborar na extensão do
conhecimento espírita com o devotamento que a boa semente merece do lavrador.

O ensino exige recintos para o magistério. O espiritismo deve ser apresentado
por seus profitentes em sessões públicas. A cultura reclama publicações. O
espiritismo tem a sua alavanca de expansão no livro que lhe expõe os postulados.
A arte pede representações. O espiritismo não dispensa as obras que lhe exponham
a grandeza. A indústria requisita produção que lhe demonstre o valor. O
espiritismo possui a sua maior força nas realizações e no exemplo dos seus
seguidores, em cujo rendimento para o bem comum se lhe define a excelência.

Allan kardec começou o trabalho doutrinário publicando as obras da
codificação e instituindo uma sociedade promotora de reuniões e de palestras
públicas, uma revista e uma livraria, para a difusão inicial da revelação nova.

Que Jesus estimou a publicidade, não para si mesmo, mas para o evangelho, é
afirmação que não sofre dúvida. Para isso, encetou a sua obra aliciando doze
agentes respeitáveis. Ele próprio fundou o cristianismo através de assembléias
públicas.

Chamou Paulo de Tarso para publicar-lhe os princípios junto à gentilidade a
que Jerusalém jamais se abria. Se quisermos preservar o espiritismo e
renovar-lhe as energias, a benefício do mundo, é necessário compreender-lhe as
finalidades de escola e toda escola para cumprir o seu papel precisa divulgar”.
(1)

No Núcleo Espírita Universitário do Fundão (UFRJ) recebemos uma série de
questões, compiladas num opúsculo, e duas delas nos ofereceram a oportunidade de
esclarecer dúvidas. Uma sobre o tríplice aspecto da Doutrina Espírita e outra
sobre a base utilizada por Kardec na elaboração de “O Evangelho Segundo o
Espiritismo”. Respondemos que “ o fato mediúnico sobe ao campo da Filosofia
quando procuramos explicar os graus da diversidade dos espíritos que se
comunicam e os diversos níveis de suas evoluções, e, ainda, quando explicamos a
sua marcha evolutiva através da reencarnação. Lembramos que “em espiritismo, a
Ciência indaga, a Filosofia conclui e o Evangelho ilumina, renovando a alma para
a eternidade.”

A Ciência e a Filosofia são os meios e o Evangelho é o fim.

A Instituição universitária, afastada das realidades do espírito, hoje possui
em seus departamentos muitos doutores, mas poucos sábios, como modelos para a
educação do homem integral. “No esforço científico e na perquirição filosófica,
o homem pode gastar indefinido tempo à procura das causas profundas do destino e
do ser, no Evangelho porém, o coração e o cérebro despertam para o caminho da
própria sublimação.

O Evangelho segundo o Espiritismo é o ensinamento moral do Cristo. As
matérias nos evangelhos podem dividir-se em cinco partes: os atos comuns da vida
do Cristo; os milagres; as predições; as palavras tomadas pela igreja para
fundamento de seus dogmas; e o ensino moral. As quatro primeiras têm sido objeto
de controvérsias; a quinta, porém, conservou-se inatacável. Considerando esta
última parte como código divino, o roteiro infalível para a felicidade vindoura,
Kardec, com a ajuda dos bons espíritos, achou essencial pô-la ao alcance de
todos, mediante a explicação das passagens obscuras e o desdobramento de todas
as conseqüências. Importante perceber que a cada capítulo, Kardec cita o
ensinamento de Jesus, a fonte de onde foi retirado e procura explicar os fatos à
luz dos postulados espíritas, como a imortalidade e a reencarnação.

Os estudiosos poderão encontrar explicações lógicas e racionais de temas que,
mantidos até hoje nas sombras dos “mistérios” ou “milagres”, permanecem sem
solução. Com a chave da reencarnação nos permitimos abrir a porta do
entendimento das mensagens de Jesus.

O seu capítulo XXIV parece adequado para ilustrar a questão da divulgação do
Espiritismo na Universidade.

“Ninguém acende uma candeia para pô-la debaixo do alqueire; põe-na, ao
contrário, sobre o candeeiro, a fim de que ilumine a todos os que estão na
casa”. ( Mateus, V: 15). “Ninguém há que, depois de ter acendido uma candeia, a
cubra com um vaso, ou a ponha debaixo da cama; põe-na sobre o candeeiro, a fim
de que os que entrem vejam a luz; pois nada há secreto que não haja de ser
descoberto, nem nada oculto que não haja de ser conhecido e de aparecer
publicamente.”(Lucas, VIII: 16).

“Aproximando-se, disseram-lhe os discípulos: por que lhes falas por
parábolas? —disse ele: é porque, a vós outros, foi dado conhecer os mistérios do
reino dos céus. Falo-lhes por parábolas, porque, vendo, não vêem e, ouvindo, não
escutam e não compreendem. E neles se cumprirá a profecia de Isaías, que
diz: ouvireis com os vossos ouvidos e não escutareis; olhareis com os vossos
olhos e não vereis.”(Mateus, XIII: 10)

Jesus falava-lhes por parábolas, porque não estavam em condições de
compreender certas coisas. Viam, olhavam, ouviam, mas não entendiam. Oferece
explicação aos discípulos: “Digo-o, porém, a vós, porque dado vos foi
compreender estes mistérios.” Procedia, portanto, com o povo, como se faz com
crianças cujas idéias ainda se não desenvolveram. Todo ensinamento deve ser
proporcionado à inteligência daquele a quem se queira instruir.

Piaget, dois mil anos depois, oferece sua contribuição. No nível sensório
motor a criança é incapaz de representação. No estágio pré-operatório ou
pré-lógico já há a possibilidade de evocar objetos ausentes e de representação
simbólica, mas a criança é ainda incapaz de avaliar a qualidade de um objeto de
acordo com uma relação. Só no estágio operatório essas relações se estabelecem e
o pensamento adquire um princípio de lógica. No entanto, só mais tarde se torna
capaz de resolver os problemas mentalmente, examinando hipóteses, sem
preconceitos e com atitude científica.

Encontramos estágios semelhantes, não apenas nos alunos, quando a hipótese,
que melhor explica o fato inusitado, é a reencarnação.

As gerações têm sua infância, sua juventude e sua maturidade. Cada coisa tem
de vir na época própria; algumas sementes lançadas à terra, fora da estação, não
germinam. É necessário mantermos reservas em determinadas ocasiões. Manter
reserva não é o mesmo que colocar sob o alqueire.

Poder-se-ia perguntar naquela época: que proveito podia o povo tirar das
parábolas, cujo sentido se lhe conservava impenetrável? Kardec lembra que Jesus
somente se exprimiu por parábolas sobre as partes de certo modo abstratas da sua
doutrina. Mas, tendo feito da caridade para com o próximo e da humildade
condições básicas da salvação, tudo o que disse a esse respeito é inteiramente
claro, explícito e sem ambigüidade. Era a regra de conduta, que todos tinham de
compreender para poderem observá-la. Sobre as outras partes, apenas aos
discípulos desenvolvia o seu pensamento, eles eram mais adiantados, moral e
intelectualmente. Daí o haver dito: aos que já têm, ainda mais se dará.
Entretanto, mesmo com os apóstolos, conservou-se impreciso acerca de muitos
pontos. Foram esses pontos que deram ensejo a tão diversas interpretações, até
que a Ciência e o Espiritismo revelassem as novas Leis da Natureza, que lhes
tornaram perceptível o verdadeiro sentido. Mesmo assim, com admirável prudência
se conduzem os espíritos, ao darem suas instruções. Eles ainda não dizem tudo
ostensivamente, não colocam a lâmpada debaixo do alqueire, esperam o momento
oportuno.

Jesus já estava de posse do conhecimento antes de Piaget. Por isso enviou
seus doze apóstolos, com as instruções seguintes: “não procureis os gentios e
não entreis nas cidades dos samaritanos. — ide, antes, em busca das ovelhas
perdidas da casa de Israel; — e, nos lugares onde fordes, pregai, dizendo que o
reino dos céus está próximo.” ( Mateus, X: 5.).

Os judeus já acreditavam no Deus uno e esperavam o Messias. Estavam
preparados, pela lei de Moisés e pelos profetas, a lhes acolherem a palavra,
iriam semear em terreno já arroteado. Este mesmo raciocínio aplica-se hoje aos
divulgadores do Espiritismo nas Universidades.

Äo aluno de graduação de nada adiantaria detalhar determinadas informações.
No entanto, essas mesmas informações podem ser imprescindíveis aos alunos da
pós-graduação.

Os incrédulos sistemáticos, os zombadores obstinados, são para nós hoje, o
que eram os gentios para os apóstolos. Não perder tempo com os que não querem
ver, nem ouvir. Deixá-los tranqüilos não é indiferença, mas boa política. Há
idéias que “não podem germinar fora da estação apropriada, nem em terreno não
preparado”.

Por outro lado, as informações podem ser deixadas numa página na internet. Um
dia eles amadurecem e a examinam.

A divulgação deve estar isenta de preconceitos e devemos abrir as portas ao
povo, socializando o conhecimento não apenas porque pagam seus impostos.

“Estando Jesus à mesa em casa desse homem (Mateus), vieram aí ter muitos
publicanos e gente de má vida, que se puseram à mesa com Jesus e seus
discípulos; os fariseus, notando-o, disseram aos discípulos: como é que o vosso
Mestre come com publicanos e pessoas de má vida? Tendo-os ouvido, disse-lhes
Jesus: não são os que gozam saúde que precisam de médico. (Mateus, IX: 10)

Jesus se acercava, principalmente, dos pobres e dos deserdados, porque são os
que mais necessitam de consolações; dos cegos dóceis e de boa fé, porque pedem
se lhes dê a vista, e não dos orgulhosos que julgam possuir toda a luz e de nada
precisar.

Espíritas que são professores, funcionários ou alunos devem ser espíritas
também dentro da Universidade e colaborar na divulgação. Muitos temem revelar
sua condição, de espíritas, e se ocultam atrás da máscara do materialismo ou do
agnosticismo
. Temem entrar na sala de reuniões ou mesmo serem vistos lendo
um cartaz colocado no campus. Esses espíritas sem coragem esqueceram as palavras
daquele que usam como Modelo e Guia. “Aquele que me confessar e me reconhecer
diante dos homens, eu também o reconhecerei e confessarei diante de meu pai que
está nos céus. (Mateus, X: 32). “Se alguém se envergonhar de mim e das minhas
palavras, o filho do homem também dele se envergonhará, quando vier na sua
glória e na de seu pai e dos santos anjos”. (Lucas, IX: 26).

A coragem das opiniões próprias sempre foi tida em grande estima, porque há
mérito em afrontar os perigos, as perseguições, as contradições e até os simples
sarcasmos, aos quais se expõe aquele que não teme proclamar abertamente idéias
que não são as de toda gente. Jesus condena a covardia e diz que aqueles que se
houverem arreceado de se confessarem discípulos da verdade não são dignos de se
verem admitidos no reino da verdade. Perderão as vantagens da fé que alimentem,
porque se trata de uma fé egoísta que eles guardam para si, ocultando-a para que
não lhes traga prejuízo neste mundo.

Jesus não disse que seria fácil, por isso é necessário que nos unamos para
sermos menos medrosos.

“Chamando para perto de si o povo e os discípulos, disse-lhes: se alguém
quiser vir nas minhas pegadas, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me; —
porquanto, aquele que se quiser salvar a si mesmo, perder-se-á; e aquele que se
perder por amor de mim e do evangelho se salvará. — com efeito, de que serviria
a um homem ganhar o mundo todo e perder-se a si mesmo? (Marcos, VIII: 34; Lucas,
IX: 23; Mateus, X: 38; João, XII: 25)

No Evangelho Segundo o Espiritismo encontramos: “considerai-vos ditosos,
quando haja homens que vos dêem ocasião de provar a sinceridade da vossa fé,
porquanto o mal que vos façam redundará em proveito vosso. Lamentai-lhes a
cegueira, porém, não os maldigais.”

“Tome a sua cruz aquele que me quiser seguir” pode ser interpretado como:
“suporte as tribulações que sua fé lhe acarretar.

O universitário espírita deve estar consciente de que a Ciência indaga, a
Filosofia conclui e o Evangelho ilumina, mas também que fora da divulgação não
haverá rápida iluminação. O período das construções de edifícios já está
deixando entrar o da divulgação. E, aí, é necessário possuir um Guia e uma Base
Fundamental.

Referencias Bibliográficas

1. Emmanuel, André Luiz. Divulgação Espírita. In: Opinião
Espírita. Edição Comunhão Espírita Cristã, Uberaba. MG. Segunda edição. Pág.
160-163, 1966.

2. Kardec, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. XXIV.

Obs: Palestra proferida na União Espírita Fernandes Figueira e Bezerra de
Menezes, fundada em 1888, no Rio de Janeiro, quando da comemoração de seus cento
e onze anos de atividade (1999).

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