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Jesus e as Tribos Perdidas

Jesus e as Tribos Perdidas

Fernando Guedes de Mello, OM*

A figura de Jesus tem sido o centro de uma milenar disputa entre judeus e cristãos. A julgar pelos evangelhos, essa disputa teve início ainda durante o seu ministério público. Ao lê-los, é fácil detectar diferentes atitudes de seus ouvintes, que variam de uma profunda admiração e espanto até a oposição e condenação. Longe de arrefecer, tais confrontos se intensificaram depois do episódio de sua crucificação, segundo os relatos do Atos dos Apóstolos. Sempre é oportuno lembrar que, nos seus primórdios, tratava-se de uma disputa entre judeus, já que os primeiros cristãos seriam todos judeus. Disputa, aliás, que já ocorria entre facções: fariseus, saduceus, essênios, nazarenos, zelotes, etc., indicando que o judaísmo não era, nem nunca foi, um bloco monolítico de crenças. Só mais tarde, quando o cristianismo começa a se expandir além da Judéia, graças ao trabalho de pregação de Paulo de Tarso, é que os gentios começam a intervir nessas disputas.

Até então, segundo Atos, os apóstolos continuavam a rezar no Templo, em Jerusalém. Fora da Judéia, o primeiro lugar a ser procurado por aqueles que pregavam o Evangelho eram as sinagogas. O areópago e outros locais de reunião da população de origem grega ficavam como uma segunda opção. Só quando a resistência dos judeus à nova mensagem dos cristãos aumentou é que tal situação se inverte. Havia uma tensão entre os dois lados, mas ainda não havia uma ruptura. Essa só ocorre no ano 62, 30 anos depois da crucificação! É quando, segundo Flávio Josefo em Antigüidades Judaicas, o sumo sacerdote Anã convoca uma reunião do Sinédrio para julgar Tiago, chefe da comunidade dos cristãos em Jerusalém, que em conseqüência morre apedrejado, junto com outros cristãos.

O episódio deve ter tido forte repercussão, ao longo de todo o Império Romano, e até mesmo além, onde quer que existisse uma comunidade judaica, e marca a ruptura definitiva entre a Igreja e a Sinagoga. Pedro, por exemplo, que naquela ocasião estaria pregando junto à grande comunidade judaica da Babilônia, segundo H.P.Blavatsky, citando o Talmude, deve ter buscado refúgio junto à florescente comunidade cristã de Roma, então sob a liderança de Paulo de Tarso.

Os conflitos na Judéia aumentaram mais ainda, em 66, com a recusa dos cristãos de participar da guerra contra a dominação romana. Foram expulsos de Jerusalém e tiveram de procurar asilo na cidade não-judia de Pela, na Transjordânia. Para complicar mais ainda as coisas, com a queda de Jerusalém em 70, os sobreviventes judeus foram expulsos da cidade pelos romanos e os cristãos autorizados a retornar. Ali construíram a primeira igreja da cristandade no Monte Sião. Sua arquitetura lembrava em tudo uma sinagoga, inclusive o nicho para guardar a Torah, mas com uma sutil diferença: o nicho não estava voltado para o Templo, como deveria, mas para o Calvário e o Santo Sepulcro.

Todos esses acontecimentos só fizeram aumentar as desconfianças e ressentimentos mútuos, levando a uma crescente radicalização de posições: de um lado os judeus que, no concílio de Jâmnia, por volta do ano 80, reorganizam a fé judaica no exílio e condenam a fé cristã como herética; de outro, os cristãos, que desde sua expulsão das sinagogas, não mais nutrem considerações diplomáticas ou missionárias para com a sensibilidade dos judeus e que, por isso mesmo, passam a proclamar abertamente que “Jesus é o Senhor e Deus”. Estavam lançadas aqui as bases sobre as quais o status de Jesus será definido no concílio de Nicéia, quase três séculos mais tarde, e que extrapola o papel reservado ao Messias no judaísmo: ficava decretado que Jesus era o único Filho de Deus e, ele próprio, Deus, a encarnação da Segunda Pessoa da Trindade.

É assim que foi sendo construído um antagonismo tão sistemático quanto equívoco entre as duas comunidades. Com a ascensão do cristianismo à condição de religião oficial do Império Romano, no século IV, as perseguições aos judeus passam a fazer parte integrante da lógica do novo sistema de poder. São acusados por qualquer motivo, sendo acusação central a de terem matado Jesus. É como se tais crenças e acusações estivessem enterradas no inconsciente coletivo da cristandade e, de tempos em tempos, eclodissem em novos pogroms, sendo o último grande pogrom o holocausto promovido pelos nazistas. A essas alturas, nos perguntamos se poderá haver paz entre os homens enquanto os sistemas de crenças que deram origem a guerras entre eles permanecerem intocados e inquestionáveis. Feita essa introdução – um tanto longa, mas necessária – vamos ao tema sobre o qual nos propusemos escrever:

As Tribos Perdidas

Os acontecimentos envolvendo as dez tribos que constituíam o reino de Israel parecem se perder nas brumas da história, como denota o adjetivo “perdidas”. Seu destino parece ter sido selado com a destruição daquele reino pelo rei dos assírios Senaquerib, no século VII a.C. A partir daí, muitos de seus habitantes espalharam-se pelo mundo afora. Com o passar do tempo, os relatos a seu respeito acabaram envolvidos em lendas. Uma boa coletânea dessas lendas encontra-se no CD-Rom produzido pelo Museu da Diáspora Nahum Goldmann, de Telaviv. Falta-lhe, no entanto, uma pesquisa histórica mais completa, envolvendo a arqueologia e ciências afins.

A primeira referência decorrente de um estudo in situ que encontramos está no livro “Jesus Viveu na Índia”, do teólogo alemão Hoger Kersten, que viajou por todo o Oriente para pesquisar sobre o tema. Foi assim que detectou a presença de descendentes das tribos perdidas, desde a Turquia até a China, passando pelo Irã, Afeganistão, Paquistão e Índia. Menciona inscrições em hebraico encontradas na Índia e em aramaico no Paquistão. A maior descoberta, entretanto, refere-se ao povo da Cachemira, cuja fisionomia, hábitos, tradições e língua denotam ainda hoje sua origem israelita. A língua, em especial, difere de todos os idiomas falados na Índia, que derivam do sânscrito, e guarda grande parentesco com o hebraico, principalmente o vocabulário empregado pelo povo no dia a dia.

Todos esses povos ali encontrados se dizem descendentes das tribos de Israel, embora tenham o islamismo por religião. É que, a partir do século VII, todos eles foram convertidos a força à religião muçulmana. Só a partir de então é que se poderia começar a falar das tribos de Israel como “perdidas”. Antes, não. Portanto, no século I, durante a vida de Jesus, elas não estavam tão perdidas assim. Muito pelo contrário. É nesse contexto que Holger Kersten vai situar a passagem de Jesus pelo Oriente, onde ele deve ter se sentido inteiramente em casa e não em terra estrangeira.

Essas alusões à estada de Jesus no Oriente sempre produziram grande mal estar entre os cristãos porque colocam em xeque os dogmas estabelecidos a seu respeito. Por essa razão, não é de se estranhar que autores, como Holger Kersten, que ousam enfrentar o desafio do tema, sejam tão mal vistos pelos escolásticos cristãos. Mas, como procuraremos mostrar, não deveria ser assim entre os judeus. Desse modo, foi para mim uma agradável surpresa ter me deparado com a reportagem da revista “Morashá” de dezembro de 98, sobre pesquisa que vem sendo feita pelo rabino Eliahu Avihail desde 1960, comprovando a existência dos descendentes das tribos de Israel no Oriente, que guardam ainda muitos costumes típicos de seus antepassados. A certa altura, diz aquela revista:

“Alguns historiadores afirmam que todos os habitantes da Cachemira, no norte da Índia, são descendentes de judeus convertidos ao islamismo. O rabino Avihail fez duas viagens à região e confirmou a existência de muitos costumes que lembram o judaísmo. Entre eles, o ato de ascender velas e usar barba e peiot”.

Tirante a imprecisão do termo “descendentes dos judeus” que, no caso, deveria ser “descendentes dos israelitas”, tudo o mais parece confirmar as conclusões de Holger Kersten.

Jesus no Oriente

As pesquisas de documentos indicam que Jesus esteve no Oriente por, pelo menos, duas vezes: na juventude, antes de seu ministério público, e depois da “ascensão”, descrita no início do livro de Atos. Sua passagem por lá na juventude está registrada num documento encontrado, pela primeira e última vez, pelo historiador russo Nicolai Notovitch, no fim do século XIX. Faz parte da biblioteca de um monastério budista, zelosamente guardado pelos lamas (melhor dizendo, escondido por eles, que não parecem ter maior interesse em que os ocidentais tenham acesso ao documento). O monastério situa-se em Himis, a 40 quilômetros de Leh, capital do Ladakh (“Pequeno Tibete”). Como era de se esperar, a divulgação do conteúdo do documento por Notovitch no Ocidente, naquela ocasião, foi boicotada pelas igrejas cristãs, o que deve ter levado os lamas a reconsiderar a oportunidade de sua divulgação desde então.

Quanto à sua segunda estada por lá, ela começa depois da sua “ascensão”, entendida aqui como poder de levitação, que Jesus dominava (Mt 14,22-33; Mc 6,45-52; Jo 6,16-21), bom yogue que era. Não faz sentido dizer que ele “subiu aos céus, onde está sentado à direita de Deus Pai Todo Poderoso, de onde há de vir julgar os vivos e os mortos”, como reza o Credo. Tendo em vista o atual conhecimento científico do mundo, em que a Terra já não é mais o centro do universo, a primeira pergunta que qualquer criancinha mais inteligente hoje faria, seria: “Então quer dizer que Jesus entrou em órbita?”

Assim, (1) seu encontro com Paulo de Tarso anos depois às portas de Damasco, onde Jesus orientava um círculo essênio dirigido por Ananias (At 9,1-19), (2) as histórias de Santo Issa, incorporadas pela tradição muçulmana em todo o Oriente, (3) os evangelhos apócrifos que dão notícia de sua volta à Índia em companhia de Tomé, passando por Taxila, no atual Paquistão; e o mais importante, (4) o seu túmulo nas proximidades de Sri Nagar, capital da Cachemira, guardado até hoje por sacerdotes muçulmanos – tudo isso dá testemunho de uma outra versão da vida de Jesus, diferente da do Credo de Nicéia. Sua passagem pela Oriente parece ligar-se às escolas de sabedoria, cujos integrantes ficaram conhecidos como sufis. São anteriores ao islamismo, conforme reconheceu o próprio Maomé, ao afirmar que “aquele que houve a voz do povo sufista e não diz amém, é lembrado na presença de Deus como um insensato”, da mesma forma como já havia conclamado seus seguidores a respeitar “o povo do livro”, isto é, judeus e cristãos. Os descendentes das tribos de Israel, sob a orientação de Jesus, bem podem estar na origem de tais escolas esotéricas, de que as igrejas cristãs no Ocidente seriam tão somente uma versão mais popular ou exotérica. Na realidade, as tribos perdidas estariam cumprindo um designo secreto de Deus. O fracasso do reino de Israel seria só aparente, pois permitiu bênçãos muito maiores em prol da humanidade. À esses círculos fora da Palestina parece referir-se o Evangelho, quando diz: Tenho outras ovelhas que não são desse aprisco…(Jo 10,16); Na casa de meu Pai há muitas moradas…(Jo 14,2); ou, Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel (Mt.15,24).

Essa versão da vida de Jesus questiona os dogmas instituídos a seu respeito pela Igreja. Em compensação, realça-lhe o papel de grande instrutor da humanidade, exercendo seu ministério em diversas partes do mundo. Um Avatar, diriam os hindus. Um Bodhisattwa, os budistas. Uma nova encarnação de Zaratustra, os seguidores de Zoroastro. Um Messias, os judeus. Sim, um Messias no sentido judaico, sem o sentido de endeusamento e monopólio da salvação que a palavra tomou nas igrejas cristãs. Lembramos que a tradição dos rabinos fala de dois messias: o de Aarão e o de Davi. Então, por que não três, quatro, etc.? Quanto mais messias, cristos, budas e avatares, melhor!

Chamamos a atenção ainda para a “coincidência” da realização do concílio de Harã (cidade homônima de Harã da Mesopotâmia, mas localizada nas proximidades de Sri Nagar, na Cachemira), no final do século I, que resultou na fundação da escola Mahayana e que redirecionou o próprio budismo, tendo o ideal do bodhisattwa como sua característica principal. Sua marca mais importante: a compaixão (O bodhisattwa, para os budistas, é aquele que abre mão de entrar no nirvana e volta para ajudar todos os seres a atingir a iluminação, isto é, a salvação). Existe algo mais próximo da mensagem de Jesus do que isto? O túmulo de Jesus encontra-se exatamente em Harã e, segundo uma antiga tradição oral conservada pelos muçulmanos da Cachemira, Jesus viveu lá até os 120 anos de idade.

Deixamos para o final o comentário mais relevante para os judeus: a versão da ressurreição, segundo a qual Jesus não morreu na cruz, mas sobreviveu à crucificação (Versão não-oficial que sempre existiu, conhecida por heresia doucetista e que foi mais tarde encampada pelos muçulmanos – Alcorão 4,157). Como os yogues que se deixam enterrar por vários dias, ele entrou num transe profundo e pôde recuperar-se no sepulcro, nas proximidades do Calvário, que fora adquirido por seu discípulo secreto e membro do Sinédrio, José de Arimatéia, com aquela finalidade. Existem hoje vários indícios que sustentam essa tese, inclusive as narrativas dos próprios evangelhos canônicos, que podem ser interpretadas nesse sentido. Sua comprovação provocaria a maior revolução religiosa dos últimos dois mil anos e livraria os judeus da grande acusação que pesou sobre eles durante todo esse tempo: a de que eles mataram Jesus.

Temos aí material suficiente para reescrever e redirecionar a própria história do judaísmo, do cristianismo, do islamismo e do budismo. A tarefa que nos aguarda nesse novo milênio será a de abrir os grandes sistemas ortodoxos que, entregues a si mesmos, parecem sempre conduzir ao fundamentalismo e à intolerância. Inspirados no fecho do “Manifesto Comunista”, conclamamos:

“Heterodoxos de todo o mundo, uni-vos!”

(publicado em dezembro de 1999 pela Revista de Estudos Judaicos, do Instituto Histórico Israelita Mineiro)

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