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Jóias devolvidas – Testemunho de mãe na desencarnação da filha exemplifica fé

Jóias devolvidas – Testemunho de mãe na desencarnação da filha exemplifica fé

Existe uma palavra-chave para enfrentarmos com serenidade e equilíbrio a morte de um ente querido: submissão.

Ela exprime a disposição de aceitar o inevitável, considerando que, acima dos desejos humanos, prevalece a vontade soberana de Deus, que nos oferece a experiência da morte em favor do aprimoramento de nossa vida.

A conhecida mensagem “Jóias Devolvidas” que Richard Simmonetti colocou em seu livro “Quem tem medo da morte?” (editora CEAC) foi distribuída no dia do velório e sepultamento de minha filha Ana Cláudia, vítima de um acidente de carro, quando voltava do serviço, foi um bálsamo aos corações que lá compareceram, dando-lhes a conformação tão necessária e importante para o Espírito que se desligava de uma curta passagem nesta encarnação.

Por volta das 3:15 horas do dia 18 de janeiro, fomos despertados pela campainha de casa e pela sirene de uma viatura policial.

Aí começava minha experiência e que por sugestão amiga, passo a narrar.

Num primeiro momento veio-me ao pensamento a idéia de que fosse algum acontecimento com meu filho. Rapaz, de 22 anos, que se expõe muito mais na madrugada, por razões de serviço, por ficar um pouco mais com a namorada, enfim coisas da juventude. Porém logo em seguida, de forma bem consciente eu mesma respondi – não, é com a Maria Cláudia.

Nesse momento, meu marido já vinha subindo a escada, pálido, e me dizendo ter uma notícia desagradável. Um acidente e… de pronto lhe disse: com a Ana Cláudia.

– Sim, é ela…

Uma forte emoção tomou conta de nós dois, mas eu sentia que precisava ir até o local do acidente. Insisti com o policial, que achava melhor não, pois dizia ele o quadro era assustador.

Castro, meu marido, já me conhecendo, não interpôs nenhum impedimento e, após comunicar o ocorrido ao meu genro e também vizinho, saímos na própria viatura rumo ao local do desastre.

Durante todo o trajeto eu sentia que precisava ir, eu precisava tirar minha filha dali, mesmo sabendo que ela já havia falecido.

Realmente o quadro era terrível para uma mãe. Minha filha, já morta, presa às ferragens, aguardando que especialistas chegassem para poderem tirar o corpo.

Aproximei-me, calma, procurando sempre em oração a força para suportar aquele momento.

Segurei-lhe a mão e acariciando seu rosto, escutava-a dizendo: – Mãe me ajuda, mãe me ajuda! Seu corpo inerte, mas eu sentia sua mão na minha. Comecei então a oração de Cáritas e, em alguns segundos, interrompi, conversando com ela, passando-lhe o que havia acontecido, que procurasse se manter calma e que o socorro já estava presente. Sempre em um misto de oração e conversa, acariciando-lhe e sentindo-a, comecei a perceber a presença da espiritualidade em socorro a ela.

Fui percebendo-a mais calma na sua súplica, até que praticamente não a escutava mais. Acredito que neste momento os amigos espirituais encontraram a aceitação dela para o socorro, não sei se é bem essa a palavra – aceitação.

De forma bem forte também senti no local a presença de meu pai, já desencarnado e que tinha pela neta adoração no que era correspondido.

Voltamos para casa, pois que lá já não podíamos mais fazer nada.

Em seguida as comunicações aos parentes mais próximos, o encaminhamento da situação junto à polícia, o corpo para o IML (Instituto Médico-legal), e lá mais uma vez senti a necessidade de, por um instante, estar a seu lado e novamente em voz alta, em prece, conversar com ela. Graças à compreensão do meu companheiro e também pela certa tranqüilidade que me envolvia, me foi permitido pela autoridade médica que lá se encontrava e que, num primeiro momento, relutou em aceitar minha vontade.

Mais uma vez em casa, senti a ajuda da espiritualidade, intuindo-me a buscar uma mensagem que pudesse ser distribuída durante o velório. Lembrei-me de uma mensagem que consta do livro “Quem tem medo da morte?”, de Richard Simonetti, e que, segundo consta no próprio livro, era aceita com boa receptividade, quando entregue em velórios em Bauru. Porém a escolha recaiu sobre outra que me pareceu mais consoladora e aos que me conhecem sabem do quanto aprecio os ensinamentos através de estórinhas e esta quando tinha a oportunidade de contá-la era bem recebida – “Jóias Devolvidas” e que consta do mesmo livro citado.

Seguiram-se as providências e as horas também passavam. Chegando o corpo ao cemitério por volta do meio dia.

Procurava forças sempre na oração, eram os amigos e parentes chegando, alguns calmos, outros em prantos, reações de todos os tipos, até alguns curiosos.

Nesses momentos pensava: Preciso tranqüilizar minha filha, que pode não estar preparada para receber essas emoções.

Permaneci junto ao seu caixão e por algumas vezes que me afastava por insistência de amigos, uma voz íntima pedia-me para voltar, que eles precisavam de mim ao seu lado. Era como se eu me afastando, ela relutasse de alguma forma. E ela era assim, em momentos difíceis ela se colocava ao meu lado e não desgrudava. Por ocasião do nascimento de sua filhinha ela chamava tanto: – Quero minha mãe!, que o médico não teve outra alternativa senão abrir uma exceção e me chamar para ficar ao seu lado. E só então ela se acalmou um pouco e a criança nasceu. Mas voltando, por volta das quatro horas, eu ao seu lado, ora em prece, ora em conversa mental, comecei a ver uma luz de cor azul em seu peito. Esse azul foi se misturando a um prateado e se estendendo sobre a região do coração. Uma projeção e luz muito bonita e que me faltam palavras para descrever.

Nesse momento, acredito, a espiritualidade conseguiu tirá-la dali e novamente veio-me a necessidade e vontade de em voz alta fazer-lhe uma prece e terminando a prece, sentindo que o espírito se retirava, despedi-me de minha filha, que regressava ao plano espiritual, dando-lhe a certeza de meu amor, do meu carinho e tentando fazer-lhe entender que aquela separação era apenas momentânea, que estaríamos sempre unidas pelo pensamento e pelos laços de amor cultivados ao longo dos vinte anos de convivência,

Passado esse momento, já podia me afastar do ambiente, sem sentir o chamado. Durante todo o tempo do velório uma música suave permaneceu na esperança de acalmar os que se achegavam e manter o ambiente numa vibração de conforto e bem-estar.

Por volta das 17 horas, senti que já poderíamos fechar a urna e antecipar o sepultamento, que nada mais havia para ser feito ali.

Agradeço de coração a presença de todos. O conforto foi muito grande e acredito que minha filha, espírito de luz, foi instrumento de muitas lições para todos nós, e que pouco a pouco cada um saberá interpretá-la.

Agradeço ao meu marido, meu companheiro, que embora muito abatido pela situação, respeitou minhas convicções, minha fé, dando-me total apoio e liberdade para agir.

Aos amigos que compreendendo ou não o meu proceder, acompanharam-me nas preces e na despedida que fiz com o coração de mãe.

E confiante e agradecida pelo socorro espiritual que ela, Maria Cláudia recebeu, na madrugada seguinte, uma das mais longas que já tive, não conseguindo conciliar o sono, permanecia ligada ao Evangelho e às preces, tomada pelas lembranças, pelas recordações, acompanhando no relógio os minutos se passarem, torcendo para a chegada do amanhecer, ligada à filha tão querida, pedi a espiritualidade, ao meu anjo guardião que se houvesse possibilidade pudesse eu adormecer e que nesse cochilo pudesse estar com ela no Pronto-Socorro que a acolhera e que se permitido guardasse alguma lembrança desse encontro para tranqüilizar o coração de mãe.

Passados alguns minutos adormeci. “Sonhei” e acordei feliz, até sorrindo. E como havia pedido que ficasse em mim uma lembrança, veio à minha mente, um quarto, à meia luz, uma cama ao fundo onde visualizava o corpo deitado coberto por algo que não tem o branco do lençol-matéria, é como uma fumaça fina, uma cerração bem leve. Do alto que não vejo teto desce um véu (como esses mosquiteiros sobre os berços), de luz prateada envolvendo-a. Lembro-me que saí por um corredor de hospital, passando por um vidro grande à esquerda, visualizo um nenê e ao seu lado a mãe. Pergunto a quem me acompanha: – Aqui tem maternidade? – Sim, responde-me, aqui também tem maternidade. Passo por uma porta larga com as folhas num tom azul/verde, acordo feliz.

Hoje tenho certeza do socorro prestado, de que ela está sendo assistida, que talvez não tenha ainda a compreensão do que lhe aconteceu e me sinto calma. Não guardo qualquer sentimento de revolta pelo acontecido, nem pelos outros rapazes que estavam no carro. Pelo contrário, peço também socorro a eles, tão necessitados quanto minha jóia que foi devolvida.

E esta paz que sinto está no conhecimento que encontrei quando tive a oportunidade de abraçar a Doutrina Espírita. A consolação que sinto está na certeza de que Deus é realmente um Pai como nos ensinou Jesus. Pai de bondade, que deseja que nos acheguemos a ele por nossos próprios méritos. Doutrina que nos esclarece que estamos aqui em várias passagens para aprendermos a nos amar uns aos outros através da convivência, por vezes tumultuada, mas de grande riqueza para aqueles que souberem aproveitar a oportunidade. Que a morte não existe para o espírito, que é eterno, é apenas mais uma das transformações a que estamos sujeitos e que as separações são apenas momentâneas e físicas, pois através do pensamento estamos sempre sintonizados uns aos outros.

Doutrina abençoada, que me deu a luz, o esclarecimento, a conformação diante de um momento ainda tão difícil para nós, todos nós.


 

 

Mensagem de Ana Claudia

 

Recebida pela psicografia no “Lar Espírita Cristão Aurélio Agostinho”, no dia 29 de janeiro de 2002, apenas 11 dias após o falecimento de minha querida Ana Claudia, por ocasião da reunião de estudo e desenvolvimento mediúnico:

 

“Quando parti deste mundo sofri muito, passei vários dias em repouso até entender que havia partido. Mãe querida você muito me ajudou.

Hoje pude estar aqui nesta Casa de Oração para dizer um pouco do muito que recebo neste maravilhoso mundo em que vivo.

Hoje vejo você daqui e sinto sua presença. Vejo-a todas as noites ajoelhada no seu quarto orando por mim. Obrigado mãe pelas suas preces, elas me ajudam muito, estou feliz agora mãe e a amo cada vez mais. Que Deus a ilumine sempre.

Sua filha querida que lhe ama muito. Obrigado, Senhor, por estar aqui. Obrigado pelas preces.”

Sei que pode esta mensagem ser questionada pelo fato de não haver mencionado nomes, porém a médium que a recebeu desenhou conforme suas possibilidades, de forma muito singela, as estrelas e o que talvez simbolizem raios de luzes. Desenhou também algumas flores. Realmente eu tenho por hábito fechar somente a parte de vidro da porta balcão do quarto e nesses dias seguidos ao acontecido sentava-me na cama e olhando para fora orava a Jesus e aos bons amigos da espiritualidade que acolhessem a minha filha e conversava com ela pedindo-lhe calma e resignação quando tomasse conhecimento do ocorrido. Ao final das orações pedia e ainda peço que uma chuva de pétalas perfumadas possa ser derramada sobre ela e que através do perfume exalado ela sinta o meu amor, minha saudade, meu carinho.

Ana Elisabete da Costa de Castro – Bertioga, SP
anaecastro@uol.com.br

(Publicado no Boletim GEAE Número 438 de 28 de maio de 2002)