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MEDALHA DISSO, MEDALHA DAQUILO

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Enéas Canhadas

A etimologia da palavra medalha remonta ao ano de 1294 com que se referiam ou se classificavam as moedas de pouco valor. Já em 1519 era o nome dado a uma pequena peça de ouro, prata ou outro metal com a inscrição de uma figura sacra ou profana, proveniente do latim , uma maneira de diferenciar de medialia que era uma moeda de cobre equivalente à metade de um denário (moeda que possuía a base do seu valor no número dez, algo como o nosso “dez centavos”).

O importante nessa história de medalhas de que tanto se fala por conta das Olimpíadas e que depois fica esquecido por uns bons anos, não é exatamente saber somente a origem desse objeto, mas sim dar a nossa cabeça para pensar um pouco nos seus muitos significados.

A medalha também é um amuleto quando se trata das chamadas medalhas milagrosas ou benzidas que podem até mesmo nos guardar de perigos, colocarem os seres humanos em linha direta com as divindades, com os santos e até mesmo com Deus e ainda trazer boa sorte nas coisas que fazemos na vida ou nos empreendimentos a que nos dedicamos com afinco e fé. Aí está, parece que a fé que alguém coloca numa medalha é que pode proporcionar para aquela pessoa a tão desejada sorte. A música “Andar com Fé”, composição de Gilberto Gil nos dá uma boa idéia de tudo que o sentido de ter fé ou viver com fé pode nos trazer quando diz a certa altura “andar com fé eu vou que a fé não costuma faiá… certo ou errado até a fé vai onde quer que eu vá, a pé ou de avião mesmo a quem não tem fé a fé costuma acompanhar, pelo sim, pelo não”.  Assim pensando podemos chegar ao raciocínio de que a medalha que ganhamos ou conquistamos tem a força e o significado de fixar e perenizar um acontecimento na medida em que passa a nos acompanhar como uma boa sorte ditada pela vida a partir do evento em que a conquistamos. O simbolismo desse símbolo para sermos redundantes de propósito é que trazem em si toda extensão e profundidade de significados que as nossas conquistas, não importam de que tamanho e importância sejam feitos, um dia nos trouxeram pelo que obtivemos êxito em alcançar.

A medalha nos distingue em alguma coisa e não é sem razão que, pelo menos nos tempos modernos nós a ostentamos pendurada no pescoço. Vamos a um livre pensar e assim fazendo, podemos deduzir que um dos seus melhores significados está no fato do pescoço dividir o nosso corpo entre a cabeça e o peito, o raciocínio e a emoção ditada pelo coração, talvez querendo dizer que aí ela muito bem pode significar uma conquista que foi obtida a partir de um “médio” caminho entre a razão e a emoção. Mas podemos pensar também que, pendurada no pescoço, ela fica ainda mais perto do coração com o cordão que a sustenta. Então, é como se coroássemos o coração com a medalha conquistada pelos esforços que ele desempenhou em administrar as emoções que nos deram sentido, dedicação, o amor e a paixão necessários para a busca dessa conquista.

Se a medalha é do tipo santificado ou milagroso, é ainda mais apropriada que fique bem perto do coração, pois a música de Gilberto Gil nos diz outra vez “a fé ta na manhã a fé ta no anoitecer, no calor do verão a fé ta viva e sã a fé também tá pra morrer triste na solidão”, bem nos falando dos sentimentos de que oscilam parecendo que vão se extinguir para ressurgirem no momento seguinte vivos como a própria fé que parece estar sempre dentro de nós, pelo menos um pouquinho com o fio de vida que ainda sobre do nosso desespero… Tenho conversado e ouvido pessoas que falando de todas as suas desgraças e tristezas da vida estão mais ocupadas em contar o quanto estão sofrendo por todas as dificuldades que se apresentam a elas e deixando de enxergar que só o fato de estarem relatando tantos acontecimentos desesperançados está falando de como aquela pessoa tem tido forças e condições para sobreviver. Mas é assim mesmo, às vezes nos colocamos à beira do abismo para olhar o quanto o despenhadeiro que se abre à nossa frente é abrupto e profundo. Outras vezes de dentro do lamaçal não olhamos para fora e então só falamos do lodo e do atoleiro que tenta nos engolir… Parece ser muito mais concreto espremer a lama meio mole e meio consistente que passa pelo vão dos nossos dedos e não conseguimos divisar a beira do lugar onde estamos que pode conter terra firme… Até porque só um terreno que tenha em volta o chão firme pode conter um pântano que, do contrário, iria se escorrendo aos poucos invadindo outros terrenos e outros pedaços de terra.

Não estamos falando neste momento nem de culpas nem de falta de atitudes, mas apenas constatando os pontos de vista que nos assaltam pela vida. É quando nos parece mais possível olhar ou pegar a medalha que está pendurada no nosso pescoço do que conseguir caminhar até a margem. A medalha está facilmente ao nosso alcance e é também isso que a faz ser uma lembrança viva da sorte que nos fugiu temporariamente e simbolicamente pode nos restituir uma esperança que parece estar no símbolo que seguramos. Certamente não está na medalha propriamente e sim nos nossos sentimentos e lembranças, estão na nossa força de vontade e no vigor do Espírito como diz Emmanuel em Pensamento e Vida “a vontade rege todas as áreas da mente humana, é força que nasce com a própria alma, palpita em todos os seres, vibra em todas as coisas. Mostra-se no cristal fraturado que se recompõe, revela-se na árvore decepada que se refaz…” No entanto, os símbolos parecem ter sido inventados pelo homem para tornar possível mais facilmente lembrar os sentimentos. Os símbolos criados representam por fim, os mitos e esses nos conduzem aos ritos. Os rituais parecem ter o efeito de nos fazer acreditar mais em nós mesmos na medida em que pegamos o símbolo, carregamos conosco e os ostentamos para nos lembrar que somos capazes e que nos fizemos competentes, aptos com a vontade e as paixões que carregamos dentro de nós através dos atos que praticamos nas nossas vidas. É como se o próprio coração praticasse as ações que os nossos pés conduzem. Fernando Pessoa escreveu que o “mito é o nada que é tudo”, assim podem se tornar mitos todos os ganhadores e ostentadores de medalhas. Os exemplos que nos deixam, hão de motivar a perseguição de outros, aos mesmos objetivos, praticando ou imitando atos que conduzirão a novas medalhas constituindo assim os ritos dos quais a humanidade, ambiciosamente, continuará se valer para suas conquistas significativas.  Fica, porém, uma questão importante para refletir: quando os seres humanos, com seus sentimentos serão tão espontâneos e naturais que não careçam mais de ritos ou de mitos?