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Medinat Al Zahara

Medinat Al Zahara

Em uma manhã de inicio de inverno, com a neblina cobrindo as colinas e
escondendo o grande rio dos tempos árabes – o famoso Guadalquivir – tive a
oportunidade de caminhar por ruínas singulares, alicerces e restos de
construções, que despojados através dos séculos de seus mármores e mosaicos,
apenas deixam entrever suas glórias passadas.

Somente através da imaginação pode-se, em meio a tal desolação, rever-se a
“Cidade da Flor” – Medinat al Zahara – esplendorosa homenagem a favorita de um
dos homens mais poderosos de sua época. Al Zahara, “A Flor”, inspirou a cidade
califal de Abd Al Rahman III, senhor de Al Andaluz, a Espanha árabe medieval,
cuja corte rivalizava com Bagda e com Bizâncio, os centros mais adiantados do
mundo de então.

Símbolo uma vez do orgulho e do poder de uma civilização já desvanecida,
símbolo hoje da fragilidade do poder e da glória humana. Onde estão hoje seus
orgulhosos ocupantes, seus guerreiros e sábios ilustres, médicos e astrólogos, a
infinidade de seus escravos e serviçais. O próprio povo que obedecia as ordens
do tenente de Deus, sucessor de Maomé, hoje não mais anda por estas terras,
expulso e esquecido nas voltas que a história dá.

Que adiantou aos homens tantas façanhas guerreiras, tanto sacrifício, tanto
vaidade se o tempo, verdadeiro agente de Deus na transformação das almas,
mostraria quão precários são os poderes humanos. Que levaram para a eternidade
os que aqui viveram ? Para Abd Al Rahman – que Deus ilumine seu espírito, onde
quer que agora esteja – além do bem que possa ter feito a seu povo, que mais lhe
valeu tal grandiosidade transitória ?

Quanto sua alma não deve ter lastimado as lágrimas vertidas pelos escravos,
os sofrimentos de seus prisioneiros, as dores das ocupantes forçadas de seu
harém ?

Quantas existências o ilustre Califa deve ter gasto reparando vidas perdidas
em meio as riquezas de seu reinado ? Quanto bem poderia ter feito se revertesse
sua fortuna e prestigio para finalidades mais duradouras, quanto não teria sido
mais útil direcionar os impostos para a indústria, para o trabalho digno, para a
paz com os vizinhos, para a instrução do povo, para a verdadeira compreensão da
vontade de Deus sobre a Terra, que dentro das particularidades de cada povo,
sempre trouxe a mesma mensagem de amor ao próximo.

Oh Deus, Clemente e Misericordioso, vendo tais ruínas só se pode pensar nas
sábias palavras do Eclesiastes, quando proclama “tudo é vaidade” – névoa-nada
nas palavras de um tradutor de nossos dias. Névoa-nada que aprisiona a alma na
matéria, que a faz perder oportunidades preciosas de aprendizado e elevação.
Névoa-nada que faz um homem esquecer que somos todos irmãos, que as situações
transitórias desta existência são na realidade classes de aula, em que a lição
ministrada é o “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”.

Caminhando por entre os restos da grandeza passada, pensei, como outros
tantos viajantes já o fizeram antes de mim, inclusive o grande místico Ibn Arabi
– ainda nos tempos dos Mouros – quão tola é a procura de riqueza, poder e fama.
Quão ilusória é a busca e quão temporária é em seu sucesso.

Meu Deus, nesta época em que a economia rege a vida, que o dinheiro é a
medida de todas as coisas, que os governos priorizam a moeda em detrimento a
todas as outras necessidades, em que o ser humano vale por sua capacidade de
produção e pelo seu enquadramento dentro de uma sociedade de consumo
globalizada, ver os restos de outra época, diferente desta, mas em que também o
ser humano estava em segundo plano, somente nos leva a concluir que nossas
glórias terão o mesmo destino – pedras e nomes apagados na história e almas
carregadas de compromissos reparadores perante a eternidade.

(Publicado no Boletim GEAE Número 325 de 29 de dezembro de 1998)