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Mediunidade e Juventude

Mediunidade e Juventude

Na nossa avaliação um dos capítulos mais bonitos e simbólicos da história do
Espiritismo é a participação de elementos jovens no processo de codificação da
Doutrina.

Como registram as pesquisas espíritas, Allan Kardec contou com a colaboração
especial de 4 jovens sensitivas na confecção da primeira edição de O LIVRO DOS
ESPÍRITOS.

Segundo a tradição histórica, essas corajosas vanguardeiras da mediunidade
encontravam-se entre a adolescência e as primeiras clarinadas da juventude e
chamavam-se Julie Baudin, Caroline Baudin, Ruth Japhet e Aline Carlotti.

Aparentando muita preocupação com a segurança ( física, psicológica e
espiritual) de suas colaboradoras, Kardec sempre as deixou envoltas em um véu de
semi-anonimato, pois o preconceito contra a mulher ainda era monstruoso naquela
época.Para se ter um idéia dessa realidade, basta lembrar que 129 operárias
americanas foram queimadas vivas dentro de uma fábrica, pelo crime de
reivindicarem salários iguais aos dos homens, a apenas 41 dias do lançamento de
O Livro dos Espíritos.

E, além de mulheres, as tuteladas do Mestre de Lyon ainda eram jovens e
paranormais! Um prato cheio para a mentalidade vitoriana dessa época.

Essa acertada preservação, todavia, fez com que pouquíssimos dados sobre as
quatro moças chegassem ao século XX. Principalmente no que diz respeito às suas
histórias pessoais. No aspecto formal, suas participações foram, sinteticamente,
as seguintes:

 

Julie e Caroline Baudin, psicografaram a quase totalidade das questões de
O Livro dos Espíritos nas reuniões familiares dirigidas por seus pais e
assistidas pelo Codificador( 1);

Ruth Japhet foi a medianeira responsável pela revisão completa do
texto, incluindo adições (2);

Aline Carlotti fez parte do grupo de médiuns através do qual Kardec
referendou as questões mais espinhosas do livro, fazendo uso da concordância
dos ensinos (
3).

Há cerca de três anos, foi editada uma obra que nos permite conhecer alguns
dados a mais sobre a vida dessas moças. Seu nome é O Livro dos Espíritos E sua
Tradição Histórica e Lendária, escrita por Silvino Canuto de Abreu e editada
pelo Lar da Família Universal, através das edições LFU ( Rua Guaricanga, nº 357,
São Paulo, capital.)

Canuto de Abreu dispensa apresentação como historiador espírita ( para quem
não o conhece há uma ficha biográfica no inicio do livro).Essa obra póstuma é
uma compilação dos artigos que ele escreveu no jornal UNIFICAÇÃO da USE – União
das Sociedades Espíritas do Estado de S. Paulo, de abril de 1953 a junho de
1954, contando, de forma romanceada, como teria sido o 18 de abril de 1857, além
de outros detalhes sobre o circulo de amigos e discípulos de Kardec. Esses
textos permaneciam inéditos em livro.

O opúsculo, contudo não esclarece em que fontes Canuto colheu algumas
informações, até então desconhecidas. Essa resposta pode ser encontrada numa
biografia do confrade paulista, contida na coletânea PERSONAGENS DO ESPIRITISMO
de Antonio de Souza Lucena e Paulo Alves Godoy: “Ao longo de sua vida laboriosa
e de suas numerosas viagens ao exterior, conseguiu amealhar livros e documentos
raros, formando imensa biblioteca. Durante a II Grande Guerra Mundial, quando os
exércitos alemães que invadiram a França, tornou-se depositário de alguns
documentos históricos que estavam em poder da Sociedade que dirigia os destinos
do Espiritismo naquela importante nação européia ” (4).

Com o conhecimento desses fatos, fica mais clara a mensagem do Espírito
Emmanuel, psicografada pelo médium Francisco C. Xavier e dirigida a Canuto,
reproduzida no inicio de A TRADIÇÃO HISTÓRICA E LENDÁRIA, a título de abonação
transcendental:

“As tuas anotações, quanto à história dos pioneiros do Espiritismo, não
constituem obra do acaso e sim tarefa de elevado alcance moral para a causa que
pretendemos defender. Não definem mero arranjo literário para alimentar os
caprichos de leitores famintos de novidade e emoção, nem compõem tessitura de
fios dourados de ficção, objetivando efeitos especiais em nossos arraiais
doutrinários. A tua obra é a revivescencia de lembranças, que os soldados e
operários de nosso movimento não podem esquecer sob as cinzas, de modo a içarem,
cada vez mais alto, o estandarte luminoso da Nova Revelação, confiado aos homens
para a glorificação de nossos mais elevados destinos. Imprescindível te mostres
digno de tão sagrado depósito, espalhando-lhe as cintilações com todos os
trabalhadores da Doutrina de amor e luz que à quase um século vem despertando a
consciência da Humanidade…”

Por isso acreditamos que essa obra do Dr. Canuto é leitura indispensável para
todos aqueles que se interessam pelo aspecto histórico do Espiritismo.

Dentre outros importantes relatos da epopéia kardequiana, é nela que vamos
encontrar várias informações inéditas e especificas sobre nossas jovens e
vanguardistas confreiras:

  • suas idades exatas (Julie, 15 anos; Caroline, 18; Ruth e Aline, 20 anos);
  • a descrição física de Caroline e Ruth;
  • dados sobre a infância das meninas Baudin e da senhorita Japhet; a amizade
    das três moças; revelações sobre encarnações passadas de Julie, Caroline e
    Ruth; O noivado de Mademoiselle Japhet(5); a falsa neuropatia de Ruth,
    acertadamente definida pelo sr.Roustan como ” pura influência das almas
    desencarnadas”.

Canuto também conta detalhes acerca de uma outra jovem médium, muito
importante para a história do Espiritismo: Ermance Dufaux de apenas 16
anos. Natural de Fontainebleau e filha de um triticultor e vinhateiro de
abastadas posses, Ermance, aos 12 anos, também foi vitima de uma nevropatia,
definida pelo médico Clever de Maldigny, de Versalhes, como ” mediunidade”, uma
doença contagiosa (sic) importada da América. Uma semana depois do diagnóstico,
a família Dufaux, procurando a cura da mocinha, recebeu a visita do magnetizador
Marquês de Mirvile. Estimulada pelo pesquisador, Ermance entrou em transe
mediúnico e recebeu sua primeira mensagem psicográfica, assinada por Luís IX,
Rei de França, canonizado pela Igreja em 1297 e antepassado de Mirvile.

Em 1855, aos 14 anos, já totalmente reequilibrada e com a mediunidade
integrada em sua vida, Mlle. Dufaux publicou, através do editor Meluu, de Paris,
o livro A HISTÓRIA DE JOANNA D’ARC DITADA POR ELA MESMA, de autoria do Espírito
Joanna D’Arc. Segundo Canuto, Ermance e seus pais, convidados e trazidos por Me.
de Plainemaison, conheceram Kardec na noite de 18 de abril de 1857, ao
comparecerem à pequena recepção festiva organizada pelo Codificador em seus
apartamentos, com a finalidade de comemorar o lançamento de O LIVRO DOS
ESPÍRITOS.

No final dessa reunião, a jovem paranormal recebeu bela página do Espírito
São Luís, que se tornaria, a partir de então, uma espécie de supervisor
espiritual dos trabalhos experimentais de Allan Kardec. No final daquele ano, a
médium receberia outra importante mensagem, estimulando o Mestre a prosseguir no
ideal de lançar um periódico espírita.

Em 1858, o sr. Dufaux, pai da sensitiva, ajudaria Rivail a conseguir a
autorização legal para o funcionamento da Sociedade Parisiense de Estudos
Espíritas, onde Ermance atuou como médium principal durante algum tempo(6).

Depois dessa fase, parece que a família voltou a Fontainebleau, pois a última
psicografia da srta. Dufaux, recebida na Sociedade Espírita, foi publicada na
Revista Espírita em novembro de 1858.

Canuto revela em seu livro que Ermance de La Jonchére Dufaux colaborou como
médium na elaboração da 2ª edição de O LIVRO DOS ESPÍRITOS que foi revista,
reestruturada, ampliada e divulgada pelo Codificador em março de 1860.Em junho,
também é reeditada a obra A HISTÓRIA DE JOANNA D’ARC DITADA POR ELA MESMA pela
Livraria Ledoyen, de Paris. O Mestre de Lyon saúda o fato com alegria e
entusiasmo na Revista. No Auto-de-fé de Barcelona, promovido pela Inquisição
espanhola em 1861, vários exemplares desse livro foram queimados junto com as
obras de Kardec.

Por tudo isso, não faz sentido o comportamento de alguns dirigentes espíritas
que vedam – radicalmente – o acesso de jovens às reuniões mediúnicas.

É lógico que a decisão de autorizar um rapaz ou uma moça, na adolescência ou
saindo dela, a freqüentar um grupo mediúnico é uma coisa que deve ser muito bem
pensada e avaliada. Principalmente no que diz respeito à real necessidade e
capacidade física e psíquica dos postulantes, pois sabemos que essa fase da vida
é relativamente complicada, em decorrência de automatismos biológicos e
psicológicos que a caracterizam. Além disso, existem as obrigações escolares e,
muita vezes, de forma paralela, a necessidade do trabalho remunerado, tomando
todo o tempo diário do indivíduo. Há também a influência dos namoros, grupos
sociais( tribos ou galeras), diversões, agremiações políticas e outras variadas
formas de pressão psicossocial. Sem falar na compulsão da simples
curiosidade(7).

Contudo, medida bem diferente é baixar uma norma padrão, simplesmente
proibindo ( ou dificultando em demasia – o que é quase a mesma coisa) a presença
de qualquer jovem nas reuniões mediúnicas, inviabilizando o inicio da tarefa
daqueles que realmente apresentam sensibilidade acentuada e precisam trabalhar
mediunicamente para não deixarem suas instrumentações psíquicas desassistidas.

O jovem paranormal deve receber estímulo e atenção e não desconfiança e
indiferença por apresentar sintomatologia mediúnica. Aliás, nem todos os adultos
estão isentos dos mesmos cuidados, pois, segundo Kardec, ” há crianças de doze
anos a quem tal coisa afetará menos do que a algumas pessoas já feitas”(8).

Em O LIVRO DOS MÉDIUNS, os espíritos superiores afirmaram que não há idade
precisa para o inicio da prática mediúnica, pois tudo depende do desenvolvimento
físico e, mais ainda, do desenvolvimento moral(9).Na atualidade, Divaldo
P.Franco ousou ser mais pragmático: ” Parece-me que, a partir dos quinze anos,
aos dezesseis, teremos uma idade, senão ideal, pelo menos propiciatória para que
o jovem, que participa de nossas atividades doutrinárias no movimento da sua
idade, possa também compartilhar das experiências mediúnicas…”(10).

Levando em consideração todos esses fatores, o dirigente doutrinariamente bem
preparado deve analisar profundamente cada caso, de maneira diferenciada. É tudo
uma questão de bom-senso.E acompanhamento…

Que, porém, jamais se esconda do jovem que mediunidade é responsabilidade a
mais em suas vidas. Ou, como disse o Espírito Ivan de Albuquerque, pela
psicografia do sensitivo José Raul Teixeira, que também se iniciou muito jovem
na tribuna espírita e na mediunidade: ” Se, no estuário da juventude, o apelo
mediúnico te chega, não lamentes a perda da folgança, suposta própria da idade.
Mantém-te alegre e prazenteiro, guardando-te, inobstante, no bojo da responsável
conduta, que não deixará que te percas pelos dédalos da loucura que são próprias
não da mocidade, porém de todos os indivíduos estúrdios e irrefletidos, em
qualquer fase etária em que estejam”(11).

NOTAS:

  1. REVISTA ESPÍRITA, 1858, JAN. P.35, EDICEL;
  2. IBIDEM;
  3. O MESTRE CITA ESSA ÚLTIMA CHECAGEM EM OBRAS PÓSTUMAS, P.270 (26ªEDIÇÃO DA
    FEB).ALINE ERA FILHA DE SR. CARLOTTI, UM DOS INICIADORES DE KARDEC NAS COISAS
    DO INVISÍVEL.EM OBRAS PÓSTUMAS HÁ UMA MENSAGEM DO ESPÍRITO DE VERDADE,
    RECEBIDA PELA SRTA.CARLOTTI( PAG.281, DA EDIÇÃO CITADA).MAIS DETALHES SOBRE O
    PRINCIPIO DA VERIFICAÇÃO UNIVERSAL PODEM SER ENCONTRADOS NA
    INTRODUÇÃO(II) DO EV.SEG.O ESP.;
  4. P.206,ED.FEESP;
  5. ATRAVÉS DE OBRAS PÓSTUMAS( P.271, EDIÇÃO CITADA), JÁ SABÍAMOS DO CASAMENTO
    DAS MENINAS BAUDIN, MAS DESCONHECÍAMOS O DE RUTH.ESSES EVENTOS EXPLICAM O
    DESAPARECIMENTO PÚBLICO DE TÃO GRANDIOSAS MÉDIUNS.
  6. COM A SAÍDA DE ERMANCE, SÃO LUÍS PASSOU A UTILIZAR-SE DE OUTROS
    INTERMEDIÁRIOS, DENTRE OS QUAIS SR.ROSE,SRTA.HUET,SR.COLIN E SRA.COSTEL.
  7. A PRÁTICA DO ESPIRITISMO DEMANDA MUITO TATO, PARA A INUTILIZAÇÃO DAS
    TRAMAS DOS ESPÍRITOS ENGANADORES.SE ESTES ILUDEM HOMENS FEITOS, CLARO QUE A
    INFÂNCIA E A JUVENTUDE MAIS EXPOSTAS SE ACHAM A SER VITIMAS DELES.AS EVOCAÇÕES
    FEITAS ESTOUVADAMENTE E POR GRACEJO CONSTITUEM VERDADEIRA PROFANAÇÃO, QUE
    FACILITA O ACESSO AOS ESPÍRITOS ZOMBETEIROS, OU MALFAZEJOS” ( O LIVRO DOS
    MÉDIUNS, CAP.XVIII, ITEM 222).
  8. O LIVRO DOS MÉDIUNS, CAP.XVIII, ITEM 221, 8ª PERGUNTA.
  9. IBIDEM
  10. PALAVRAS DE LUZ, PAG.47, EDIÇÃO FEB.
  11. CÂNTICO DA JUVENTUDE, PAG ” JUVENTUDE E MEDIUNIDADE”, EDITORA FRÁTER.IVAN
    DE ALBUQUERQUE FOI UM JOVEM ORADOR ESPÍRITA, MORTO EM ACIDENTE FERROVIÁRIO.

Revista Espírita Allan Kardec Nº 27, ano VII.

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