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Memória do Espiritismo

Memória do Espiritismo

As experiências iniciais de registro de informações com valor histórico para
o movimento espírita foram efetivadas com os relatos do próprio Allan Kardec, a
propósito dos preparativos e da elaboração de “O Livro dos Espíritos”, nesta
mesma obra e em matérias da “Revue Spirite”. Esta revista traz muitas
contribuições para estudos históricos. “O Livro dos Médiuns” contempla
significativa informação, com a transcrição do Regulamento da Sociedade
Parisiense de Estudos Espíritas e, sem dúvida, a 2a. parte de “Obras Póstumas” é
rica de subsídios para a história do Espiritismo.

Pouco tempo após a desencarnação de Kardec, um rumoroso processo judicial
veio a se transformar em repositório histórico. O registro sobre os episódios,
iniciados em 1875 e envolvendo a injusta condenação do pioneiro espírita
Pierre-Gaëtan Leymarie, ao ser transformado em livro – “Processo dos Espíritas”
–, sem dúvida, contribuiu para se conhecer fatos em torno da utilização de
fenômenos mediúnicos, logo após Kardec.

Cerca de meio século depois da biografia pioneira de Kardec, escrita por
Henri Sausse inicialmente na forma de conferência para uma homenagem em Lyon aos
27 anos de desencarnação de Kardec, surge um estudo mais analítico elaborado por
André Moreil. Ao apresentar a versão em português do estudo de Moreil sobre a
vida e a obra de Allan Kardec, Herculano Pires considera que este trabalho não é
apenas uma biografia, mas também tem lances de ensaio e de romance. Ao
relacionar o druidismo com a obra de Kardec, Herculano Pires comenta que “a
história é feita pelos homens-espíritos e não pelos homens–corpos”.

As informações de fundo histórico passaram a se diversificar à medida que se
ampliavam ações e estudos relacionados com o pensamento espírita. Na passagem do
século XIX para o XX, surgiram inúmeras pesquisas psíquicas e relatos sobre
elas. Naquele contexto, Michel Sage publicou em Paris, no ano de 1902, uma obra
que resume os principais fatos sobre a médium norte-americana Leonora Piper, que
teve o prefácio de Camille Flammarion. Na época, o autor já destacava a profícua
atuação da referida médium: “esta mediunidade é certamente a que foi mais
estudada por tempo mais longo e por homens de alta competência”.

Nesse ínterim, foram publicadas as obras de Léon Denis, como “Joana D’Arc,
médium”. Denis focaliza a líder sob o ponto de vista de pessoa, médium e vulto
da história da França: “Convém lembrar freqüentemente as grandes cenas da nossa
história nacional e pô-la em relevo. (…) Nenhuma, dentre essas lembranças,
mais tocante, mais gloriosa do que a da donzela, que iluminou a noite da Idade
Média com a sua aparição radiosa, da qual pode Henri Martin dizer: ‘Nada de
semelhante ainda se produziu na História do mundo” (Denis, p.17).

O patriotismo de Denis comparece em seus artigos publicados na “Revue Spirite”
e em obra, onde se aprofunda nas raízes do celtismo. Entre outros aspectos Denis
destaca: “É dos gauleses que vem a comemoração dos mortos, (…) só que, em vez
de comemorar nos cemitérios, entre túmulos, era no lar que eles celebravam a
lembrança dos amigos afastados, mas não perdidos, que eles evocavam a memória
dos espíritos amados que algumas vezes se manifestavam por meio das druidisas e
dos bardos inspirados” (Denis, p.180).

Na mesma época vem a lume a portentosa “História do Espiritismo”. O versátil
escritor britânico Arthur Conan Doyle marcou um fato significativo porque até
então – 1926 – era obra praticamente única sobre o tema. Ele próprio reconhece
que havia necessidade de uma “história completa do movimento espírita”
(utilizava o termo inglês spiritualism), adotando um critério histórico. Na
apresentação à versão publicada no Brasil, Herculano Pires destaca que “o
historiador está presente neste livro”, mas também aduz que “romancista e o
novelista aqui estão, na múltipla tessitura das narrativas que se sucedem,
capítulo por capítulo”. Inclusive, se refere ao comentário da revista inglesa
“Light” a propósito do equilíbrio e a imparcialidade do autor no trato do
assunto e que Conan Doyle, embora fosse “ardoroso propagandista espírita, não a
coloria com os mais carregados preconceitos a favor do assunto e dos seus
corifeus”.Ações no Brasil

Há muitos autores que têm publicado obras biográficas e históricas no Brasil.

Zêus Wantuil trabalhou meticulosamente em pesquisas históricas que redundaram
na publicação das obras “As mesas girantes e o Espiritismo” (1958), “Grandes
espíritas do Brasil” (1969), reunindo cinqüenta e três biografias e, em parceria
com Francisco Thiesen, a coleção “Allan Kardec”, em quatro volumes (1979-1988).
A Casa Editora “O Clarim” possui vários títulos nesta linha histórica, inclusive
de nossa autoria. O Centro Espírita Léon Denis, do Rio de Janeiro, mantém
excelente produção de obras atendendo a esta linha editorial.

Há episódios importantes que devem ser destacados, como a importante
Biblioteca de Obras Raras mantida pela Federação Espírita Brasileira em sua sede
em Brasília.

A fundação do Museu Espírita de São Paulo em 1992, mas inaugurado em 1997, é
um fato inédito como instituição e no acervo. Em instalações modernas há
biblioteca, incluindo obras raras de Kardec, obras do período pré-espirítico,
coleções de revistas e livros em vários idiomas. O salão de mostras contém
painéis de Kardec – sua obra como pedagogo, manuscritos e documentos pessoais -,
sobre a imprensa espírita, sobre vultos espíritas pioneiros; mostra com objetos
e réplica da mesa tripóide, utilizada nas primeiras manifestações espíritas em
Paris. O Museu dispõe de salão para conferências.

No ano de 1997 foi iniciado o “Projeto Pró-Memória da USE” (União das
Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo, Brasil) com o planejamento de
realizar, estimular pesquisas históricas e promover eventos na área. O marco
inicial da nova área de atuação foi a elaboração do livro comemorativo aos 50
anos da federativa estadual e logo depois a promoção de um “Encontro de
Historiadores e Pesquisadores Espíritas”, depois ensejando uma reunião de
historiadores e pesquisadores espíritas durante o 1º Congresso Espírita
Brasileiro (Goiânia, 1999). Vinculado ao citado projeto, já surgiram uma dezena
de livros sobre fatos e biografias de vultos e pioneiros de movimento espírita
de cidades e de regiões, sendo algumas das publicações coordenadas por
lideranças regionais.

Reflexões acadêmicas

As crônicas e memórias têm valor de fonte na elaboração de projetos de
História. A História também é método e deve-se evitar a subjetividade. Há
tendências para que seja ligada ao presente, realizando-se uma análise
polivalente, problematizando-se as questões.

Na área acadêmica há estímulos para o desenvolvimento de pesquisas na linha
de que “a lembrança é a sobrevivência do passado” (Bosi), resgatando a memória
com base em entrevistas e depoimentos que caracterizam a História Oral. O tema
se inicia com a colocação de Le Goff, pondo em evidência o “álbum de família”,
destacando que cada família tem o seu “retratista”. Ampliando os horizontes, o
mesmo autor comenta que “a idéia da história como história do homem foi
substituída pela idéia da história como história dos homens em sociedade”.

Ecléa Bosi desenvolve o raciocínio que “uma memória coletiva se desenvolve a
partir de laços de convivência familiares, escolares, profissionais. Ela
entretém a memória de seus membros, que acrescenta, unifica, diferencia, corrige
e passa limpo”.

O interesse dos leitores pela literatura com fundo histórico e as biografias
tem representado, na atualidade, em um filão explorado por autores e editoras.

Histórias de vida

O conjunto de fatos e as bases acadêmicas já demonstram como as histórias de
vida são motivadoras e suscitam interesse. Mais uma razão para a valorização da
memória em geral e, especificamente, da memória do Espiritismo, a partir dos
feitos de seus pioneiros e líderes, como o “Projeto Pró-Memória da USE”.

Os fatos e informações biográficas sobre personalidades desencarnadas que
exerceram marcante liderança ou foram fundadores de instituições espíritas devem
ser registrados. Nas obras ligadas ao Projeto citado há personagens com estes
perfis, mas também se inclui muitos zelosos colaboradores da seara espírita que
se mantiveram num trabalho muitas vezes anônimo, porém muito persistente.

Numa visão ampla dos desdobramentos do cristianismo, os espíritas se
enquadram como “trabalhadores da última hora”, em alusão à conhecida parábola:
“Ide vós também para a vinha… – os derradeiros serão primeiros…” (Mateus,
XX: 4 e16). Dentro do movimento espírita há obreiros com atuação em diferentes
tempos, com diversa modalidade de labor, mas com as marcas da persistência e da
dedicação.

Aliás, a obra inaugural da Doutrina Espírita pondera: “… crede que os
Espíritos dos vossos ancestrais não se honram pelo culto que lhes fazeis por
orgulho. Seus méritos não refletem sobre vós senão pelo esforço que fizerdes
para seguir os bons exemplos que vos deram, e é só assim que a lembrança pode
não somente lhes ser agradável, mas até útil” (O Livro dos Espíritos, questão
206).

As experiências de vida de vultos espíritas oferecem subsídios de inestimável
valor para se fortalecer ideais e se estimular realizações nobres.Referências:

  • Bosi, Ecléa. Memória e sociedade. Lembrança de velhos. S.Paulo: Companhia
    das Letras, 1995. 484p.
  • Conan Doyle, A. História do Espiritismo (Trad. Abreu Filho, J.). São
    Paulo: Ed. O Pensamento, 1960. 498p.
  • Denis, L. Joana D’Arc, médium. (Trad. Ribeiro, G.). 7a. ed. Rio de
    Janeiro: Ed. FEB. 1971. p. 17.
  • Denis, L. O gênio céltico e o mundo invisível. (Trad. Pimentel, C.). Rio
    de Janeiro: Ed.CELD. 1995. p. 180
  • Le Goff, J. História e memória. (Trad. Ferreira, Irene et al.) Campinas:
    Ed Unicamp, 1996. 553p.
  • Leymarie, Marina. Processo dos espíritas. Resumo em português por Hermínio
    C..Miranda. Rio de Janeiro; FEB, 1976, 123p.
  • Monteiro, E.C.; D’Olivo N. USE – 50 anos de unificação. São Paulo: Ed.
    USE, 1997. 334p.
  • Moreil, A. Vida e obra de Allan Kardec. (Trad. Miguel Maillet) São Paulo:
    Edicel, 1966, 244p.
  • Sage, M. Madame Piper et la Société Anglo-Americaine pour les recherches
    psychiques. Paris: P.G.Leymarie, 12a. ed., 1902, p. 272p.

BOX PARA A MATÉRIA MEMORIA DO ESPIRITISMO.

Box com foto de ARTHUR CONAN DOYLE dentro do Box (texto abaixo da foto). Tudo
dentro de um mesmo quadro, com fundo igual.

Arthur Conan Doyle

Segundo o Prof. Herculano Pires, no prefácio da obra História do Espiritismo,
Conan Doyle é um nome conhecido e lido no mundo inteiro. Dotado de fértil
imaginação, tornou-se escritor apreciado, especialmente com a criação do
personagem Sherlock Holmes.

Além da série de ficção, foi também historiador, pregou o uso de métodos
científicos na pesquisa policial e destacou-se como lúcido escritor espírita em
todo mundo, revelando notável compreensão da Doutrina Espírita em seu tríplice
aspecto e lançou a célebre obra História do Espiritismo, que foi citada pela
revista inglesa Light pelo equilíbrio e imparcialidade com que o assunto foi
tratado.

Arthur Conan Doyle nasceu em 22 de maio de 1859, em Edimburgo, e faleceu em 7
de julho de 1930, em Cowborough (Susex). Em junho de 1887 escreveu uma carta ao
editor da revista acima citada, explicando as razões de haver se convertido ao
Espiritismo. Tal carta foi publicada na edição de 2 de julho de 1887 da referida
revista e republicada na edição de 27 de agosto de 1927. Em 15 de julho de 1929,
a RIE publicou no Brasil a primeira tradução integral daquela carta, importante
documento onde jovem médico em 1887 revelava ampla compreensão do Espiritismo e
a importância da Mensagem que a Doutrina Espírita trazia para o mundo inteiro.
Os detalhes da conversão do grande escritor estão no pequeno livro A Nova
Revelação, traduzida por Guillon Ribeiro e editado pela FEB.

Nota de redação: Em breve republicaremos o documento publicado pela RIE de
1929.

Revista Internacional de Espiritismo, de fevereiro de 2002

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