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Meu Pai Sabia Fazer e Soltar Balões

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“O corpo procede do corpo, mas o Espírito não procede do Espírito”. Resposta à pergunta 207 do Livro dos Espíritos.

Talvez por isso, aqueles que nos geraram mereçam também ser lembrados pelas práticas que os diferenciaram nesta vida, como marcas indeléveis de Espíritos únicos que permanecem para sempre queridas nas nossas mais gratas lembranças. Uma singela homenagem aos pais que sabem fazer brinquedos para os seus filhos . . .

Lembro-me do meu pai muito mais porque sabia fazer balões de papel de seda. Muito mais do que pelo fato de se comemorar o dia de São João ou de São Pedro. Muito mais, porque os balões que ele fazia, nunca falhavam, sempre subiam, redondos, com força, como se uma energia os puxasse para o alto, até desaparecerem no céu de Espírito Santo do Pinhal, minha cidade natal no interior do Estado de São Paulo. Todos comentavam. Eu ficava quieto mas sentindo um orgulho calado. Lembro-me dele muito mais do que as fogueiras, do que pelos foguetes, do que pelas bombinhas pequenas e fracas, médias e grandes, aquelas que faziam uma lata vazia de leite condensado quase entrar em órbita. Muito mais do que pela dança das quadrilhas, que até achava interessante e só não conseguia me divertir quando era necessário o tal de casamento caipira.

Lembro-me do meu pai porque, a fabricação do enorme balão começava muitos dias antes com a compra das folhas de papel de seda. As cores, eram variadas, tão variadas quanto permitia o estoque da vendinha simples na qual ia comprá-las. E eu tinha o privilégio de escolhê-las, afinal de contas, filho primogênito tem que ter prioridade em alguma coisa mais, além de ter vindo ao mundo em primeiro lugar. Ficava fascinado de ver como aqueles recortes iam se sucedendo até um pedaço encaixar certinho num outro, adquirindo a forma da primeira metade do losango colorido, para formar um dos gomos do enorme balão. É claro que o enorme fica por conta da minha admiração de criança. O balão não tinha mais do que uns dois metros e meio de altura, e talvez uns quatro ou cinco metros de diâmetro depois de estar completamente cheio de ar e prestes a ganhar os céus.

Mas depois que o balão ficava totalmente pronto, havia ainda um outro ritual, que só fazia aumentar a expectativa do grande dia em que aquele símbolo junino iria subir e ganhar o espaço. Ele ficava dias e dias, vazio, pendurado num prego que estava bem fincado num dos caibros do telhado da copa-cozinha da minha casa, dos meus tempos de criança. Naquela época, não havia ainda o forro interno do telhado, mesmo que fosse de madeira. O telhado era, literalmente, um telhado à mostra por entre os caibros, vigas, ripas. Certa vez quando fiquei uns dias adoentado e tinha que fazer repouso numa cama improvisada ao lado da minha mãe que passava o dia costurando, uma das maneiras com que passava o tempo, era olhar para cima e contar as telhas. Quantas havia em cada fileira, e quantas fileiras em cada intervalo das ripas, e de quantos intervalos era composto toda uma parte da cobertura de telhas cerâmicas. Quando não era mês de junho, tinha o hábito de olhar para aquele prego solitário, o ano inteiro, a permanecer ali a espera do balão de folhas de papel de seda a ser dependurado.

Aquele prego vazio simbolizava uma promessa. Nas próximas festas juninas haveria um balão que o meu pai faria, como todos os anos, para depois soltá-lo. Ele ficaria ali pendurado, com a sua boca redonda feita de arame. Dois pedaços de arame traçavam uma cruz, reforçando a circunferência, para depois sustentar a mexa de fogo. Era um círculo perfeito dividido em quatro partes como um queijo democrático partido em pedaços iguais. Naqueles pedaços de arame cruzados, também havia uma promessa, a de que ainda faltava uma tocha, como se chamava, que ao ser acesa produziria o ar quente que elevaria o balão. Mas a mexa só seria fabricada às vésperas do esperado lançamento. Havia uma arte também dominada pelo meu pai para a sua fabricação. Tiras de saco de estopa, com pedaços de breu fortemente enroladas, depois embebida em óleo queimado, adquiria uma aparência de uma pequena e rústica bola, para queimar por horas a fio enquanto o balão se perdesse nos ares.

Lembro-me do meu pai muito mais por todos esses detalhes, do que quando chega o tempo dos balões. E lembro-me muito menos, por festas supostamente alegres em que se colocando um chapéu de palha novinho em folha, com calças que ganham pedaços de panos de cores destoantes ou contrastantes a pretexto de remendos, procuram reproduzir um quadro que nunca existiu de fato. Lembro-me muito mais, pois, de fato, vi sim, muitas vezes, chapéus de palha de abas desfiadas, inclusive o que meu pai usava também, calças remendadas com panos diferentes e até mesmo coloridos, mas pelo tempo de uso e tão puídos que precisavam ser mal e mal consertados. vLembro-me do meu pai, muito mais por estas coisas que o fazem permanecer vivo comigo, embora tenha desencarnado há dois anos e pouco. E lembro-me dos balões que ele fazia e soltava, reunindo todas as crianças e adultos da rua em que morávamos, fazendo do acontecimento, uma hora mágica. Às vezes, por volta do meio-dia, às vezes ao cair da tarde quando o balão que o meu pai fazia, virava estrela. Lembro-me do meu pai, mais ainda porque ao aproximar-se o dia dos pais, reuno no firmamento do meu céu particular, duas estrelas. Uma representa o meu pai e a outra, o meu filho mais velho que, aos 24 anos, resolveu morar em outro mundo. Quanta saudade!!!

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