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Não sei se está certo ou errado, só sei que sinto

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Enéas Canhadas

Temos a impressão de que nos tempos passados, as pessoas sabiam o que era certo e o que era errado. Tudo parecia estar dentro de normas seguras e comprovadamente detentoras do bem e do bom. Portanto, bastava consultar uma espécie de arquivo social com os nossos pais, parentes ou pessoas mais velhas e experientes, que tudo estava lá. Se certo, bastava que adotássemos tais valores ou ensinamentos. Se errado, bastava que evitássemos fazer o que se dizia estar errado e, portanto, reprovado, até mesmo proibido. Lembro-me quando jovem, protestante, que fui consultar o Conselho da minha igreja, Igreja Presbiteriana, se poderia ir ao cinema, no domingo à noite, depois do culto. A idéia é que já havia cumprido a minha obrigação para com Deus e portanto estaria liberado para o lazer. Fui surpreendido pela proibição com o argumento de que não seria bom exemplo para as pessoas, caso me vissem e me reconhecessem no cinema da minha cidade natal.

Com valores que se confundiam com hábitos e costumes, ficava mais fácil um controle rígido reforçado pela moral repressora que, na verdade, visava garantir mais a segurança e comodidade dos pais e dos demais praticantes do que propriamente servir de código de conduta e muito menos de compreensão e discernimento sobre o certo e o errado.

Não se ensinava os verdadeiros por quês do que seria bom fazer ou não fazer. Estávamos muito distantes de compreender o que é ético e como podemos influenciar a vida das pessoas com a nossa conduta. Muito menos fomos ensinados sobre o que era moralmente o nosso dever. Não havia ênfase nos princípios que regem a justiça: fazer aos outros apenas aquilo que, se os outros fizerem a nós e julgarmos bom e agradável, então será isso bom para os outros também.

Curiosamente, independente de evangélicos, católicos ou qualquer outra religião, estávamos longe de uma prática aplicada às nossas vidas no seu dia-a-dia, nas suas trivialidades do maior mandamento que está nos evangelhos: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos.

Uma pesquisa realizada por um estudioso francês, afirma que nem sempre compreendemos e diferenciamos entre fatos e sentimentos nas nossas vidas. Os fatos são imutáveis, porém os sentimentos são instáveis, diz o pesquisador. Isso parece simples ou óbvio, porém encerra, praticamente, uma espécie de balisamento para as nossas reflexões sobre o que julgamos certo e errado e o que sentimos. Certo ou errado é o que nos dizem que devemos fazer. Sentir é o que diz o nosso coração e como se alma clamasse dentro de nós para não dar ouvidos aos preceitos, aos costumes, a nenhuma ética, a nenhum valor, a não ser para os nossos sentidos.

De valores, aparentemente estabelecidos desde sempre (só quando nos tornamos adultos ou minimamente instruídos é que percebemos que, na verdade os valores sempre mudaram, mesmo de cultura para cultura e de tempos em tempos) passamos para, também aparentemente, uma época em que tudo é permitido ou tudo pode ser feito, desde que queiramos. Assim passamos a dar prioridade aos nossos desejos (que é sempre o que queremos e na hora em que queremos) em detrimento do que devemos que é sempre algo que vai implicar na nossa própria vida, na vida de outrem e até mesmo nas situações com as quais interagimos.

Passamos a viver dias em que as pessoas, e em especial os pais, tiveram que perceber aos poucos que, o que seus filhos vivem e pedem para viver, nunca foi vivido por eles e portanto, eles também não sabem como fazer, nem se devem fazer, muito menos se é certo ou errado. Não sabem também como seria fazer ou que consequência haverá em não fazer certas coisas.

Potencialmente, qualquer coisa pode ser vivida por quem quer que seja. Um filho pode comprar na esquina, ou melhor, tomar emprestado do seu amigo uma porção de droga. A sua filha pode, neste momento, estar se amassando com o namoradinho que, em décadas passadas, com certeza estavam sãos e salvos dentro de sua casa e à vista dos seus olhos. Bom, se fosse só esse o problema o mundo até que poderia respirar aliviado.

A questão é que adultos, cultos, ricos, bem sucedidos profissional e socialmente, responsáveis e capazes nas atividades em que se situam como competentes e reconhecidos tanto pelo círculo social como também pelos salários que ganham, esses mesmos adultos parecem não saber, por exemplo, porque não conseguem se dar bem com um namorado ou com uma namorada e menos ainda se devem ir para a cama no primeiro encontro ou devem namorar, pelo menos, uma semana.

A verdadeira crise dos comportamentos, dos valores, do discernimento do bem e do mal, parece ter chegado realmente. Temos todas as possibilidades para fazer o que queremos, porém não sabemos se devemos ou não fazer. Mais do que isso, vivemos também outra crise que é a da instabilidade dos sentimentos. Como se pode fazer qualquer coisa a qualquer hora, parece não sabermos mais o que sentimos a respeito dessas mesmas coisas que podemos fazer.

Como um jovem ou uma jovem vão saber o que devem fazer se, numa balada de algumas horas, podem beijar ou ficar com dez ou vinte outras pessoas e tudo parecer ao redor, tratar-se simplesmente de costume permitido e praticamente normal em nossos dias? Talvez pudéssemos começar pelo fato de que acontecimentos desse tipo, podem ser classificados como comuns, muito comuns, aliás, porém jamais normais.

Estamos muito longe de saber o que fazer porque, por muitas razões nos distanciamos muito dos nossos próprios sentimentos. A instabilidade dos sentimentos deu lugar a permissão de sentir muitas coisas em pouco tempo, o que é reforçado pela liberdade enganosa de pensar que sentir é o que queremos numa determinada hora ou situação. Sentir e querer parecem ter passado a ocupar um mesmo tempo dentro de nós. É bom lembrar: querer é desejar, sentir é conhecer os motivos e razões do meu querer.

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