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O Antigo Testamento é a Palavra de Deus?

Paulo da Silva Neto Sobrinho

A base de nossos estudos será a Bíblia Sagrada, 68ª edição, Editora Ave Maria Ltda., da qual tiramos as seguintes instruções de como lê-la:

“Terminamos recomendando ao leitor procurar desenvolver em si a consciência dos” CINCO SENTIDOS’, indispensável para conseguir uma verdadeira leitura cristã da Bíblia: o sentido da fé, o sentido da história, o sentido do movimento progressivo da revelação, o sentido da relatividade das palavras e – O QUE SINTETIZA TUDO O MAIS (grifo nosso) – o bom senso.

Conforme esta recomendação e para não fugirmos do bom senso é necessário nos apoiarmos na lógica e na razão.

A Bíblia é dividida em duas partes: o Antigo e o Novo Testamento. O Antigo Testamento conta a história do povo judeu, tendo em Moisés a base principal da revelação Divina aos homens. Já o Novo Testamento conta a vida de Jesus na Terra e os fatos ocorridos para a divulgação da Boa Nova pelos seus apóstolos devendo, portanto, ser a base fundamental para todos os cristãos.

O nosso estudo será especificamente do Antigo Testamento, pois a maioria das correntes religiosas o tem como a palavra de Deus, cujo sentido é que tudo que ali está é a verdade insofismável.

Iniciaremos pelo capítulo I da Gênesis, versículos 1 a 5: “No princípio, Deus criou os céus e a terra. A Terra estava informe e vazia, as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas. Deus disse: “Faça-se a luz! “E a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa, e separou a luz das trevas. Deus chamou à luz de DIA, e às trevas de NOITE. Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o primeiro dia. Comparemos esta passagem com a dos versículos 14 a 19: Deus disse:” Façam-se luzeiros no firmamento dos céus para separar o dia da noite; sirvam eles de sinais e marquem o tempo, os dias e os anos; e resplandeçam no firmamento dos céus para iluminar a Terra. E assim se fez. Deus fez os dois grandes luzeiros: o maior para presidir ao dia, e o menor para presidir à noite; e fez também as estrelas. Deus colocou-os no firmamento dos céus para que iluminassem a Terra, presidissem ao dia e à noite e separassem a luz das trevas. E Deus viu que isto era bom. Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o quarto dia. “.

Vejamos no 1º dia cria a luz e separa a luz das trevas e no 4º dia cria o sol a lua e as estrelas, coloca-os nos céus para que separassem a luz das trevas, ora para nós que habitamos a Terra a nossa luz provem justamente do sol, da lua e das estrelas que foram criados no 4º dia, então que luz é essa que foi criada no 1º dia? Ou será que Deus tinha esquecido que havia criado a luz e a criou novamente?

Seguindo em frente veremos a criação do homem e Deus proibindo-o de comer do fruto da árvore da ciência do bem e do mal, dizendo que se dela comesse morreria, depois criou, também a mulher. Vem a serpente e induz a mulher a comer do fruto da árvore e esta por sua vez induz o homem. Ao perceber isto Deus castiga a serpente, o homem e a mulher. Perguntaríamos: quando foi que o homem e a mulher souberam que o que tinham feito não estava correto, não foi após comerem o fruto proibido? Ou seja, até este momento eles agiram sem conhecimento do que era o bem ou o mal, assim sendo o castigo então foi aplicado em inocentes? E quais foram os castigos? À serpente Deus disse: “Porque fizestes isso, serás maldita entre todos os animais e feras dos campos; – andarás de rastos sobre o teu ventre e comerás o pó todos os dias de tua vida”. (Gênesis 3, 14) Pelo castigo que sofreu quer dizer que antes ela andava sobre patas? Quantas? Disse também à mulher: “Multiplicarei os sofrimentos de teu parto; darás à luz com dores, teus desejos te impelirão para o teu marido e tu estarás sob o seu domínio”. (Gênesis 3, 16). Fico a imaginar a perplexidade da mulher, ante tal castigo, pois até então não havia dado à luz, não sabia, portanto, nem o que era mesmo um parto, ainda mais um parto com dor. Aliás, o parto com dor seria sofrido apenas pelas mulheres ou as fêmeas dos animais também a sofreriam? Pelo que a ciência diz, elas sofrem. Seria o caso de perguntar: tiveram assim o mesmo castigo da mulher? E sobre estar sob o domínio do marido, hoje em dia não estaria sendo mais aplicado?

Mais à frente após Caim matar a Abel temos: “Caim disse ao Senhor: ” Meu castigo é grande demais para que eu possa suportar. Eis que me expulsais agora deste lugar, e eu devo ocultar-me longe de vossa face, tornando-me um peregrino errante sobre a terra. O primeiro que me encontrar, matar-me-á”. E o Senhor respondeu-lhe: “Não! Mas aquele que matar Caim será punido sete vezes”. O Senhor pôs em Caim um sinal, para que se alguém o encontrasse, não o matasse. Caim retirou-se da presença do Senhor, e foi habitar na região de Nod, ao oriente do Éden. Caim conheceu sua mulher. Ela concebeu e deu à luz Henoc. E construiu uma cidade, à qual pôs o nome do seu filho Henoc.

Vejamos: após Caim matar a Abel sobraram Adão, Eva e o próprio Caim, como se justifica seu medo de alguém querer matá-lo? Será que Deus esqueceu-se que não havia na Terra mais ninguém, não precisava, portanto de marcá-lo para que não o matassem, não é mesmo? Depois que Caim saiu daquela região encontra com uma mulher com quem tem um filho e chega até a fundar uma cidade, perguntamos: que mulher era esta? Que povo era este que foi habitar a cidade que fundou?

Em Gênesis 6, 3: “O Senhor então disse: “Meu espírito não permanecerá para sempre no homem, porque todo ele é carne, e a duração de sua vida será só de cento e vinte anos”.

Apesar disto encontramos pessoas que viveram muito além deste tempo: Adão 930 anos, Set 912 anos, Enos 905 anos, Cainan 910 anos, Malaleel 895 anos, Jared 962 anos, Henoc 365 anos, Matusalém 969 anos, Lamec 777 anos, Noé 950 anos, Sem 600 anos, Arfaxad 435 anos e Salé 430 anos, conforme podemos ler no capítulo 5 da Gênesis.

No livro Êxodo, cap. 20 temos os dez mandamentos, dos quais citaremos apenas o III – Santificarás o dia de sábado e o V – Não mateis, para comparação com o cap. 31, 14-15: Guardareis o sábado, pois ele vos deve ser sagrado. Aquele que o violar, será morto, quem fizer naquele dia uma obra qualquer, será cortado do meio de seu povo. Trabalhar-se-á durante seis dias; mas o sétimo dia será um dia de repouso completo, consagrado ao Senhor. Se alguém trabalhar no dia de sábado será punido de morte. O que fazer diante desta determinação? Se, por ordem de Deus, matarmos alguém que trabalhou sábado, não estaremos infringindo o V mandamento, também uma ordem de Deus?

Mas voltemos um pouco a Gênesis, 6, 56: “O Senhor viu que a maldade dos homens era grande na terra, e que todos os pensamentos do seu coração estavam continuamente voltados para o mal. O Senhor arrependeu-se de ter criado o homem na terra, e teve o coração ferido de íntima dor”. Se Deus chegou a arrepender-se de ter criado o homem Ele não foi onisciente, um dos seus atributos indispensáveis, sem o qual não seria um Deus. Então falhou ao criar o homem?

Seguindo em frente vejamos algumas passagens do Deuteronômio, iniciaremos pelo capítulo 21, 18-21: “Se um homem tiver um filho indócil e rebelde, que não atende às ordens de seu pai nem de sua mãe, permanecendo insensível às suas correções, seu pai e sua mãe tomá-lo-ão e o levarão aos anciãos da cidade, à porta da localidade onde habitam e lhes dirão: Este nosso filho é indócil e rebelde; não nos ouve, e vive na embriaguez e na dissolução. Então, todos os homens da cidade o apedrejarão até que ele morra”. Gostaria de saber que pai ou mãe teria a coragem de fazer isto, entregar seu filho para ser apedrejado até a morte?

No capítulo 22, 5: “A mulher não se vestirá de homem, nem o homem se vestirá de mulher: aquele que fizer, será abominável diante do Senhor, teu Deus”. Porque não foi claro dizendo do que realmente não gostava, ou seja, que a mulher se comportasse sexualmente como um homem ou que este se comportasse sexualmente como uma mulher. Será que estava com vergonha de falar diretamente sobre o assunto? Mas não foi Ele mesmo que criou o sexo, porque então a vergonha?

Em Deuteronômio 22, 22: “Se se encontrar um homem dormindo com uma mulher casada, todos os dois deverão morrer. O homem que dormiu com a mulher, e esta da mesma forma. Assim tirarás o mal do meio de ti”. Como fica o não matarás? Não seria mais razoável expulsá-los da cidade ao invés de matá-los?

Na passagem do Deuteronômio 23, 1-2: “O homem cujos testículos foram esmagados ou cortado o membro viril, não será admitido na assembléia do Senhor. O bastardo não entrará tampouco na assembléia do Senhor, mesmo até a décima geração”. Será que Deus só quer “machos” em sua assembléia?

E para encerrarmos as citações do Antigo Testamento, temos Deuteronômio 25 11-12: “Se dois homens estiverem em disputa, e a mulher de um vier em socorro de seu marido para livrá-lo do seu assaltante e pegar a este pelas partes vergonhosas, cortarás a mão dessa mulher, sem compaixão alguma”. É incrível, não há como atribuir a Deus uma recomendação tão ridícula desta.

Estas são apenas algumas passagens, existem várias que não possuem coerência, não têm lógica e até mesmo contraditórias. Em hipótese alguma poderemos atribuí-las a Deus, seria rebaixá-lo a uma condição vexatória. Assim do Antigo Testamento somente poderemos tirar algum proveito é dos Dez Mandamentos, única e verdadeira revelação de Deus e até ela ainda veio distorcida ou no mínimo incongruente, que atribuímos aos homens e não a Deus, como é o caso do 9º mandamento: “Não desejeis a mulher do vosso próximo[1] “. Baseados nele, pergunto, a mulher poderia desejar o marido da outra? Ou por outro lado, não teria também o mesmo sentido do 6º mandamento: “Não cometeis adultério?”.

Já havíamos dito que a base para os cristãos é o Novo Testamento. E é nele que encontramos Jesus alterando as recomendações do Antigo Testamento, chegando a modificá-las como iremos demonstrar a seguir.

Em Mateus 5, 17-48, Jesus inicia dizendo: “Não julgueis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não os vim abolir, mas sim para levá-los à perfeição”. Isto parece ficar contraditório, entretanto o sentido é que devemos levar em conta: Não vim revogar o que Moisés disse ao seu povo, não há como questionar a necessidade de uma lei tão dura, mas quanto a vocês a lei deverá ser aperfeiçoada, pois já possuem evolução suficiente para acatá-la. Inicia as modificações dizendo; “Tendes ouvido o que foi dito aos antepassados” e para concluir “eu, porém vos digo”, de onde retiramos as principais:

MoisésJesus
Não matarás, mas quem matar, será castigado pelo juízo do tribunal.(Êxodo 20, 13).Todo aquele que se irar contra seu irmão, será castigado apelos Juizes. Aquele que disser ao seu irmão raca será castigado pelo grande conselho. Aquele que lhe disser: louco, será condenado ao fogo da geena.
Não cometerás adultério(Êxodo 20, 14).Todo aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher, já adulterou com ela em seu coração.
Todo aquele que rejeitar sua mulher, dê-lhe carta de divórcio. (Deuteronômio 24, 1).Todo aquele que rejeita sua mulher a faz tornar-se adúltera e todo aquele que desposar uma rejeitada, comete adultério.
Amarás a teu próximo e poderás odiar teus inimigos. (Levítico 19, 18).Amai vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos (maltratam e) perseguem.
Olho por olho, dente por dente.(Êxodo 21, 24).Não resistais ao mau. Se alguém te ferir a face direita, oferece-lhe também a outra. Se alguém te citar em justiça para tirar-te a túnica, cede-lhe também a capa. Se alguém obrigar-te a andar mil passos com ele, anda dois mil.
A Lei: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio.Os profetas: livros históricos.Sintetiza em: “Tudo o que quereis que os outros vos façam, fazei-o vós a eles. Esta é a Lei e os Profetas.Em nota de rodapé: A Lei e os Profetas: as duas principais partes da Escritura, e por extensão: todo o Antigo Testamento. (Mateus 7, 12).

Bem agora podemos entender o porquê da resposta de Jesus aos escribas e fariseus, conforme Mateus 9, 16-17: “Ninguém põe um remendo de pano novo em veste velha, porque arrancaria uma parte da veste, e o rasgão ficaria pior. Não se coloca tampouco vinho novo em odres velhos; do contrário os odres se rompem, o vinho se derrama e os odres se perdem”. Sendo eles ferrenhos defensores das Leis de Moisés, não aceitavam os ensinos de Jesus e procuravam de toda a sorte pegá-Lo em contradição. Assim que o questionaram conforme narrativa de Mat. 22, 34-40: “Sabendo os fariseus que Jesus reduzira ao silêncio os saduceus, reuniram-se, e um deles, doutor da lei, faz-lhe esta pergunta para pô-Lo à prova:” Mestre, qual é o maior mandamento da Lei? Respondeu Jesus: “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda tua alma e de todo o teu espírito. Este é o maior e o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este é: amarás teu próximo como a ti mesmo. Nesses dois mandamentos se resumem toda a Lei e os Profetas”. Com isto o Antigo Testamento foi reduzido a apenas estes dois mandamentos, e é o que fica de tudo o que expomos. Não há outra alternativa se quisermos nos apoiar no bom senso. Desta forma devemos tê-lo (o Antigo Testamento) apenas no sentido da primeira revelação divina ao povo judeu, buscando sempre separar “o joio do trigo” para que não fiquemos contra a segunda revelação divina, que foi dada aos homens por Jesus.

Paulo percebeu muito bem que deverá prevalecer a nova revelação dada por Jesus (Novo Testamento), conforme instruções que dá aos Hebreus: “Dessa maneira é que se dá a ab-rogação do regulamento anterior em virtude da sua fraqueza e inutilidade – a Lei, na verdade, nada levou à perfeição – e foi introduzida uma esperança melhor pela qual nos aproximamos de Deus”. (Hebreus 7, 18-19). Tinha tanta convicção disto que novamente volta ao assunto: “Mas, agora, Jesus foi encarregado de um ministério tanto mais excelente quanto melhor é a aliança da qual é mediador, sendo esta legalmente fundada sobre promessas mais excelentes. Se, na verdade, a primeira aliança tivesse sem falhas, não teria cabimento ser substituída por uma segunda. Pois, censurando o povo é que Deus declara:” Eis que virão dias, diz o Senhor, em que estipularei uma nova aliança com o povo de Israel e com o povo de Judá… “Dizendo: Aliança nova Deus declarou antiquada a primeira. Ora, o que se torna antiquado e envelhece está próximo de desaparecer”. (Hebreus 8, 6-8, 13).

As alianças citadas por Paulo são: a antiga com Moisés e a nova com Jesus. Não devemos ter mais dúvidas sobre a revogação da Lei Mosaica. Aqueles que tomam tudo que está na Bíblia como palavra de Deus, entram numa tremenda contradição quando citam constantemente textos do Antigo Testamento, pois segundo esta mesma palavra o Antigo Testamento perdeu o seu valor.

Jan/95

Bibliografia:

  • Bíblia Sagrada, Editora Ave Maria, 68ª edição.
  • Novo Testamento, LEB – Edições Loyola, 1984.

[1] Esta é a forma que nos passam, entretanto, a bem da verdade, deveria ser: “Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem seu escravo, nem sua escrava, nem seu boi, nem seu jumento, nem nada que lhe pertence” (Êxodo 20, 17). Estaria, portanto, mais para não desejar ardentemente o que pertence a seu próximo.