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O Bem sem Propaganda

“Guardai-vos de fazer as vossas boas obras diante dos homens, para serdes
vistos por eles; do contrário, recompensa não recebereis do vosso Pai que está
nos céus. Quando, pois, derdes esmola, não mandeis tocar a trombeta à vossa
frente, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem elogiados
pelos homens. Em verdade vos digo que esses já receberam a sua recompensa.
Quando derdes esmola, não saiba a vossa mão esquerda o que faz a direita, a fim
de que a esmola tique secreta; e vosso Pai, que vê o que se passa em segredo,
vos recompensará.” — Jesus (Mateus, 6:1 a 4).

É ponto pacífico que o móvel das ações humanas, no atual estágio evolutivo,
chama-se egoísmo. As nossas iniciativas, em qualquer setor de atividade,
geralmente são inspiradas no propósito principal de atender a nós mesmos.

No campo profissional, por exemplo, muita gente escolhe sua profissão
baseando-se em pesquisas no mercado de trabalho, sem nenhuma motivação de ordem
vocacional, sem nenhum propósito de servir observam-se apenas as possibilidades
financeiras, já que se considera apenas o propósito de realização econômica.

Qual o melhor funcionário? Aquele que ama seu trabalho. Mas, amar como, se
sua opção foi de ordem pecuniária e não vocacional? Muitos chegam a detestar o
que fazem!

Por isso, na maior parte das vezes, o funcionário dedicado é simplesmente
aquele que deseja progredir na profissão e sabe que chegar mais cedo e sair mais
tarde, demonstrando interesse, é uma forma de fazer “média”, de mostrar serviço.
O trabalho torna-se para ele apenas um meio de atingir seus objetivos — os
escalões mais altos da organização a que está vinculado.

Ante o casamento, a primeira preocupação do homem: “Ela vai cuidar bem da
casa? Será boa cozinheira?” A preocupação da mulher: “Ele será carinhoso comigo?
Vai me entender?”

Sempre o interesse pessoal determinando o comportamento, fazendo as
indagações, orientando as preferências.

Como não podia deixar de ser, até o bem que praticamos costuma inspirar-se no
egoísmo. Somos muito mais mercadores do que servidores. Pensamos em ser úteis
não por espírito de fraternidade, mas no propósito de receber recompensas, já
que todas as religiões consagram o atendimento das necessidades alheias, a
compreensão das misérias humanas, o socorro ao necessitado como base de nossa
edificação interior e porta de ingresso no Reino de Deus.

E porque o Espiritismo vai bem mais longe, ao destacar a necessidade de
fazermos algo de bom pelo semelhante — não apenas para sermos bem recebidos no
Além, mas, sobretudo, para que vivamos bem na Terra —, movimentam-se os
espíritas no campo da filantropia, edificando escolas, creches, berçários,
hospitais, orfanatos. Alguém diria que essa caridade interesseira, praticada com
o propósito de ganhar o céu, na morte, ou de merecer seus favores, na vida, não
tem nenhum valor. Realmente, de que vale pensar no bem dos outros, visando
unicamente ao próprio bem?

No entanto, não se improvisa o servidor e a vocação de servir começa sempre
no propósito de receber. Como ainda estamos no primeiro estágio, é natural que
aspiremos a recompensas pelo bem praticado. Não apenas as celestes, mas também
algo mais imediato, mais palpável, que fale mais de perto ao nosso ego — o
reconhecimento alheio.

Se beneficiamos a alguém que não manifesta sua gratidão, logo o consideramos
indigno de nossa ajuda e até nos irritamos. É que não lhe demos nada, apenas
vendemos. Vendemos ajuda. O preço: a gratidão!

As mesmas motivações inspiram o secreto desejo de propaganda em torno do bem
praticado. Se muitas pessoas tomarem conhecimento será formidável!

Conhecendo essa fraqueza, os organizadores de campanhas beneficentes
instituem o “Livro de Ouro”, onde são registrados os nomes das pessoas que
efetuaram doações maiores. E quanto maior o destaque que se dê ao livro, mais
generosas as contribuições. Verdadeira glória para o doador é quando publicam
sua fotografia nos jornais, ressaltando sua generosidade!

Pessoas assim parecem nada mais desejar senão fazer propaganda de si mesmas.
Por isso Jesus proclama que já receberam sua recompensa.

Toda ação generosa, para ser autêntica, deve ser um ato do coração. E o
coração trabalha em silêncio, escondido dentro do peito.

Começamos a agir como verdadeiros filhos de Deus, quando nossa dedicação ao
semelhante se faça não porque queiramos ganhar o céu, a graça de uma cura, a
solução de um problema; não porque pretendamos o apreço público, mas por
sentirmos um pouco de comiseração, de piedade pelas misérias alheias.

Então seremos capazes de dar sem que a mão esquerda tome conhecimento do que
faz a direita, isto é, de forma tão espontânea que nem teremos consciência de
que estamos sendo bons!

Reformador – maio, 1977