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O Centro Espírita e a Auto-Ajuda

O Centro Espírita e a Auto-Ajuda

Existe uma clientela fiel e que cresce cada vez mais em torno daquilo que se
chama “pensamento positivo”, “auto-ajuda” ou mesmo “nova era”. Livros vendem-se
em grandes quantidades, cursos sempre com fila de espera, e programas nas
emissoras de rádio. Vamos falar sobre este último tópico porque no rádio está
nosso dia-a-dia.

Temos ouvido nesses últimos tempos, em algumas emissoras, programa nessa
linha. Entre eles há os que são bons e úteis, mas geralmente apresentam algumas
coisas fantasiosas, quase com um halo de magia, que fascina os seus ouvintes.
Eles dizem que basta querer para conseguir o que se quer, e se a pessoa não sabe
como, basta fazer um curso para aprender, mas o curso tem um preço.

Esses comunicadores lidam com alguns fundamentos do Espiritismo, e não
estamos afirmando que elas sejam propriedades dos espíritas, mas sobre elas a
Doutrina Espírita já fez um longo e minucioso estudo, as conceituou seguramente.
No entanto, os radialistas desses programas apresentam teorias, as vezes
abstratas, quando não são absurdas, que contrariam tudo aquilo que foi
pacientemente elaborado em um século e meio de atividades de pesquisas sérias e
dedicadas.

Mas o motivo pelo qual escrevemos este trabalho tem muito mais a ver com a
nossa seara espírita do que com esses comunicadores propriamente ditos.

Acontece que esses programas atendem os ouvintes por telefone, ao vivo, e
muitos dos que ligam se dizem espíritas e freqüentam centros (às vezes dão o
nome), e que são médiuns ou que estão desenvolvendo mediunidade e muitos revelam
que estão em litígio mental com as orientações dos dirigentes dos centros.

Perguntamos: o que os centros espíritas (não todos, é lógico) estão fazendo,
que não passam com segurança os conceitos básicos do Espiritismo? Ao ouvir
diálogos públicos através desses programas sentimos uma tristeza profunda, ao
saber que freqüentadores de centros espíritas estão a procura de quimeras que
resolvam os seus problemas, e não têm encontrado nos seus dirigentes pessoas
capazes de orientá-las seguramente, ou atender as suas carências emocionais, e
afetivas.

Há uma preocupação exagerada de justificar o sofrimento com os erros das
vidas passadas, e uma preocupação quase obsessiva de se dizer que é preciso
sofrer para resgatar seus erros e ir para um plano feliz. Quase sempre ensina-se
que a vida material é ruim, e a vida espiritual é boa, feliz. Portanto, se
sofrermos bastante pagaremos mais depressa os nossos erros e mais de pressa
sairemos daqui, talvez para não mais voltar. Ora, a nosso ver essa é uma visão
distorcida da realidade. O Espírito leva, para onde for, a sua felicidade ou a
sua infelicidade, por ser conquista própria.

Alguns desses comunicadores revelam que foram espíritas, fizeram curso de
Doutrina e de mediunidade, mas descobriram que podem ir além, e que o
Espiritismo é limitante. Alguns chegam a prometer desenvolvimento mediúnico num
curto espaço de tempo, esquecidos, talvez, que a mediunidade é uma faculdade
dinâmica que se atualiza sempre, quer sejamos crianças, jovens, adultos ou
idosos.

Nossa intenção não é a de coibir as atividades desses radialistas, muito
menos tememos um esvaziamento dos centros espíritas. Acreditamos que as pessoas
são livres para acreditar no que quiserem, e freqüentar onde desejarem, mas
lamentamos que pessoas que ainda não conseguiram entender o Espiritismo se vejam
seduzidas a resolver os seus problemas a um preço, as vezes até módico, mas elas
precisam saber que as soluções estão dentro delas mesmas, precisando iluminar
sua casa interior, porque ali habita Deus, com toda a sua força.

Cremos que é preciso firmar o conceito de mediunidade como faculdade natural
inerente ao ser humano, embora nem todos renasçam com tarefas definidas neste
campo, ou tenham a mediunidade que Herculano Pires chamou de “dinâmica”, e sim a
mediunidade estática, ou generalizada. É preciso que saibam que não existe tempo
marcado para o desenvolvimento, pois as faculdades mediúnicas se atualizam
sempre, quer sejamos crianças, jovens, adultos ou velhos.

É necessário ensinar que a mediunidade em si não nos traz sofrimentos. A dor
vem pelos nossos desajustes. Precisamos ensinar que somos médiuns 24 horas por
dia, e a exercemos nos atos comuns da vida. Somos os construtores do nosso
destino, e colhemos o que semeamos.

Será que o fascínio dos cursos pagos, e bem pagos, em curtos períodos, mas
que vinculam à pessoa outros cursos, responde melhor aos seus anseios interiores
do que um estudo metódico?

Nossa intenção não é a de procurar reter as pessoas nos centros espíritas,
pois quem estiver a procura de enriquecer rapidamente por meios mágicos, ou a
procura de sua alma gêmea (o Espiritismo ensina que elas não existem), pode
procurar onde desejar, pois os espíritos não fazem pelo homem aquilo que lhe
compete fazer.

O que nos deixa tristes é que as pessoas foram aos centros espíritas (não
todos, já afirmamos), e não encontraram empatia para com o seu sofrimento, e
toparam com uma visão vesga da mediunidade e da vida que lhes obrigaram a ir
procurar orientações em outros lugares.

Enquanto houver o culto à personalidade de fundadores de centros, a médiuns e
dirigentes auto-investidos de uma missão divina, estaremos sujeitos a essas
flutuações.

Que os centros espíritas consolem os aflitos, ofereçam a cesta básica, o
vestuário, o remédio, a sopa fraterna, mas sobretudo ensinem Doutrina Espírita,
para que todos nos libertemos do sofrimento, das enfermidades, do medo, das
angústias, da pobreza, e aprendamos que estamos no mundo para crescer, evoluir,
e que aprendamos com Herculano Pires que não somos barro da Terra, mas luz das
estrelas.

Dirigente Espírita – maio e junho de 1998

 

…muitos dos que ligam se dizem espíritas e freqüentam
centros…

 

(Jornal Mundo Espírita de Julho de 1998)