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O Ensino de Jesus é Realizável?

O Ensino de Jesus é Realizável?

“Mas eu vos digo: Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos tem ódio,
e orai pelos que vos perseguem e caluniam”
.
(Mateus, v:44)

Como realizar, no cotidiano, o que Jesus nos recomenda? Algumas pessoas conseguem,
senão totalmente, pelo menos num percentual expressivo, vivenciar este e outros
ensinamentos do Cristo. Mas o comum da humanidade ainda estamos longe de aplicarmos,
em boa proporção, tais recomendações.

É necessário a transformação. É urgente afeiçoarmos nossas vidas aos ensinos
do Mestre, mas a vida nos mostra que não se consegue isto, de um momento para outro.
Como ocorre a mudança? Primeiro temos a necessidade de nos informar, conhecer o
ensino, assimilar a lição. Em segundo lugar, precisamos trabalhar nossos conteúdos
individuais (e cada um está num determinado patamar evolutivo). É a questão do autodescobrimento,
do conhecer-se a si mesmo. Como estou me comportando? Qual a reação que provoco
nos outros? Alguém fala em introjetar o ensino; outros dizem conscientização. As
palavras não importam, o fato é que precisamos trabalhar o nosso mundo íntimo e
buscar identificar nossas incoerências, as dificuldades que experimentamos para
mudar o comportamento. Em terceiro lugar vem a prática, a aplicação no viver diário
daquilo que já se aceitou teoricamente.

O importante nesse esforço de transformação é sermos exigentes conosco, e não
com os outros. Não vale nos constituirmos em críticos da conduta alheia, pois criticar,
dizer como se deve fazer é fácil. Exemplificar, vivenciar na própria conduta aquilo
que se cobra dos outros é difícil, e é o que importa.

Há alguns dias encontramos um amigo que, após informar ter se afastado da casa
espírita onde trabalhava, teceu duras críticas aos espíritas. As pessoas que trabalhavam
na sua ex-casa espírita eram incoerentes, falsas, e até mesmo hipócritas, etc. E
se dizia decepcionado com os ex-companheiros, frustrado em seus propósitos.

Humberto de Campos, pela psicografia de Chico Xavier, conta o caso de alguém
que comemorava 15 anos de Espiritismo. Para celebrar a data, procurou uma reunião
mediúnica, numa casa espírita conhecida, para ouvir algum amigo espiritual. Veio
o guia, e após a saudação perguntou-lhe onde estava trabalhando. O cidadão informou
que não estava engajado em nenhuma tarefa. O mentor espiritual passou a indagar-lhe
pelos núcleos de trabalho por onde havia passado e ele respondeu que do primeiro,
se afastara por intrigas; no segundo não deu continuidade à tarefa porque a direção
da casa era muito centralizadora; no terceiro também não pode permanecer porque
as pessoas que ali trabalhavam eram muito imperfeitas, cheias de problemas pessoais,
etc. Assim, até aquele momento, não havia encontrado local ideal para dar sua contribuição.
Pediu ao guia orientação. O amigo espiritual lhe fez várias sugestões, todas rejeitadas
porque os integrantes das Casas sugeridas, seus conhecidos, no seu entender, não
lhe serviam para companheiros. O mentor concluiu: Então o amigo volte a nos procurar
quando tiver um par de asas… A pessoa exigia que os outros fossem santos, esquecida
de que ela também era imperfeita.

É comum ouvir-se expositores que fazem duras críticas aos espíritas, exigindo
maior coerência entre o que se crê e o que se pratica. É claro que precisamos trabalhar
forte por essa coerência, mas exigir que se realize, no aqui e agora, tudo o que
Jesus ensinou nos parece um equívoco. O Espiritismo nos ensina que todos somos criados
iguais, simples e ignorantes, com um potencial. Deus nos deu a cada um uma missão
com o fim de nos esclarecer e progressivamente chegarmos à perfeição. A felicidade
plena a criatura encontrará nessa perfeição (questão 115, de O Livro dos Espíritos).
Para se compreender melhor essa jornada evolutiva, é preciso estudar o capítulo
III, de O Evangelho Segundo o Espiritismo, onde Kardec registra: “Embora não possamos
fazer uma classificação absoluta dos diversos mundos, podemos, pelo menos, considerando
o seu estado e o seu destino, com base nos seus aspectos mais destacados, dividi-los,
de um modo geral: Mundos primitivos; Mundos de expiações e de provas; Mundos regeneradores;
Mundos felizes; Mundos celestes ou divinos. A Terra pertence a categoria dos mundos
de expiação e de provas, e é por isso que nela o homem está exposto a tantas misérias”.
O estudo desse capítulo, junto com as questões de n.° 100 e seguintes de “O Livro
dos Espíritos”, onde é feita uma escala espírita, dividindo-se os Espíritos em três
ordens e dez classes, nos leva a compreender onde nos achamos na referida escala.
A jornada evolutiva é quase infinita, como a simbólica escada de Jacob. Se o Espírito
está no degrau número vinte, certamente não conseguirá, a golpe de instantaneidade,
passar para o de número duzentos, e assim por diante. Nas perguntas de n.° 114 a
127, de “O Livro dos Espíritos”, fica bem claro como esse progresso se realiza,
Temos que subir a escada degrau a degrau, e feliz de quem aproveitar o tempo no
aprendizado e no trabalho para subi-la o mais rapidamente possível.

Os ensinos de Jesus são realizáveis, porém não integralmente de imediato, Conforme
bem assinalou D. Leda Ebner, em seu artigo “O Espiritismo em nós”, neste Jornal,
no mês de fevereiro/2001, “O Espiritismo mostra-nos que não podemos nos tornar anjos,
em poucos anos. Mas devemos e podemos viver, visando o ideal da melhoria constante,
dentro das nossas possibilidades reais, as quais costumamos subestimar”.

(Jornal Verdade e Luz Nº 182 de Março de 2001)