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O macaco e o homem

Segundo a Bíblia Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa
semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre
os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam
pela terra.” (Gênesis, cap. 2, vers. 26)

Com este decreto o homem passa a ser o ápice da criação, o eleito de Deus. O
restante da Criação, tais como, peixes, aves e outros animais, existem apenas para
o nosso desfrute. É do Velho Testamento que vem a idéia de superioridade que contaminou
toda civilização ocidental.

Na Grécia, Protágoras (486 a.C – 404 a.C.?) filósofo sofista, dizia que: “O homem
é a medida de todas as coisas”.

Essa história começou a mudar com o astrônomo polonês Nicolau Copérnico (1473-1543),
que no ano de sua morte publicou o livro De revolutiobus orbium coelestium
(Das revoluções dos mundos celestes), que tira a Terra do centro do Universo,
e mostra que ela é apenas mais um planeta em torno do Sol. Hoje os seguidores de
Copérnico mostram que nem mesmo o Sol está no centro do Universo, isto porque, ele
é apenas uma estrela na periferia da Via-Láctea, que é apenas uma entre muitas,
isto é, os astrônomos acreditam que existam aproximadamente 100 bilhões delas, das
quais apenas alguns milhares estão catalogadas.

Em 1859, foi a vez do naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882) demonstrar
que as espécies evoluem uma das outras, e aí, mostrar que somos uma conseqüência
deste processo, ou melhor, somos uma espécie entre tantas espécies. Pela árvore
genealógica delineada por Darwin, éramos apenas um galho entre muitos outros. Os
seguidores de Darwin demoliram todas as supostas provas da singularidade humana.
O homem deixou de ser rei para ser primo do macaco. Para os criacionistas foi um
escândalo, para os evolucionistas, uma conseqüência natural da lei do progresso.
Enquanto teólogos atrelados ao dogmatismo enfurecidos bramiam a espada afiada e
pontiaguda da discórdia e ódio, Kardec concluía sabiamente:

“Da semelhança, que há, de formas exteriores entre o corpo do homem e o do macaco,
concluíram alguns fisiologistas que o primeiro é apenas uma transformação do segundo.
Nada aí há de impossível, nem o que, se assim, for, afete a dignidade do homem.
Bem pode dar-se que corpos de macaco tenham servido de vestidura aos primeiros Espíritos
humanos, forçosamente pouco adiantados, que viessem encarnar na Terra, sendo essa
vestidura mais apropriada às suas necessidades e mais adequadas ao exercício de
suas faculdades, do que o corpo de qualquer outro animal. Em vez de se fazer para
o Espírito um invólucro especial, ele teria achado um já pronto. Vestiu-se então
da pele do macaco, sem deixar de ser Espírito humano, como o homem não raro se reveste
da pele de certos animais, sem deixar de ser homem.”

Depois da revolução heliocêntrica e do evolucionismo, o homem que era primo do
macaco passou a ser seu irmão, isto porque, o macaco que pertencia ao gênero
Pan
passou para o gênero Homo, em outras palavras, o macaco pulou de
galho. Os pesquisadores sabiam que a aproximação genética era de 95% a 99%, mas
a nova pesquisa realizada em maio de 2003, pela respeitável revista americana
Proceedings of the National Academia of Sciences
(Academia Nacional de Ciências),
mostrou que a diferença é de apenas 0,6%, isto é, as duas espécies de chimpanzés,
comuns e bonobos, são semelhantes genéticamente ao homem em 99,4%. Animais com apenas
0,6% de diferença não podem ficar separados na classificação das espécies, daí…
bem… aqui estamos nós!

Não somos tão especiais, apenas seres em evolução, somos seres criados por Deus
e Deus é Justo. As características que eram exclusivas dos seres humanos, estão
presentes em outros animais, apenas em menor grau. A partir de 1940, a idéia de
que éramos os únicos animais racionais foi descartada, hoje sabemos que a maioria
das aves e mamíferos também são inteligentes. Até mesmo o amor, que é considerado
o mais elevado sentimento, esta presente nos corvos, pois eles criam laços duradouros
com seus parceiros, chegando mesmo a ficar de luto depois de sua morte.

Na questão 593 de “O Livro dos Espíritos” encontraremos a afirmação desta verdade:

“Poder-se-á dizer que os animais só obram por instinto?

Ainda aí há um sistema. É verdade que na maioria dos animais domina o instinto.
Mas, não vês que muitos obram denotando acentuada vontade? É que têm inteligência,
porém limitada.”

Complementando a questão, Kardec volta a indagar aos espíritos, na questão 595:

“Gozam de livre-arbítrio os animais, para a prática dos seus atos?

Os animais não são simples máquinas, como supondes. Contudo, a liberdade de ação,
de que desfrutam, é limitada pelas suas necessidades e não se pode comparar à do
homem. Sendo muitíssimo inferiores a este, não têm os mesmos deveres que ele. A
liberdade, possuem-na restrita aos atos da vida material.”

Animais não são máquinas, um exemplo disso são os chimpanzés que se reconhecem
no espelho. O curioso é que os orangotangos observam e chegam mesmo a enganar os
humanos distraídos. Ora, isso é sinal de que sabem o que são e de que se distinguem
dos outros. Concluindo: são conscientes, não são máquinas.

É simplesmente extraordinário, mas o primatologista Frans de Waal colecionou
muitos exemplos de baleias e macacos que são capazes não só de aprender novos hábitos,
mas também de transmiti-los para as gerações seguintes. Ora, o que isso? Simplesmente
cultura!

Precisamos ser mais humildes, afinal, somos todos espíritos em evolução!

Bibliografia:

  • A Bíblia, tradução de João Ferreira de Almeida, Sociedade Bíblica do Brasil.
  • Super Interessante, Edição 190, Julho de 2003, pág. 24
  • Grande Enciclopédia Larousse Cultural, Nova Cultural, 1998, pág. 4806.
  • Idem, pág. 1610.
  • A Gênese, Allan Kardec, Tradução Guillon Ribeiro, 37ª edição, FEB, “Hipótese
    sobre a origem do corpo humano”, pág. 212.
  • O Livro dos Espíritos, Allan Kardec, tradução Guillon Ribeiro, 76ª edição,
    FEB, págs. 294 e 295.

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