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O Médium e o Cidadão

O Médium e o Cidadão

Há um adágio popular que, certamente, não se coaduna com o exercício da mediunidade;
é aquele que afirma que “na prática a teoria é outra”. Espiritismo, improvisação
e empirismo não se harmonizam e quando os desvios assumem o caráter de normas, os
resultados, como não poderia deixar de ser, se revelam sempre de maneira nefasta,
seja para a imagem da Doutrina junto à sociedade, seja para médiuns e dirigentes
imprudentes para os quais a literatura espírita clássica jaz na poeira das estantes
e no ról das superfluidades.

Uma prova do que afirmo poderá ser levada a efeito numa rapidíssima pesquisa
de textos de O Livro dos Médiuns, que não demandaria mais de dois minutos. Para
tal bastaria, tão somente, – observar atentamente como o livro tem início – primeiro
parágrafo da Introdução – e como a obra é encerrada – último parágrafo da última
página. Vamos conferir?

Kardec inicia a Introdução, assim: “Diariamente a experiência confirma a nossa
opinião de que as dificuldades e desilusões encontradas na prática espírita decorrem
da ignorância dos princípios doutrinários. Sentimo-nos felizes ao verificar que
foi eficiente o nosso trabalho para prevenir os adeptos quanto aos perigos do aprendizado,
e que muitos puderam evitá-los com a leitura atenta desta obra.” A obra termina
com uma advertência do Espírito São Luiz, que, em seu último parágrafo reafirma
todos os esclarecimentos contidos por todo o livro quando lembra que “a facilidade
com que certas pessoas aceitam tudo o que vem do mundo invisível sob a cobertura
de um grande nome é o que encoraja os espíritos mistificadores. Devemos aplicar
toda a nossa atenção em desfazer as tramas desses Espíritos, mas só o podemos fazer
com a ajuda da experiência, adquirida através de um estudo sério. Por isso repetimos
sem cessar: estudai antes de praticar, pois é esse o único meio de não terdes de
adquirir a experiência à vossa própria custa”.

A ilação que se extrai dessa simples amostragem é que exercer atividade mediúnica
sem norteamento doutrinário adequado é, sem nenhum exagero, o mesmo que caminhar
sobre terreno minado.

Afinal, para que servem os dotes mediúnicos que certas pessoas demonstram possuir?
Os Espíritos dizem a Kardec que tais atributos os médiuns os possuem “para servir
ao seu progresso e para dar a conhecer a verdade aos homens”.

Pois é exatamente essa verdade – com as conseqüências filosóficas e religiosas
que lhes são inerentes – fluindo dos canais mediúnicos a partir de meados do século
passado, que ensejou a elaboração do Pensamento Espírita, matriz de uma nova escala
de valores que, sepultando o materialismo e suas leis do acaso, nos apresenta o
Universo e a Vida como manifestações inteligentes originárias de uma Suprema Causa
Inteligente. A vida, então provida de finalidade, passa a ser altamente estimuladora
do aprimoramento das relações humanas. Assim, não entendo a prática mediúnica desvinculada
de tão rico acervo, que, obviamente, para sua absorção, exige algum estudo.

Repetidas vezes se ouve, com evidente ar de desculpismo, que só a moral – ou
a caridade – basta. É preocupante quando tal asserção é feita por pessoas investidas
da responsabilidade de orientar doutrinariamente os passos dos neófitos que buscam
um norteamento sadio e seguro para suas vidas. Pois ninguém, em reto juízo, questionará
a relevância dos valores morais em nossas vidas. Tal, porém, não deve implicar em
sub-valorizar os dotes intelectuais que, quando convenientemente canalizados, são
instrumentos do progresso. Não havendo civilização verdadeira sem moral e sem ciência,
penso que não deve o espírita, por decorrência lógica, ser cultor da ignorância.
Cícero, o tribuno romano, dizia que “a ignorância é a noite do espírito, sem lua
e sem estrelas.”Ela é, na verdade, alimentadora de muitas tragédias humanas.

André Luiz disserta com muita propriedade sobre a necessidade que tem o médium
de cultivar os valores intelectuais e morais, quando, em sua belíssima obra Nos
Domínios da Mediunidade, assevera que “sem compreensão e sem bondade, irmanar-nos-emos
aos filhos desventurados da rebeldia. Sem estudo e sem observação, demorar-nos-emos
indefinidamente entre os infortunados expoentes da ignorância”. Esclarece ainda
que “achando-se a mente na base de todas as manifestações mediúnicas… é imprescindível
enriquecer o pensamento, incorporando-lhe os tesouros morais e culturais, os únicos
que nos possibilitam fixar a luz que jorra para nós das Esferas Mais Altas, através
dos gênios da sabedoria e do amor…”. Em Léon Denis não é outra a essência da abordagem,
eis que, em No Invisível, o Mestre de Tours faz notar que “quanto mais desenvolvidos
forem nele (médium) o saber, a inteligência, a moralidade, mais apto se tornará
para servir de intermediário às grandes almas do espaço” e que “nada verdadeiramente
importante se adquire sem trabalho. Uma lenta e laboriosa – iniciação se impõe aos
que buscam os bem superiores”.

Conceituações assim tão impregnadas de vigor, de rigor e de saber, levam-me a
compreender o médium na sua integridade de ser, com suas potencialidades, necessidades
e aspirações, em suas relações sociais e culturais, definindo e re-definindo valores
e objetivos, num processo dinâmico de aprendizado, de verdadeiro refinamento espiritual,
e não como um mero produtor de fenômenos que vai semanalmente ao Centro Espírita
fazer “caridade” se não houver impedimentos de chuva ou frio. Então vejo no médium,
sobretudo, a figura humana, alguém integrado no mundo que vai aprendendo a interpretá-lo
e nele viver com base nos referenciais nobres com os quais se identifica. Conhecimento
temperado na moral faz emergir o cidadão. É como médium-cidadão que, abastecido
de ideais humanísticos e espirituais, no Centro ou fora dele, a exemplo do fermento,
ajudará a levedar a massa social, conforme a bela metáfora do apóstolo Paulo.

Assim, o que podemos extrair do exposto é que a mediunidade tem funções sociais
e educacionais. E para que ela se expresse de maneira alinhada com os elevados objetivos
doutrinários, forçoso é convir que o médium busque, além de suas percepções extrafísicas
e da facilidade em intermediar dois planos de existência, apurar sua sensibilidade
espiritual para, então, perceber que, se de um lado assumiu a grave e nobre responsabilidade
de “dar a conhecer a verdade aos homens”, de outro se conscientizar que exercício
de suas faculdades assim iluminada pela Filosofia Espírita lhe desenvolverá potenciais
que, certamente, o enriquecerá não apenas como medianeiro, mas, sobretudo, como
ser. Seria um agente sócio-espiritual de transformações, e ainda que considerando
os estritos limites eu que atual, não deixaria de ser um fator multiplicador de
valores transcendentes.

E, já agora para fechar este artigo, retorno ao seu início para, do aqui expôsto,
concluir que para o médium espírita a teoria na prática deve ser exatamente a mesma.

(Publicado no Correio Fraterno do ABC Nº 362 de Março de 2001)

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