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O Sal da Terra

O Sal da Terra

“Vós sois o sal da terra. E se o sal perder sua força, com que outra coisa
se há de salgar? Para nada mais fica servindo, senão para se lançar fora e ser pisado
pelos homens”.
(Mateus, 5:13)

O sal é um elemento de grande utilidade em nossas vidas. Além de preservar e
dar sabor aos alimentos, exerce em nosso organismo salutar influência para lhe manter
o equilíbrio fisiológico. A Química nos ensina que onde quer que o encontremos,
seja na terra ou no mar, ele é sempre o mesmo: inalterado, inalterável. Dotado de
qualidades essencialmente conservadoras, mantém-se incorruptível, preservando, ainda,
os corpos que com ele entram em contato.

Jesus quer que seus discípulos sejam como o sal: elementos preciosos, de grande
utilidade na economia social, tipos de honestidade, incorruptíveis e preservadores
da dissolução moral no meio em que se encontrarem.

Para o sal exercer suas funções (preservar e dar sabor aos alimentos), deverão
ser atendidas algumas condições:

1.°) Deverá ser misturado às substâncias alimentícias. Sem isso, não produzirá
os efeitos desejados. Assim também o aprendiz dos ensinos de Jesus. Para atuar junto
aos seus companheiros de jornada precisará conviver, participar das dificuldades
e alegrias dos seus irmãos. “Deus fez o homem para viver em sociedade. O homem deve
progredir, mas sozinho não o pode fazer porque não possui todas as faculdades: precisa
do contato dos outros homens. No isolamento, ele se embrutece e se estiola” (questões
766 e 768, de O Livro dos Espíritos). O ser humano às vezes prefere se isolar, para
evitar os problemas decorrentes do contato social. Mas o isolamento é egoísmo, afirmam
os instrutores espirituais. Fugir do mundo só é válido para se devotar ao amparo
dos infelizes, como fazem alguns abnegados. Há espíritas que preferem realizar seus
estudos, fazer suas orações, no ambiente doméstico, evitando participar das sociedades
espíritas, para evitar problemas de relacionamento, ou para não assumir maiores
responsabilidades. Será que esse “sal” está cumprindo sua finalidade?

2.°) O sal é elemento precioso, porém precisa ser usado na quantidade certa,
com equilíbrio. Colocar muito sal pode estragar o alimento, tornando-o impróprio
para o consumo. É o caso dos fanáticos, dos exagerados, aqueles que se distanciam
da realidade, e que, em conseqüência, nada transmitem de útil. Pior ainda, pode
até contribuir para o afastamento de outras pessoas do ideal religioso, devido a
sua maneira inadequada de proceder. Empenham-se em pregar para os outros aquilo
que elas mesmas ainda não conseguiram entender, e muito menos fazer. Querem converter
os outros, mostrar o caminho para os outros, mas, elas próprias, pelo modo como
vivem, deixam transparecer que não sabem o que desejam ensinar. “Conhece-se a árvore
pelos frutos que ela produz”, ensinou-nos Jesus. Conhecemos o cristão pelo seu modo
de ser e de agir, e não por aquilo que ele fala.

3.°) “Se o sal perder sua força e tornar-se insípido, para mais nada presta senão
para se lançar fora e ser pisado pelos homens”. São as pessoas que cuidam mais da
aparência, do que da essência. Estão mais interessadas no que os outros pensam sobre
elas, do que em sua real situação. São os fariseus de todos os tempos, mais interessados
em prestígio, destaque social, do que em atender o objetivo da vida que é a evolução
espiritual. Emmanuel, na lição 72, do Livro da Esperança, intitulada “Exterior e
Conteúdo”, afirma: “Exterior, em muitas ocasiões, afeta unicamente os olhos. Conteúdo
alcança a reflexão. A casa impressiona pelo feitio. O interior, contudo, é que lhe
decide o aproveitamento. A máquina atrai pelo tipo. A engrenagem, todavia é que
lhe revela a função. Exterior consegue enganar: um frasco indicando medicamento
é capaz de trazer corrosivo. Uma bolsa aparentemente inofensiva pode encerrar uma
bomba. A essência disso ou daquilo é ou não é”.

4.°) Finalmente, vale refletir que quando Jesus compara os aprendizes do Evangelho
ao sal, está nos conclamando ao trabalho de nossa transformação moral, afeiçoando-nos
aos seus ensinos. Ninguém dá o que não tem. E ninguém tem realmente senão aquilo
que é. Para o discípulo de Jesus ser fator de preservação do bem, e contribuir para
o progresso e desenvolvimento espiritual dos seus companheiros de jornada, naturalmente
ele deverá ter desenvolvido, pelo menos uma boa parte desses valores em si próprio.
Para a pessoa “fazer”, ou “dizer”, com autoridade é necessário “ser” alguém que
já desenvolveu em si mesmo os valores que deseja incentivar nos outros. Nesse sentido
disse Paulo: Mesmo que eu fale a língua dos anjos, isto é, que fale maravilhosamente
bem, expressando conceitos e verdades profundas, “se não tiver caridade”, ou seja,
se não tiver desenvolvido em si o equilíbrio, o amor, a compreensão, tais palavras
serão inócuas, como um sino: apenas um som vazio que a nada leva. Na página de Paulo,
bastante conhecida e apreciada, fica claro que tudo o que ele faz, ou fala, só produzirá
bons resultados, se for acompanhado de autoridade de quem já edificou em si os valores
do bem. O sal para produzir os efeitos de sal tem que ser sal de verdade ou seja,
guardar as propriedades que lhe são próprias. Assim também os discípulos de Jesus
que desejamos ser. Por isto acentua Emmanuel: “Atendamos, pois, às definições espíritas,
que nos traçam deveres imprescritíveis, confessando-nos espíritas e abraçando atitudes
espíritas, mas sem esquecer que Espiritismo, na esfera de nossas vidas, em tudo
e por tudo, é renovação moral”. (Livro da Esperança, lição n.° 72).

(Jornal Verdade e Luz Nº 165 Outubro de 1999)

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