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Os Enganos do Sr. Roustaing I

Os Enganos do Sr. Roustaing I

Pode parecer ao leitor que vamos falar de um assunto já
exaustivamente discutido no movimento: as teorias de Roustaing. Mas queremos
analisá-lo através de um novo prisma, o da Reforma, que, como todos sabem, tem
um modo kardequiano de ver as coisas.

O melhor método para se ter a aprovação dos homens positivos sobre teses
duvidosas é justamente o de torná-las conhecidas. Roustaing é bem pouco
conhecido dos espíritas. Por este motivo, a partir da próxima edição, a Voz vai
publicar uma nova coluna, denominada “Os enganos do Sr. Roustaing”, na qual se
fará um exame racional de alguns tópicos da obra “Os Quatro Evangelhos”.

Jean Baptiste Roustaing foi um advogado da Corte em Bordéus. Viveu na França,
no tempo em que Allan Kardec estava preparando a Codificação, e chegou a trocar
algumas correspondências com o Mestre. Com a ajuda da médium Collignon,
Roustaing publicou quatro livros que ficaram conhecidos como “Os Quatro
Evangelhos de J.B. Roustaing”. Esses livros se caracterizam por apresentarem
graves contradições doutrinárias em relação ao Espiritismo.

Os Espíritos que os ditaram disseram tratar-se dos Evangelistas, assistidos
pelos Apóstolos e o profeta Moisés. Além dessa superioridade suspeita, ainda
disseram que a obra era a “Revelação da Revelação”, algo mais especial e
profundo que a própria Codificação. Tratava-se de um fato estranho: porque o
Alto enviaria no mesmo tempo em que Kardec dava vida ao Espiritismo (a Terceira
Revelação), uma outra revelação? E, justamente pelos meios que o Codificador não
aprovava: fora do Controle Universal dos Espíritos? Era uma grande insensatez.

Se os livros de Roustaing tivessem ficado na França, possivelmente logo
teriam desaparecido. Mas acontece que eles vieram parar no Brasil e, por meio de
uma série de acontecimentos históricos ligados ao nascimento do movimento
espírita, tornaram-se o próprio espírito do sistema.

Tudo começou na gênese da Federação Espírita Brasileira – FEB. Quando os
primeiros grupos espíritas estavam se formando no país, alguns deles já possuíam
as obras de J.B. Roustaing. Numa sessão histórica, ocorrida em fevereiro de 1889
na Sociedade Espírita Fraternidade, no Rio de Janeiro, um médium chamado
Frederico Pereira da Silva recebeu uma mensagem assinada pelo próprio
Codificador. Dentre outras incoerências, o suposto Allan Kardec dizia que um
espírito chamado Ismael iria ser o guia do movimento espírita brasileiro.

Iniciavam-se as distorções na formação do sistema espírita. A metodologia
kardequiana começava a ser posta de lado. O comando do movimento espírita
nascente seria passado a uma entidade e, no lado material, sua direção acabaria
entregue a uma só casa espírita. Estava nascendo o embrião da FEB, chamada
depois de Casa Máter do Espiritismo e eleita a representante do Cristo no mundo.

Ninguém percebeu a parecença com o catolicismo que, também a seu modo, dizia
ser o “Deus na Terra”. Neste tempo, havia desentendimentos entre grupos sobre o
futuro do movimento. Alguns centros, denominados “científicos”, preferiam um
Espiritismo mais objetivo. O grupo sob a influência de Ismael era mais místico e
logo tratou de convencer um importante principiante no Espiritismo a passar para
suas fileiras. Tratava-se de Bezerra de Menezes. Com a ajuda desse homem, a FEB
conseguiu desenvolver um domínio sobre a maioria das sociedades. Bezerra era um
homem ponderado e político. Por ter saído recentemente das fileiras católicas,
adaptou-se rapidamente ao misticismo de Ismael. Os principais centros espíritas
da época estudavam as teorias kardequianas, mas os místicos tinham uma especial
atenção com os tais Evangelhos de Roustaing, porque os consideravam um “curso
superior” de Espiritismo. Kardec passou a ser interpretado à luz do pensamento
roustainguista.

A comunicação de Allan Kardec, dada através do médium Frederico, tinha
indícios de ser apócrifa. Porém, por falta de espírito crítico, todos a
aceitaram, pensando que fosse mesmo uma mensagem do Codificador. Na verdade,
tratava-se da manifestação do espírito Ismael, ligado às obras de J.B. Roustaing.
Este Espírito preparava o terreno para estabelecer sua seara. Encontrando nos
brasileiros profundas raízes católicas, não teve dificuldades para criar um
sistema espírita com fortes tendências místicas, semelhante ao catolicismo.

Quando examinamos os Quatro Evangelhos de J.B. Roustaing, começamos a
entender mais facilmente o que aconteceu no movimento espírita, e os motivos
pelos quais os centros espíritas costumam assemelhar-se a pequenas igrejas. Os
Espíritos que ditaram as obras de Roustaing eram uma falange de entidades
ligadas à Igreja Católica medieval.

Nos Quatro Evangelhos, Maria é virgem. Para mantê-la como na Igreja, os
Espíritos roustainguistas criaram um Jesus de corpo fluídico, que não teria tido
encarnação. Assim, a sexualidade de Maria não macularia o Senhor. O Jesus-deus
da Igreja transformou-se no Jesus sem pecados de Roustaing que, segundo seus
livros, jamais encarnou e teve evolução em linha reta. Como a carne na Igreja é
símbolo do pecado, os Quatro Evangelhos também a abominaram como sendo algo sujo
e colocaram a encarnação como fruto do castigo.

Através da FEB, Ismael aproximou-se de Francisco Cândido Xavier e ditou-lhe
uma obra que seria o corolário do “Trono de Deus” na Terra: “Brasil, Coração do
Mundo, Pátria do Evangelho”. Como não podia denunciar-se, tomou o nome do
respeitável Humberto de Campos (Irmão X). Qualquer pessoa que lê “Lázaro
Redivivo” e “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho” nota que eles foram
escritos por dois Espíritos muito diferentes entre si, principalmente quanto ao
caráter. O suposto “Irmão X”, do “Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”, faz
pura apologia à FEB, e cria a lenda de Ismael. Nascia o livro que faria os
espíritas acreditarem que o país estava destinado a governar o mundo. Por trás
dessa obra estava a FEB; atrás dela, continuava o Grupo Ismael e, no invisível,
o “anjo” com sua falange.

Em alguns períodos distintos, Ismael exerce influência no trabalho mediúnico
de Xavier. As pessoas que o assessoravam não perceberam a estranha presença, e
deixaram passar nos livros psicografados alguns conceitos eminentemente
roustainguistas e mesmo certas contradições doutrinárias patentes. O Espírito
não se importou de assinar algumas comunicações com os nomes do eminente
Emmanuel e mesmo do pródigo André Luiz.

No livro “O Consolador”, o Espírito comete um erro primário: diz que não
recomenda a ninguém que se faça evocações (como na Igreja) e que seria mais
seguro esperar que as manifestações ocorressem espontaneamente. Mal sabia que o
Codificador havia dito justamente o contrário, que as espontâneas é que eram as
mais perigosas. Assume uma posição favorável à existência das almas gêmeas,
contrariando a teoria de “O Livro dos Espíritos”. O erro é visível e a FEB trata
de corrigi-lo. A entidade confunde a localização da sede da memória, dizendo que
ela se encontra no perispírito, parafraseando um erro histórico de Gabriel
Dellane, contrariando ambos a teoria básica.

A força dos livros, corroborada pela exemplar idoneidade de Francisco Cândido
Xavier, tornou-se poderosa alavanca para a expansão das idéias ismaelinas.
Formou-se o sistema espírita atual, com características eminentemente católicas.
Roustaing continua presente. Podemos encontrá-lo na atitude passiva de bom
número de espíritas, na falta de gosto pelo estudo, no pouco conhecimento
doutrinário, nas palavras vazias de oradores pomposos, na política
unificacionista (uma versão moderna do “Fora da Igreja não há salvação”) e na
imprensa espírita com suas glórias e ídolos.

Allan Kardec é o grande ausente. No final de sua vida, o Codificador estava
só. Alguns detratores, que se diziam espíritas, afirmavam que ele queria
apoderar-se da verdade e se fazer dono do Espiritismo. Roustaing e seus
seguidores estavam entres eles e chegaram a publicar um manifesto contra o
Mestre.

Pouco antes de desencarnar, Kardec começou a preparar instruções para
salvaguardar de falsas interpretações o movimento nascente. Não chegou a
terminar seu trabalho.

Quando lemos seus últimos apontamentos, notamos, com tristeza, que suas
preciosas instruções sobre a condução do movimento espírita jamais foram
seguidas por seus adeptos.

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