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Os Gigantes e A Submissão

Os Gigantes e A Submissão

Conta-se que certa vez, num país distante, um homenzarrão todo esculhambado e
trovejante com a sua voz muito forte, chegou na casa de um homem que morava sozinho
numa choupana à beira de um riacho. Esse homem simples, cuidava, na sua humilde
propriedade, de uma vaquinha que lhe dava o leite todo o dia, algumas galinhas,
um ou outro porco que, numa celebração, pudesse lhe oferecer sua carne para o seu
festejo.

Aquele homem enorme e autoritário,irrompeu pela sua casa, sentou-se numa de suas
cadeiras, também humildes, dentre as poucas que lhe sobrara de toda uma vida passada
ali naquele recinto de cômodos toscos e minimamente confortáveis. O homem grande,
forte, com botas que escondiam pés enormes e calçando umas botas altas que mais
pareciam revestir uma pilastra do que propriamente pés e pernas,olhou para aquele
ambiente, depois dirigiu o seu olhar para o homem que morava naquela casa simples
e falou tão forte como se tivesse um megafone instalado na garganta:

Então, você vai ficar aí parado, e não quer me servir?

Aquele vozeirão soou dentro do dono da casa como uma ordem indiscutível e nenhuma
resposta lhe saiu da garganta. Apressou-se em matar uma ave e fazer logo um cozido.
Providenciou um pouco de pão que ele mesmo havia feito, reuniu algumas frutas frescas
e logo a mesa estava posta para o gigante fartar-se. O homem enorme comeu e se lambuzou,
e depois dormiu sentado ali mesmo. E ele não dava sinais de ir embora depois de
fartar-se e foi ficando, e a querer mais e mais ser servido. Aquele homem simples,
morador da casa simples também, foi servindo aquele homem, por vários dias, que
depois se transformaram em semanas, e o tempo foi passando.

Passaram-se meses e até mesmo anos e aquele gigante era servido com a mesma fidelidade
e eficiência da primeira vez. Tanto o homenzarrão comeu e fartou-se e dormiu e roncou
que ali foi ficando, até que um dia, um ataque fulminante do coração, pelo menos
foi o que pareceu, o fez contorcer-se, depois obrigou que o gigante levasse a mão
ao peito até que por fim desabou daquela cadeira indo ao chão já sem vida. Estava
morto o glutão exigente. O morador da casa então, providenciou uma lona enorme que
estava dobrada e empoeirada no seu celeiro vazio e enrolou aquele corpo naquele
encerado carcomido pelo tempo, mas ainda muito resistente. Embrulhou-o devidamente
e depois providenciou alguns pedaços de cordas velhas fazendo um grande pacote com
o corpo do gigante que alimentara por tanto tempo. Com muito esforço arrastou o
fardo para fora de sua casa. Com muita dificuldade, aproximou-se de uma ribanceira
e com cuidado depositou aquele embrulho à beira do penhasco. Afastou-se um pouco,
providenciou uma vara forte o suficiente para fazer rolar aquela enorme embalagem
e, no silêncio daquela tarde morna, parou um pouco, respirou fundo antes, pensou
e pensou quando as palavras do gigante lhe vieram altissonantes na cabeça novamente:

Então, você vai ficar aí parado, e não quer me servir?

E ao relembrar tão nitidamente aquela pergunta feita há tanto tempo, o homem,
mesmo estando ali sozinho junto aquele corpo inerte embrulhado, mais parecendo um
casulo desproporcional, reuniu todo o ar que seus pulmões puderam aspirar e gritou
fazendo ecoar a sua voz por toda aquela região:

N Ã O ! ! !

E com um último esforço, fez rolar aquele corpo embrulhado pelo abismo abaixo.

Quando ouvi esta história me pus a pensar. Quantas respostas, em infinitas situações,
a nossa alma anseia dar para situações boas ou más, ansiosas ou calmas, amorosas
ou revoltadas, pacientes ou cheias de intolerância e a nossa voz demora tanto a
sair do peito? O que nos levaria a dar respostas tão tardias para questões urgentes?
O que nos faria sofrer, muitas vezes, aparentemente por muito mais tempo do que
poderíamos ter escolhido sofrer? Seria indecisão? Seria prudência ou calma excessiva?
Seria uma espécie de paciência de monge levada às últimas conseqüências? Seria por
causa dos outros? Seria por causa de nós mesmos?

As perguntas 833 e 834 do Livro dos Espíritos tratam da Liberdade de Pensamento.
Perguntados sobre, se o homem goza de uma liberdade absoluta, os espíritos responderam:
“É pelo pensamento que o homem goza de uma liberdade sem limites, porque o pensamento
não conhece entraves. Pode-se impedir a sua manifestação, mas não aniquilá-lo”.
Por estranho e contraditório que possa parecer, podemos defender a hipótese de que
o homem da história contada acima exerceu a sua liberdade de pensamento. Aparentemente
não se mostrou livre nas suas ações, mas foi livre na sua subordinação em servir
ao gigante. Usou a sua liberdade íntima, a liberdade dos seus pensamentos, na medida
em que planejou, por longos anos da sua vida, gritar aquele não imenso. Mostrou-se
livre na sua forma de pensar quando reconheceu a sua impotência e a sua pequenez
frente à força do gigante intruso. Exerceu liberdade na medida em que não se precipitou
pondo em risco a sua vida. Mostrou-se livre na forma de, consciente e deliberadamente,
deixar o tempo passar. Exerceu a sua liberdade na maneira de existir quando soube
que o silêncio é um princípio de sabedoria e realiza a sua tarefa frente ao acontecimento.
Não se entrega à fatalidade do que lhe acontecera, mas age com consciência, perseverança,
paciência e abnegação. Não foge, reconhecendo que uma tarefa veio ao seu encontro
e tornara-se necessário que ele a desempenhasse, pois no bom desempenho da sua tarefa,
existia o germe da sua liberdade definitiva.

Como compreender a Doutrina Espírita sem fazer culto ao sofrimento e sem confundir
clareza de pensamento com mera submissão aos acontecimentos? Como promover o nosso
desenvolvimento sem praticar atos de resignação e renúncias piegas que mais se parecem
com conformismo e com impotência? A pergunta 834 indaga se o homem é responsável
pelo seu pensamento. E a resposta diz que “ele é responsável perante Deus. Só Deus,
podendo conhecê-lo, condena-o ou absolve-o, segundo a sua justiça”. As atitudes
do homem da nossa história parecem muito mais conter uma sabedoria de como enfrentar
os problemas da vida do que propriamente fazer-se submisso camuflado por uma aura
de estoicismo. Esta história nos remete a Jó que, eternizou-se por sua paciência,
mas na realidade passou boa parte da sua vida, debatendo com Deus o que lhe acontecia
e procurando entender o significado do seu sofrimento. Fazer bem as nossas tarefas
não implica no silêncio das nossas bocas. Podemos ser praticantes do bom desempenho
mesmo, na medida em que interrogamos sobre o que não compreendemos ou o que não
nos satisfaz. Se Deus nos deu o livre arbítrio não foi para que, de posse dele,
nos subjugássemos às contingências das nossas vidas. O livre arbítrio é uma grande
ferramenta de aprimoramento do nosso Espírito, pois ele permite analisar o bem e
o mal e tomar decisões que sejam as mais sábias possíveis, não apenas para a nossa
vida, mas para a nossa evolução.

04/10/2002

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