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Os Milagres Existem?

Os Milagres Existem?

Vamos fazer uma leitura dinâmica na Bíblia para ver se nela encontramos algo
em que possamos nos apoiar para responder a essa pergunta.

O primeiro milagre que nos surge na Bíblia é Deus criando do nada, a Terra e
o Universo num período fantástico de seis dias. Ora, hoje a ciência vem provar
que esses dias são, na realidade, períodos de bilhões e bilhões de anos, e não,
como até há pouco tempo se pensava, serem dias de 24 horas.

A criação do homem não deixa também de ser um fenômeno milagroso, já que Deus
faz que um monte de barro se transforme num ser humano. Entretanto, não vemos
grandes diferenças entre nós e os animais. Veja que os elementos que compõem
nosso corpo físico são os mesmos que formam o corpo dos animais. Os órgãos e
suas respectivas funções são muito semelhantes nesses dois seres. Tanta
semelhança assim só, por questões de lógica, pode existir se eles tivessem a
mesma origem, ou seja, surgiram duma mesma maneira. Não entendemos porque ainda
se diz que o homem foi criado diferente. Bom, a verdade é que a narrativa
bíblica deve ser tomada no sentido simbólico, qual seja, a de que o corpo humano
se formou dos elementos que já existiam na natureza, da mesma forma que o corpo
dos animais.

Arrependido de ter criado o homem – como se fosse possível – Deus resolve
eliminá-lo da face da terra. E, para isso, inunda toda a terra de água, através
do dilúvio universal. Sabemos hoje, pela ciência, que não existe água suficiente
em nosso planeta para cobrir o mais alto monte. Devemos ver nessa passagem
apenas um sentido figurado: quem está com Deus, vence todos os tormentos da
vida.

O homem vê no arco-íris um sinal da aliança que Deus faz com a humanidade de
nunca mais destruir a terra com água. Mas, a ciência nos diz que o arco-íris é
apenas a decomposição da luz solar em sete cores básicas, e que podemos,
inclusive, reproduzir com um prisma de cristal.

A mulher de Ló virando estátua de sal, pode ser explicada “a chuva desloca
numerosos blocos de sal que rolam até a base. Esses blocos têm formas
caprichosas e alguns deles são eretos como estátuas. Às vezes em seus contornos
a gente pensa distinguir, de repente, formas humanas”.(1)

Encontramos, agora, o povo hebreu cativo no Egito. Deus resolve escutar o
clamor desse povo e envia alguém para libertá-los. Aparece a Moisés em meio à
sarça ardente escolhendo-o para essa missão. Entretanto, “O fenômeno da ‘sarça
ardente’ existe, pois, na natureza, literalmente em plantas com um grande
conteúdo de óleos voláteis. O naturalista alemão Dr. M. Schwabe comprovou em
repetidas observações a inflamação espontânea: a mistura de gás e ar inflama-se
algumas vezes por si só no calor intenso e no ar parado, ficando o arbusto
intato” (1).

Moisés, para convencer o faraó que vinha da parte de Deus, manda várias
pragas aos egípcios. “Mas, as pragas não são coisa inverossímil nem
incomum. Ao contrário, fazem parte da cor local do Egito. A água do Nilo
“converteu-se em sangue”.
“E as rãs saíram e cobriram a terra do Egito”.
Vieram mosquitos, moscas, uma peste dos animais e úlceras – vieram
depois granizo, gafanhotos e trevas (Êxodo 7 a 10). Coisas como essas
mencionadas pela Bíblia, o Egito experimenta até hoje, como, por exemplo, “o
Nilo vermelho”.

“Às vezes os aluviões dos lagos abissínios colorem a água do rio, sobretudo
no seu curso superior, de uma pardo avermelhado, que pode dar a impressão de
sangue
. No tempo das enchentes, as rãs e os mosquitos
multiplicam-se às vezes de tal modo que chegam a transformar-se em verdadeiras
pragas. A categoria de moscas pertencem sem dúvida os moscardos.
Freqüentemente, eles invadem regiões inteiras, penetram nos olhos, no nariz, nos
ouvidos, causando dores lancinantes”.

“Por toda parte há peste dos animais. Pelo que se refere às úlceras,
ocorrem tanto nos homens como nos animais”. Poderá tratar-se da chamada fogagem
ou sarna do Nilo.(…)

“O granizo é, com efeito, raríssimo no Egito, mas não desconhecido. A
época do ano em que isso ocorre é janeiro ou fevereiro. As nuvens de
gafanhotos
são, entretanto, um flagelo típico das regiões do Oriente. O
mesmo se dá com as trevas súbitas. O chamsin, também chamado simum, é um
vento ardente que arrasta consigo grandes massas de areia. Estas escurecem o
sol, dando-lhe uma cor baça e amarelada, chegando a ficar escuro em pleno dia.
(…) E contra toda explicação científica se opõe também, naturalmente, a
indicação da Bíblia de que a praga das “trevas egípcias” apenas afetou os
egípcios, mas não os israelitas que viviam no Egito…”(1)

Sobre a morte dos primogênitos dos homens e dos animais, encontramos a
seguinte explicação: “Cereais guardados em celeiros ainda úmidos podem
desenvolver um bolor altamente tóxico. Como no Egito antigo os primogênitos
(tanto humanos quanto dos animais) tinham a precedência na alimentação, em
tempos de escassez eles foram os primeiros a ser fatalmente intoxicados pelo
bolor” (2).

Moisés, após libertar o povo hebreu, tem à sua frente o Mar Vermelho, que
após abrí-lo em duas muralhas, passa por entre elas a pé enxuto. “A primeira
dificuldade está na tradução. A palavra hebraica “Yam suph” é traduzida ora por
“mar Vermelho”, ora por “mar dos Juncos”. (…)

“Às margens do mar Vermelho não crescem juncos. O mar dos juncos propriamente
ficava mais ao norte. …Nos tempos de Ramsés II, existia ao sul uma ligação do
golfo de Suez com os lagos amargos. Provavelmente chegava mesmo até mais
adiante, até o lago Timsah, o lago dos Crocodilos. Nessa região existia outrora
um mar de juncos. O braço de água que se comunicava com os lagos amargos era
vadeável em diversos lugares. A verdade é que foram encontrados alguns vestígios
de passagens. A fuga do Egito pelo mar dos Juncos é, pois, perfeitamente
verossímil”(1).

No deserto o povo hebreu passa a fazer determinadas exigências a Moisés, que
pede a Deus para atender-lhes, Deus envia-lhes as codornizes e o maná.
“Repetidamente tem-se discutido com mais ou menos base a questão das
codornizes
e do maná. Quanto ceticismo têm provocado! A Bíblia fala
de coisas maravilhosas e inexplicáveis. Mas codornizes e maná são inteiramente
naturais. Basta consultar um naturalista ou os naturais da terra, que ainda hoje
podem observar o mesmo fenômeno”.

“A saída de Israel do Egito começou na primavera, a época das grandes
migrações das aves. Partindo da África, que no verão se torna insuportavelmente
quente e seca, as aves seguem, desde tempos imemoriais, duas rotas para a
Europa: uma pela extremidade ocidental da África, para a Espanha, e a outra pela
região oriental do Mediterrâneo, para os Bálcãs. Entre essas aves encontram-se
codornizes, que nos meses da primavera voam por cima do mar Vermelho, que têm de
atravessar em sua rota para leste. Cansadas do grande vôo, deixam-se cair nas
planícies da costa a fim de recobrarem forças para a viagem por cima dos altos
montes até o Mediterrâneo. Flávio Josefo (Ant. III, 1.5) relata uma experiência
semelhante, e ainda em nossos dias os beduínos dessa região apanham com a mão,
na primavera e no outono, as codornizes exaustas”.

“No que se refere ao famoso maná, recorramos aos botânicos. Anteciparemos que
quem quer que se interesse por maná poderá encontrá-lo na lista de exportações
da península do Sinai”. (…)

(…) “O fenômeno do maná é um exemplo verdadeiramente clássico de como
certas idéias e conceitos preconcebidos se mantêm por vezes obstinadamente
através das gerações e como é difícil fazer prevalecer a verdade”.

(…) “O dito pão do céu cai pela manhã, ao amanhecer, exatamente como o
orvalho ou a geada, e pende como gotas na erva, nas pedras e nos ramos das
árvores. É doce como o mel e gruda aos dentes quando se come…”

(…) “o famoso maná não era outra coisa senão uma secreção das árvores e
arbustos da tamargueira, quando picados por uma espécie de cochonilha
característica do Sinai”.

(…) “Esses pequenos insetos vivem sobretudo nas mencionadas tamargueiras,
nativas do Sinai, que pertencer às acácias” (1).

Sem água para saciar a sua sede, novamente, o povo hebreu reclama a Moisés
que, inspirado por Deus, toca num rochedo, fazendo jorrar água pura. “Nessa
aflição Moisés teve de tomar da sua vara e ferir um rochedo para fazer brotar
água (Êxodo 17.6), o que é considerado completamente inconcebível pelos céticos
e por outros, embora, também nesse caso, a Bíblia apenas descreva um fato
natural”.

(…) “Um de seus golpes atingiu a rocha. A superfície lista e dura que se
forma sempre sobre a pedra calcária exposta ao tempo rompeu-se e caiu. Com isso
ficou exposta a rocha mole embaixo, e de seus poros brotou um grande jorro de
água”(1).

Após os quarenta anos no deserto, finalmente o povo consegue sair chegando às
margens do Rio Jordão, que também se divide em dois montes. “De fato, é isso o
que acontece também no caso em questão; a mais notável dessas repetições é a
referente ao “milagre da travessia do mar” (Êxodo 14), contada na “miraculosa
passagem do Jordão” (Josué 3, 4 a 17)”.

(…) “Quando Israel chegou ao Jordão, o rio estava cheio”. … “El Damiyeh,
um vau muito usado no curso médio, lembra esse sítio de Adom. Se as águas
crescerem subitamente, poderá se formar nesse lugar raso, durante um breve
período, uma espécie de açude natural, enquanto o curso inferior se mantém quase
inteiramente seco”.

“Entretanto, o represamento da água do Jordão, que tem sido testemunhado
diversas vezes, é devido sobretudo a terremoto. O último dessa espécie aconteceu
em 1927. Devido a um violento abalo desmoronaram-se as margens do rio, e grandes
massas de terra das pequenas colinas que se erguem ao longo de todo o curso
serpeante rolam para o rio. A água ficou inteiramente represada durante vinte e
uma horas” (1).

Atravessando o rio Jordão chegaram à cidade de Jericó. “As casas mais antigas
de Jericó têm sete mil anos e lembram ainda, com seus muros circulares, as
tendas dos nômades”.

“Foram postas a descoberto duas muralhas concêntricas, sendo a interna ao
redor da crista da colina. Trata-se de uma obra-prima de fortificação
estratégica, feita de tijolos secos ao sol e constituída de dois muros paralelos
três a quatro metros distantes um do outro. A muralha interna, que é
particularmente maciça, mede três metros e meio de espessura. O cinturão externo
passa pelo fundo da colina e consiste num muro de dois metros de largura e de
oito a dez de altura, com sólidos alicerces. Tais são as célebres muralhas de
Jericó!”

(…) “Segundo os achados, durante a Idade do Bronze, as célebres muralhas
foram reconstruídas nada menos que dezessete vezes; sempre tornaram a ser
destruídas, ou por terremotos, ou pela erosão. Quem sabe, essa pouca resistência
das muralhas teve sua ressonância na lenda transmitida pela Bíblia, que conta
como os filhos de Israel somente tiveram de soltar seus brados de guerra e fazer
soar suas trombetas para conquistar Jericó. A cidade de meados de Idade do
Bronze, surgiu nos tempos dos hicsos, aos quais acompanhou no seu ocaso, por
volta de 150 a.C. Em seguida, Jericó deixou de ser habitada, durante
aproximadamente um século e meio”. … “Se, de fato, somente na época da “tomada
de terra”, ou seja, em meados ou fins do século XIII a.C., os israelitas
alcançaram Jericó, então nem precisavam conquistá-la, pois ela já havia sido
abandonada por seus habitantes! Somente no século IX a.C, no reinado de Acab,
Jericó tornou a ser reedificada (Reis 16.34)”.

Temos, também, Josué fazendo o sol ficar parado no meio do céu, e um dia
inteiro ficou sem ocaso. Interessante, que tal fato extraordinário não foi
registrado por nenhum outro povo da terra, já que essa ocorrência iria refletir
na Terra inteira. E, mais, como esse fenômeno não causou nenhuma desordem no
universo.

Outro fenômeno ocorrido com o sol, foi quando, por invocação de Isaías, Deus
faz a sombra do sol recuar dez degraus da escada do quarto superior da casa de
Acaz. Como no primeiro, também não foi registrado por nenhum povo. A sombra
voltar para trás poderia ser por que o próprio sol retornou em sua órbita? Se
isso for verdadeiro, esse fato seria impossível de acontecer sem que causasse um
verdadeiro caos no universo.

Muitas outras coisas existem na Bíblia, que querem passar por milagres. Mas,
“é verdade que existem fábulas na Bíblia, puras fábulas como a história do
feiticeiro Balaão e a jumenta falante (Números 22), a história de Jonas, que foi
engolido por um grande peixe (Jonas 2), ou a história de Sansão, a quem dava
força a cabeleira longa (Juízes 13 a 16)” (1).

Especificamente quanto a história de Jonas, sabemos que a baleia é um peixe
cuja garganta é muito pequena, por isso sua alimentação é de peixes pequenos, um
homem não caberia nela. E, esquecendo-se, por um momento, que isso é um absurdo,
como um ser humano conseguiria viver dentro de uma baleia por três dias e três
noites sem se alimentar?

Narra Mateus que Jesus caminhou sobre o mar. Ora, isso bem que poderia ser um
fenômeno de levitação, reconhecido hoje pela Parapsicologia.

Encontramos também Jesus realizando ressurreições, entretanto, podemos, pelo
conhecimento atual da medicina, identificar casos de catalepsia ou letargia em
que a pessoa toma toda a aparência de morta. Devemos ressaltar que no caso da
filha de Jairo, Jesus disse que a menina não estava morta, apenas dormia.

Podemos, para efeito deste estudo, buscar a definição teológica de milagre
como uma manifestação da presença de Deus, caracterizada sobretudo por uma
alteração repentina e insólita dos determinismos naturais, ou seja, revogação de
alguma lei natural.

Mas, aceitando esse conceito iremos esbarrar num absurdo teológico, pois, se
Deus revogar algo que Ele tenha criado, pressupõe que Ele não tenha criado
perfeito, se não criou prefeito, então não seria Deus.

Pelo que colocamos no início, podemos deduzir que tudo que consta da Bíblia
como milagre, ou são fenômenos de ordem natural ou são fatos simbólicos
interpretados ao pé da letra.

Milagre seria uma ocorrência de ordem natural, sobre a qual o homem não tem a
mínima noção de como, quando, e em que circunstância possa ocorrer, porém, nada
foge das leis da natureza.

Antigamente, quando da colonização dos índios, o homem branco lhes oferecia
bugigangas, entre elas, espelhos. Como o índio nunca tinha visto tal objeto,
ficava encantado em se ver num pedaço de vidro, deveria pensar até que isso era
puro “milagre”. É o que querem fazer conosco ao apresentar algumas ocorrências
para as quais ainda não se encontrou a explicação científica, como por exemplo,
corpos de santos incorruptos como prova de que Deus tenha escolhido a essa
corrente religiosa para se manifestar. Como se Ele não considerasse ninguém mais
do que os que seguem essa corrente, contrariando “Deus não faz acepção de
pessoas”.

Contam, que determinado bandeirante diante de uma tribo indígena, atirou para
o alto com sua espingarda, daquela boca de sino. Incontinenti os índios
abaixaram em reverência, pois imaginavam que aquele homem era um Deus, já que
conseguia tirar fogo de um pau. Muitos de nós ainda se comportam como esses
índios que, por não conhecer uma arma de fogo, imaginaram que aquilo era um
pedaço de pau.

Respondendo, agora, à pergunta inicial, diremos que não. Os milagres não
existem. O que existe é nossa ignorância a respeito das leis que regem certos
fenômenos. Leis, diga-se de passagem, divinas, que nunca vimos serem derrogadas
por motivo algum.

Paulo da Silva Neto Sobrinho

Julho/2002.

(1) e a Bíblia tinha razão…, Werner Keller, tradução de João Távora
– Cia Melhoramentos de São Paulo, SP, 22ª edição 2000.

(2) SUPER Interessante, edição 178, julho 2002.

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