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Os Oradores e o Povo

Grupo Espírita Bezerra de Menezes

“Agora porém irmãos, se eu for ter convosco falando em outras línguas, em que vos aproveitarei, se não vos falar por meio de revelação, ou de ciência, ou de profecia, ou de doutrina?
É assim que instrumentos inanimados, como a flauta ou a cítara, quando emitem sons, se não os derem bem distintos, como se reconhecerá o que se toca na flauta ou cítara?
Pois também se a trombeta der som incerto, quem se preparará para a batalha?
Assim, vós, se com a língua não disserdes palavra compreensível, como se entenderá o que dizeis? Porque estareis como se falásseis ao ar.
“…Pelo que, o que fala em outra língua deve orar para que a possa interpretar.
Porque se eu orar em outra língua, o meu espírito ora de fato, mas a minha mente fica infrutífera. Que farei, pois? Orarei com o espírito, mas também orarei com a mente; cantarei com o espírito, mas também cantarei com a mente.
E se tu bendisseres apenas em espírito, como dirá o indouto o amém depois de tua ação de graças? Visto que não entende o que dizes; porque tu de fato, dás bem as graças, mas o outro não é edificado.
Dou graças a Deus, porque falo em outras línguas mais do que todos vós. Contudo, prefiro falar na igreja cinco palavras com meu entendimento, para instruir outros, a falar dez mil em outra língua” – (Paulo, aos Coríntios I, 14-6 a 8;13 a 19).

Diz o bom senso que nós, espíritas, devemos estudar e nos espelhar na sabedoria dos grandes mestres, retirando de suas lições o que necessitamos para nossa edificação. O apóstolo Paulo, embora incompreendido por alguns intelectuais, deixou-nos preciosos ensinamentos que certamente não poderiam ser endereçados apenas a um pequeno núcleo de pessoas, mas para toda a humanidade.

No trecho lido acima, o Apóstolo advertia acerca do hábito, que se espalhou na época, dos médiuns receberem mensagens em línguas estranhas às conhecidas por eles. Era um fenômeno muito comum e por certo servia para convencer as pessoas da realidade da existência da imortalidade da alma. Entretanto, o fato se tornou lugar comum e nas assembléias havia grande confusão pela falta de entendimento dos ouvintes, o que levou Paulo de Tarso a deixar instruções para estabelecer ordem no culto. Diz, de maneira clara e inequívoca, que para nada servem palavras que não edificam.

Nos tempos atuais, podemos aproveitar esses ensinamentos dentro da mesma linha de pensamento, embora em outra direção. Diz a lógica que a explanação de algum tema, através da exposição ou oratória, tem como objetivo divulgar o assunto, levando a quem ouve o conhecimento das idéias, ensejando o questionamento ou mesmo só a reflexão. Para tanto, a exposição terá de se desenvolver numa linguagem acessível ao público.

Analisando o desempenho dos oradores espíritas de determinada escola, poderemos bem aplicar aqui o ensino de Paulo. Todos têm mais ou menos as mesmas características. Suas oratórias são belas, vibrantes, empolgantes mesmo. As histórias contadas (sempre contam muitas histórias), são tão esplêndidas que parecem irreais. Eles procuram demonstrar que têm grande intimidade com os Espíritos superiores, o que deixa sempre a sensação de serem inatingíveis e certamente superiores também. Mas, uma das características mais marcantes é, sem dúvida, a linguagem fora do tempo real. Quem ouve uma palestra dessas, fica admirado com a quantidade de termos eruditos utilizados, de muito pouco uso e de quase nenhuma compreensão popular. Das duas uma: ou se afirma que não se entendeu muita coisa, ou se diz que o discurso foi maravilhoso para não se passar por ignorante. O certo é que das muitas coisas faladas, poucas ficam semeadas e é pouco provável que alguma venha a dar frutos. Aí entra a advertência de Paulo: “…se com a língua não disserdes palavra compreensível, como se entenderá o que dizeis? Porque estareis como se falásseis ao ar”.

A responsabilidade de quem ensina é muito grande. E muito mais de quem exemplifica e faz escola com seu modo de agir e pensar. Temos em nosso país uma grande carga atávica religiosa que nos impulsiona a comportamentos fanatizantes. Como o pensamento católico está entranhado em nosso meio, através da sutil doutrina de Jean Baptiste Roustaing, a facilidade com que se produz ídolos, deuses e mitos é muito grande. A idolatria é um dos grandes problemas existentes no movimento espírita, com flagrante prejuízo ao avanço das idéias.

A postura equivocada dos oradores é um grande laboratório para a gênese dessa ilusão. Além, é claro da conivência de alguns com os louros despejados a seus pés por seus admiradores. A palavra empolada, de difícil acesso aos simples, deixa sempre a impressão de que se está muito distantes dele. Cria-se em torno dessas figuras místicas uma verdadeira barreira de proteção. Quanto mais famoso o indivíduo, mais difícil o acesso a ele. Junta-se a isso o prestígio dos “amigos” e está editada uma situação de difícil convivência.

Para seus seguidores apenas a presença do ídolo é suficiente. Qualquer coisa que de sua boca sair só pode ser maravilhoso, sem necessidade de qualquer tipo de exame à luz da razão. A simples análise de seu trabalho por parte de alguns “abusados” soa como ofensa, desrespeito e audácia, isso para não se falar no tão conhecido “ataque das trevas”. Pode-se não entender muito bem o que ele fala, mas não importa, pois a oratória por si só já é um espetáculo.

Seria muito produtivo se houvesse uma reflexão em torno desse assunto. A mensagem de Jesus tem como característica a simplicidade e a Doutrina Espírita, a objetividade. Duas coisas que não se vê nas pregações desses ilustres missionários da divulgação. Faz-se necessário avaliar o verdadeiro sentido da oratória do nosso tempo. Afinal os oradores vieram para impressionar ou edificar? Se optarmos pela primeira hipótese, o objetivo está sendo atingido. Entretanto, se o alvo for a edificação, certamente muita coisa necessita de ajustes.

O principal papel da doutrina de Jesus é moralizar o Espírito e a Doutrina Espírita funciona como agente dessa construção do homem novo. Ela amplia os horizontes do Ser, estimula seu crescimento, trazendo até ele o conhecimento das verdades necessárias à libertação da ignorância em que vive mergulhado há milênios. O papel dos expositores e oradores é mostrar esse caminho de forma simples e acessível ao povo, com linguagem clara e fácil, sem preocupações com suas performances. Se aliarem a fantástica capacidade (e dom) que possuem de falarem em nome de Jesus a essa simplicidade e objetividade, certamente o efeito transformador será infinitamente maior, e não dará a triste impressão de estar “falando ao ar”, como se vê frequentemente.

De resto, é pensar em torno do ensinamento do Apóstolo: “Contudo, prefiro falar cinco palavras de meu entendimento para instruir outros, a falar dez mil em outra língua”. Os simples agradecem!

Vanda Maria Simões
E-mail: vanda@elo.com.br

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