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Os Trabalhadores da Última Hora

Os Trabalhadores da Última Hora

A leitura atenta deste trecho não parece corroborar a referida interpretação.
Primeiro, a frase inicial qualifica os espíritas: “Bons espíritas…”. O
adjetivo ‘bons’ em geral passa despercebido! Logo, a frase não diz respeito aos
espíritas em geral, mas aos bons espíritas. E todos conhecemos a
impressionante lista de qualidades dos bons espíritas, que Kardec registrou no
capítulo 17 do Evangelho Segundo o Espiritismo, seções “O homem de bem” e
“Os bons espíritas”.

Além disso, a frase não tem o artigo definido ‘os’ antes de ‘obreiros da
última hora’, como normalmente se diz. A inclusão do artigo emprestaria ao
pensamento um ar de sectarismo e orgulho incompatível com a índole da doutrina
espírita. Os bons espíritas não são os obreiros da última hora, com a
implícita exclusão dos outros homens, mas simplesmente obreiros da última hora.
Eles são aqueles que passaram, numa “hora” relativamente recente da história da
humanidade, a trabalhar, ao lado de tantos outros, na vinha do Senhor.

E mais: nem mesmo entendida corretamente a comparação de Constantino serviria
de fundamento a qualquer sentimento ufanista no meio espírita. Afinal, os
trabalhadores da última hora não tiveram nenhum mérito relativamente aos da
primeira hora. Simplesmente são aqueles para quem, por uma razão ou por outra, a
tarefa chegou um pouco mais tarde.

Prosseguindo, o Espírito modifica um pouco a alegoria, ao salientar que mesmo
estes em geral ignoraram durante séculos os apelos do Senhor para o trabalho na
vinha! A rigor, então, os bons espíritas não deveriam se orgulhar nem mesmo de
terem sempre estado aguardando ansiosamente o chamado para a obra divina. Estão,
via de regra, na condição geral da humanidade terrena, de Espíritos que fizeram
mau uso de seu livre-arbítrio em passado próximo ou distante.

No entanto, o que os caracteriza – sem a exclusão de outros, repetimos – é
que agora já superaram aquele período de “hospitalização”, e reaprenderam a
trabalhar no bem. Esse o seu maior salário: a bênção de já poderem trabalhar na
construção de sua felicidade, mediante o amor ativo ao próximo e a si mesmos.

Que dizer agora dos espíritas que ainda não podem ser ditos bons?
Esses são os que, não obstante terem as luzes dos princípios espíritas ao seu
alcance, ainda resistem indolentemente a trabalhar, ou a trabalhar tanto quanto
sua condição permitiria; ou aqueles, em condição mais lastimável ainda, que
ainda se “cevam nas ignomínias” morais, sem envidar esforços para emendar-se.

É claro que essa classificação não é nítida, ou seja, não há apenas dois
grupos de espíritas. Há uma gradação contínua, começando naqueles francamente
retardatários e terminando nos que já entendem e vivenciam plenamente as
diretrizes divinas para os homens. Caberá a nós determinar, pelo exame isento de
nossos pensamentos e atos, nossa posição nessa escala, e incessantemente
procurar galgar posições cada vez mais avançadas, pela reparação de nossos
erros, pela superação de vícios e conquista de virtudes.

Referências bibliográficas

  • Emmanuel. O Consolador. (Médium Francisco Cândido Xavier.) 8a
    ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, 1940.
  • Kardec, A. O Livro dos Espíritos. Trad. de Guillon Ribeiro. 43a
    ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s.d.
  • –––. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Trad. de Guillon Ribeiro.
    111a ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira,
    s.d.
  • –––. O Céu e o Inferno. Trad. de Manuel Quintão. 28ª edição, Rio de
    Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s.d.

 

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