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Pálida e Insulsa Descrição

Rogério Coelho

“Deus, meus filhos, abre os Seus tesouros,
para vos outorgar os Seus benefícios”.
– Santo Agostinho

Segundo André Luiz a maior dificuldade com a qual se vêem a braços os
Benfeitores Espirituais, é descrever para o nosso apoucado entendimento as
indescritíveis e superlativas belezas do Universo Espiritual. A pobreza dos
nossos adjetivos não permite senão uma pálida e insulsa descrição dos panoramas
sublimes do Infinito. Como descrever as nuanças dos suaves matizes do arco-íris
ao cego de nascença?

Em sua maravilhosa série de livros, André Luiz narra que o engenheiro
mecânico vai, em desdobramento, até ao Mundo Espiritual e lá vê os silenciosos
veículos movidos a energia eletromagnética, não poluente, e voltando à realidade
física “inventa” o barulhento automóvel com motor a explosão, utilizando os
fumarentos combustíveis fósseis, que fragilizam a camada de ozônio do planeta. O
engenheiro se estarrece com as belezas e imponência dos leves e delicados
arranha-céus de cristal do Mundo Espiritual, e só consegue edificar aqui na
Terra um arremedo sólido e bruto de ferro e concreto.

Não é sem motivo que os Espíritos Superiores declaram que a nossa realidade
física não passa de um “papel carbono” incolor da realidade Espiritual!…

Alguns Espíritos tentaram, debalde, nos oferecer uma descrição da realidade
que se lhes antojava, entre eles, um chamado Sixdeniers, que narrou:

“(…) Nada existe aqui de material; tudo fere os sentidos ocultos sem
auxilio da vista ou do tato: compreendeis? É uma admiração, porque não há
palavras que a expliquem. Só a alma pode percebê-la. Bem feliz foi o meu
despertar. A Vida é um desses sonhos, que, apesar da idéia grosseira que se lhe
atribui, só pode ser qualificada de medonho pesadelo. Imaginai que estais
encerrados em calabouço infecto onde o vosso corpo, corroído pelos vermes até à
medula dos ossos, se suspende por sobre ardente fornalha; que a vossa ressequida
boca não encontra sequer o ar para refrescá-la; que o vosso Espírito
aterrorizado só vê ao seu redor monstros prestes a devorá-lo; figurai-vos enfim
tudo quanto um sonho fantástico pode engendrar de hediondo, de mais terrível, e
transportai-vos depois e repentinamente a delicioso Éden: Despertai cercados de
todos os que amastes e chorastes; vede, rodeando-vos, semblantes adorados a
sorrirem de felicidade; respirai os mais suaves perfumes; desalterai a
ressequida garganta na fonte de água viva; senti o corpo pairando no Espaço
infinito que o suporta e balouça, qual a flor que da fronde se destaca aos
impulsos da brisa; julgai-vos envoltos no amor de Deus qual recém-nascidos no
materno amor e tereis uma idéia, aliás apenas imperfeita, dessa transição.
Procurei explicar-vos a felicidade da Vida que aguarda o homem depois da morte
do corpo e não pude. Será possível explicar o Infinito àquele que tem os olhos
fechados à luz e que não pode sair do estreito círculo que o encerra? Para
explicar-vos a eterna felicidade, dir-vos-ei apenas: amai, pois só o amor
faculta o pressenti-la, e quem diz amor diz ausência de egoísmo”.

Após uma semana de desencarnado, declarou o Dr. Antoine Demeure (2), médico
de Kardec:

“(…) A morte emprestara à minha alma esse pesado sono a que se chama
letargia, porém, o meu pensamento velava. Sacudi o torpor funesto da perturbação
conseqüente à morte, levantei-me e de um salto fiz a viagem. Como sou feliz! Não
mais velho nem enfermo. O corpo, esse, era apenas um disfarce.

Jovem e belo, dessa beleza eternamente juvenil dos Espíritos, cujos cabelos
não encanecem sob a ação do tempo; ágil como o pássaro que cruza célere os
horizontes do vosso céu nebuloso, admiro, contemplo, bendigo, amo e curvo-me,
ínfimo átomo que sou, ante a grandeza e sabedoria do Criador, sintetizadas nas
maravilhas que me cercam. Feliz! feliz na glória! Oh! quem poderá jamais
traduzir a esplêndida beleza da mansão dos eleitos; os céus, os mundos, os sóis
e seu concurso na harmonia do Universo? Pois bem: eu ensaiarei fazê-lo, ó meu
mestre; vou estudar, e virei trazer-vos o resultado dos meus trabalhos de
Espírito.”

Evidentemente o Dr. Demeure não pôde, até hoje, cumprir tal promessa por
absoluta falta de recursos de nossa linguagem grosseira e inexpressiva,
inadequada, portanto a fazer-nos compreender as belezas e maravilhas do
Universo.

Três dias após o seu decesso corporal, a viúva Foulon, amiga de Kardec e de
Amèlie Boudet, testemunhou (2):

“(…) Considero-me feliz agora, meu amigo; estes míseros olhos que se
enfraqueceram a ponto de me não deixarem mais que a recordação de coloridos
prismas da juventude, de esplendor cintilante, abriram-se aqui para rever
horizontes esplêndidos, idealizados em vagas reproduções por alguns dos vossos
geniais artistas, mas cuja exuberância majestática, severa e conseguintemente
grandiosa, tem o cunho da mais completa realidade.

Mas, quanto trabalho para reproduzir uma obra-prima e digna da grandiosa cena
que se antolha ao Espírito chegado às regiões da luz! Pincéis! Pincéis e eu
provarei ao mundo que a arte espírita é o complemento da arte pagã e da arte
cristã que periclita, cabendo somente ao Espiritismo a glória de revivê-la com
todo o esplendor sobre vosso mundo deserdado.

(…) Não encontro meios de exprimir as sensações novas que experimento.
Esforço-me a todo o transe para fugir à fascinação que sobre o meu ser exercem
as maravilhas por ele admiradas. A única coisa que posso fazer é adorar e render
graças a Deus nas Suas obras. Mas essa impressão se desvanecerá e os Espíritos
asseguram-me que dentro em breve estarei acostumada a todas estas
magnificências, de modo a poder tratar com lucidez espiritual de todas as
questões concernentes à renovação da Terra.

(…) Temos o dom de ver os Espíritos mais adiantados, de compreender-lhes a
missão, de saber que também nós a tanto chegaremos; no Infinito incomensurável,
entrevemos as regiões em que rútilo esplende o fogo divino, a ponto de
deslumbrar-nos, mesmo através do véu que as envolve. Mas, que digo? Compreendeis
as minhas palavras? Acreditais ser esse fogo, a que me refiro, comparável ao
Sol, por exemplo? Não, nunca. É uma coisa indizível ao homem, uma vez que as
palavras só exprimem para ele coisas físicas ou metafísicas que conhece de
memória ou intuitivamente.

Desde que o homem não pode guardar na memória o que absolutamente desconhece,
como insinuar-se-lhe a percepção? Ficai porém ciente de que é já uma grande
ventura o pensar na possibilidade de progredir infinitamente”.

Ao descrever (1) a felicidade que a prece proporciona, Santo Agostinho tenta
(também debalde) fazer um pequeno esboço das maravilhas celestes:

“(…) A prece é o orvalho divino que aplaca o calor excessivo das paixões.
Filha primogênita da fé, ela nos encaminha para a senda que conduz a Deus. No
recolhimento e na solidão, estais com Deus. Para vós, já não há mistérios; eles
se vos desvendam. Apóstolos do pensamento, é para vós a Vida. Vossa alma se
desprende da matéria e rola por esses mundos infinitos e etéreos, que os pobres
humanos desconhecem.

Avançai, avançai pelas veredas da prece e ouvireis as vozes dos anjos. Que
harmonia! Já não são o ruído confuso e os sons estrídulos da Terra; são as liras
dos arcanjos; são as vozes brandas e suaves dos serafins, mais delicadas do que
as brisas matinais, quando brincam na folhagem dos vossos bosques. Por entre que
delícias não caminhareis! A vossa linguagem não poderá exprimir essa ventura,
tão rápida entra ela por todos os vossos poros, tão vivo e refrigerante é o
manancial em que, orando, se bebe. Dulçurosas vozes, inebriantes perfumes, que a
alma ouve e aspira, quando se lança pela prece a essas esferas desconhecidas e
habitadas!”

Caminhemos, pois, impertérritos e confiantes, pois o futuro de indescritíveis
belezas e maravilhas espirituais nos aguarda. E não é para ser de outra maneira,
vez que Jesus, disse: “Vou preparar-vos lugar”. Já que a nossa mãe Terra que foi
tão carinhosamente preparada por Ele para alavancar nossa destinação celeste,
possui tantas belezas naturais, e sendo ela apenas um “papel carbono” incompleto
das belezas do Universo, dá para imaginar como é esse “lugar” que Ele nos está
preparando?

Referências Bibliográficas

1 – Kardec, A. “O Evangelho Segundo o Espiritismo” – Capítulo XXVII, item 23

2 – Kardec, A. “O Céu e o Inferno” – 2ª parte, capitulo II

(Publicado no Boletim GEAE Número 399 de 05 de setembro de 2000)

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