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Para uma Auto-Reflexão

Para uma Auto-Reflexão

Tudo no Universo acontece na hora certa. “Não cai uma folha de uma árvore
sem a vontade de Deus…”.
É neste sentido que vemos a pertinência de se
fazer tal discussão – em princípio um tanto controvertida – em torno da arte com
temática espírita, suas ações e funções. É o momento certo de se trazer à baila
tal abordagem pois uma das tônicas da atualidade é a questão da
profissionalização do terceiro setor tendo em vistas melhorar a qualidade da
prestação de serviços ao social atendido. Apenas para posicionamento das idéias
a serem expostas, o chamado terceiro setor é formado por pessoas de outros
setores, tanto do público, ou primeiro setor, quanto do privado, o segundo
setor, que se organizam em sociedades civis, sem fins lucrativos, buscando
atender aos segmentos sociais insuficientemente atendidos em suas necessidades
básicas.

A profissionalização do terceiro setor surgiu de uma necessidade de se
melhorar a sua comunicação junto aos seus públicos internos e externos:
população em geral, doadores, apoiadores e outras organizações afins. Estamos
assistindo à formação de um mercado formado por instituições de apoio ao social
e que se torna cada vez mais competitivo portanto exigindo mais qualidade e
competência nas ações. A profissionalização surge da necessidade de se sair do
estágio “emocional”, personalista, para o racional, coletivo ou o mercado. As
organizações já não podem mais agir como se só elas e sua produção existissem
deixando de olhar o macroambiente ditando as tendências de avanço. Boa ação é
fator emocional. Disciplina é fator racional. Assim como o vôo sublime para a
eternidade demanda o equilíbrio das “asas da razão e do sentimento” enunciado
por Emmanuel em sua obra Roteiro, se ambas, boa ação e disciplina
ocorrerem de forma concomitante teremos atingido o ideal cristão de fraternidade
eficiente.

Um centro espírita não está fora dessa tendência profissionalizante que
certamente também veio para conferir um caráter distintivo de mais uma etapa
dentro do Espiritismo enquanto vanguarda revolucionária. Muitos espíritas já
temem o termo profissionalização – conceito moderno estreitamente vinculado à
moeda – com receio de estarem “mercantilizando o sagrado” como se o
Creador do Universo tivesse outorgado tal poder às suas creaturas… Sim, porque
é preciso ser muito poderoso para comercializar o intangível ou o ainda sequer
compreendido!

É realmente um momento de parada de consciência, de repensar valores e
princípios muitas vezes herdados ou interpretados sem muito juízo crítico e que
se adequaram a determinado momento histórico tornando-se anacrônicos nos dias de
hoje. Neste ponto, vale discutir a cultura espírita e seu grande conflito quanto
ao uso do dinheiro. Herculano Pires, em sua obra O Centro Espírita, da
Editora Lake, na página XXII, denuncia: “Associações espíritas,
promissoramente organizadas, logo se transformam em grupos de rezadores
pedinchões. O carimbo da Igreja marcou fundo a nossa mentalidade em penúria…”

Parece que marcou-nos profundamente o fato de, um dia, poderes temporais terem
cunhado no vil metal a possibilidade de virmos a cair em tentação e perder o céu
eterno. Não estavam totalmente errados, previam a falta de escrúpulos inerente
ao ser humano em baixo estágio de evolução e habitante de um planeta de expiação
e provas. Todavia, é preciso antes entender que se somos filhos diretos da
Creação, inteligentes e livres, é pouco provável que sejamos manipulados pelo
dinheiro, algo que decididamente não pensa portanto jamais poderá comandar no
sentido inteligente dessa ação. Precisamos repensar quem são o sujeito e o
objeto de perdição ou salvação; quem efetivamente raciocina, conhece e decide, e
o quê, em verdade, é apenas um facilitador de melhores resultados em ações
positivas.

Lembremos também a prática do aconselhamento de Jesus: “Vivam a vida do
mundo”
, ou seja, o Pai concede tecnologias aos seus filhos para fazer
avançar suas mentes e seus corações rumo à perfeição. Os recursos materiais
configuram-se como ferramentas perfeitamente passíveis de serem utilizadas no
Bem da humanidade. Ou não. Ou seja, parece que não temos confiança em nós mesmos
quanto à nossa capacidade de lidar com os recursos materiais segundo as
orientações do Evangelho. Somos nós, os recursos humanos, os comandantes dos
recursos materiais disponibilizados para fazer crescer a humanidade e podermos
cumprir muito bem esta tarefa considerando-se o fabuloso manual de instruções
denominado Evangelho!

Evolução e revolução são dois fenômenos intrínsecos. O primeiro refere-se a
um processo que pode ter como resultado o segundo. O processo de evoluir
compreende o fator mudança sendo que esta invariavelmente provoca uma revolução
em algum nível. Toda vez que um indivíduo evolui significa que mudou de estágio
ou de condição e esta modificação, por estar naturalmente vinculada a algum
status quo
, interfere ou revoluciona o contexto anteriormente estável.

Seguindo esta linha de raciocínio, é interessante admitir que a evolução
espiritual implica em alguma revolução nas dimensões em que se insere, material
e espiritual. Todavia, antes de prosseguirmos, atentemos a alguns detalhes
importantes às nossas reflexões sobre esses temas. Espírito é o ser inteligente
da creação, destinado à evolução a despeito de sua anuência ou não. Tal é a lei.
Será perfeito pois esse é o escopo do Creador.

A partir desses postulados, surgem as questões: mesmo que não se queira
“correr riscos” frente à evolução espiritual, ela o é? Vai acontecer cedo ou
tarde à nossa revelia? É mesmo da vontade do Creador? É importante entendermos
essa meta inexorável para alcançarmos um entendimento mais claro dos
instrumentos que o plano divino disponibiliza para o avançar da humanidade.
Nesse sentido, a arte com temática espírita é mais um legado da espiritualidade
para nos conduzir à nossa destinação de seres perfeitos. É um instrumento de
sensibilização de mentes e corações predispostos à uma modificação interior.
Agora, não podemos nos esquecer que a arte, com temática espírita ou não,
depende de agentes para se consubstanciarem no planeta. No Plano Espiritual, de
onde efetivamente vem a maior parte das obras artísticas, depois complementadas
com o quinhão do encarnado, os inspiradores certamente têm suas necessidades
básicas supridas pelo próprio contexto em que vivem. Sobre este assunto,
esclarece-nos o querido irmão André Luiz, no capítulo I, 2ª parte, da
sua obra Evolução em Dois Mundos: “…o corpo espiritual, através de
sua extrema porosidade, nutre-se de produtos sutilizados ou sínteses
quimioeletromagnéticas, hauridas no reservatório da Natureza e no intercâmbio de
raios vitalizantes e reconstituintes do amor com que os seres se sustentam entre
si…”
Os inspirados do Plano Material, ou artistas encarnados, agentes do
ato criativo, também precisam ser supridos pelo menos em suas necessidades
básicas de sobrevivência. Além do imprescindível investimento no saber segundo o
“Amai-vos e instruí-vos” preconizado pelo Espírito de Verdade
(Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo VI). O que fazer? Cuidar do corpo ou
do Espírito ou de ambos? “…Amai, pois, a vossa alma, mas cuidai também do
corpo, instrumento da alma; desconhecer as necessidades que são indicadas pela
própria Natureza, é desconhecer a lei de Deus…”
(ESE, cap. XVII).

Talvez essa parada de consciência quanto ao uso das regras do mercado
empresarial no contexto da produção artística com temática espírita seja
realmente propícia. É prudente sim discutir que rumo tomar. Mas sem nos deixar
levar por pontos de vista ainda temerosos, carecentes de discernimento de outras
propostas evangélicas. Por exemplo, suponhamos que o Creador conceda a um dos
seus agentes encarnados os dons do talento artístico e do amealhar a fortuna
material. Sim , há pessoas, que mesmo sem se lembrarem de terem assumido
compromissos junto ao Plano Espiritual, reencarnam com o talento de multiplicar
a moeda terrena. E digamos também que este agente receie usar do segundo
talento, enterra-o tentando evitar possível queda. E digamos também que o Plano
Maior também lhe tivesse delegado a função de usar ambos os talentos, sem
exclusão de nenhum, em benefício da humanidade e o seu próprio alavancar. O
negar-se com certeza estaria abortando sabe Deus quantos projetos de progresso
individual e coletivo! Atentemos mais uma vez para o Evangelho, no capítulo XVI:
“…mas um dever igualmente imperioso, igualmente meritório, consiste em
prevenir a miséria; nisso sobretudo está a missão das grandes fortunas, pelos
trabalhos de todos os gêneros que podem fazer executar (…) o servidor que
enterrou na terra o dinheiro que lhe foi confiado, não é a imagem dos avarentos
entre as mãos dos quais a fortuna é improdutiva? Se, entretanto, Jesus fala
principalmente das esmolas é porque naquele tempo e naquele país onde ele vivia,
não se conheciam os trabalhos que as artes e a indústria criaram depois, e nos
quais a fortuna pode ser empregada utilmente para o bem geral…”
.

Seguindo a sabedoria evangélica, por que não direcionarmos nosso pensamento
para a utilidade da fortuna em termos de ação preventiva contra a decadência e
não como elemento de contravenção das leis divinas? Quantas realizações em favor
de um mundo melhor podem ser consolidadas por médiuns assumidamente agentes do
social? Pensemos que em mãos de muitos medianeiros repousa a sublime tarefa de
patrocinar, gerir projetos sociais e pessoas tendo em vistas um Brasil
efetivamente Pátria do Evangelho: “Daí esmola quando isso for necessário,
mas, tanto quanto possível, convertei-a em salário, a fim de que aquele que a
recebe, dela não se envergonhe”
(ESE, cap. XVI). Quantos empregos ou
colocação de mão de obra podem ser efetivados ao invés de esperarmos pelo pior
para depois prestar o devido auxílio? Parece-nos importante em nossa parada de
consciência questionar também a extensão da palavra abuso ou falta de ética no
uso dos talentos. Talvez pudéssemos chegar a melhor termo do que deixar de fazer
conforme podemos observar na pergunta 642 de O Livro dos Espíritos:
“…Bastará não fazer o mal para ser agradável a Deus e assegurar a sua posição
futura?”.
Resposta: “Não, é preciso fazer o bem no limite de suas forças,
porque cada um responderá por todo mal que resulte do bem que não haja feito.”

E quando falamos em revolucionar o mercado, qual é o perfil desse mercado?
Quais são suas expectativas frente à arte com temática espírita? Que benefícios
este mercado já reconhece nesse instrumento de renovação? Qual é o grau de
aceitação da produção da arte com temática espírita? Entendemos ser importante
conhecer, através de instrumentos científicos – como uma pesquisa de mercado – o
que pensam os receptores dessa produção. Muitas vezes tomam-se decisões baseadas
em “achismos” pessoais e nos esquecermos de conhecer o grau de satisfação
de quem está do outro lado da questão. Pensar em mercado é pensar no público ou
consumidor de idéias do mercado simbólico.

Mercado, em termos empresariais, é um local onde pessoas que compartilham de
uma necessidade ou desejo específicos estão dispostas e habilitadas a fazer
trocas que satisfaçam essas expectativas. Tanto o Espírito quanto o mercado, por
suas características peculiares, são distintivos e qualificados conforme os
perfis que apresentam. Assim, seria interessante buscar quantos nichos estão
compondo o mercado que queremos revolucionar. Talvez com essa elucidação os
artistas também tivessem a opção de escolher os segmentos que querem atuar: o
contexto amador ou o profissional. Há lugar para todos e a padronização parece
muito longe de dar certo pois a era da massificação, ou aceitação passiva sem
opções, já ficou há muito no tempo e no espaço. As pessoas, ou os consumidores
de idéias, são livres para escolher se querem cantar em um coral na casa
espírita apenas por deleite, para integração no contexto ou se querem estar
qualificados para apresentações profissionais. Em ambos os casos não deixará de
acontecer a assessoria espiritual mas se na segunda situação o ganho se faz
necessário é porque os compromissos são diferentes. No primeiro caso, os
integrantes são “pacientes” em tratamento terapêutico pela música, têm um
compromisso com eles próprios; no segundo, temos uma categoria de “médicos”, ou
seja, assumiram o compromisso de ministrar o remédio para outros, por isso
precisam buscar a qualificação, precisam investir em si para oferecerem o melhor
diante de uma coletividade.

Evolução do Espírito e revolução no mercado. Como dissemos anteriormente, é
muito difícil perceber essas propostas separadamente. E quando são colocadas
como duas vertentes em discussão, parece que estamos lidando com elementos
arraigados de uma cultura. Talvez pelo fato do Espiritismo, por muito tempo, ter
sido praticado no Brasil como um culto proibido, censurado e rejeitado, muitos
representantes da cultura espírita, até nos dias de hoje, tendem a reproduzir
esse mesmo comportamento de insulamento. Resistem às tecnologias
disponibilizadas para o avanço e, consequentemente, relutam em assumir que toda
melhoria no planeta implica também em investimento monetário. É próprio de um
planeta material. E toda produção artística de qualidade não está fora dessa
regra de mercado. Insistimos: vamos perguntar aos públicos o que gostariam de
apreciar na arte com temática espírita. Quando películas do tipo Do outro
lado da vida
e Amor além da vida fazem grande sucesso de público e de
arrecadação, devemos nos perguntar se sem aquela esmerada qualidade de produção
cinematográfica teriam atraído tantas pessoas para as coisas do Espírito. Está
certo que há um momento de grande busca espiritual mas imaginemos as estórias
destes filmes contadas sem tais imagens magnetizadoras. É estar fora das
expectativas do público que se quer atingir.

É hora dos Espíritas mais receosos entenderem que existem regras no mercado
que não interferem nas questões morais mas são mecanismos reguladores de uma
competitividade real. Por exemplo, em função da consolidação do conceito de
Terceiro Setor, existe atualmente neste mercado a figura do profissional
captador de recursos para essas organizações não lucrativas. Por convenção
ética, essa figura não pode receber comissão sobre os resultados mas sim bônus,
salário ou honorário. A maior favorecida é a instituição que conta com uma
pessoa qualificada para buscar recursos de viabilização dos seus projetos.
Considerável parte do mercado já não aceita mais a filantropia emocional; quem
não aprender a “passar o chapéu” de forma profissional tem poucas chances de
sobrevivência no mercado. E se os artistas espíritas pretendem uma ação
evangelizadora eficiente e eficaz, é importante sair um pouco do microambiente e
repensar também o macroambiente pois corre-se o risco de alcançar soluções que
não mais se adequam à realidade atual. Podem servir apenas a interesses muito
particulares onde o Bem da humanidade estará ignorada.

É assim que gostaríamos de deixar a nossa contribuição: discutir modernos
conceitos mercadológicos perfeitamente aplicáveis tendo em vistas pensar a arte
com temática espírita como ferramenta de crescimento e de revolução.

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