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Parece que foi ontem

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Enéas Canhadas

 Poucas expressões parecem ser tão repetidas e tantas vezes expressadas em prosa, verso, livros inteiros, letras de músicas e quantas outras incontáveis vezes que ela deve ser falada diariamente. Você também deve ter o seu momento na lembrança em que alguém se referiu a um fato começando pela expressão “parece que foi ontem”.  Lembro-me com nitidez de estar em meio a vários adultos da minha família, pai, mãe, tios e tias e enquanto relembravam histórias e fatos, vez por outra, alguém arrematava com esta expressão. Sem dúvida ela expressa um saudosismo e ainda mais o desejo de que algo passado há tanto tempo, pudesse de alguma maneira, retornar não simplesmente à nossa mente, mas também ao nosso momento presente. “Parece que foi ontem” é uma expressão que atesta a fidelidade da nossa memória, não aquelas que vez por outra nos esforçamos para trazer à mente consciente, mas aquelas que a nossa memória quer lembrar, em especial quando alguma associação toma a nossa mente de assalto e o faz, nos parece, espontaneamente, ou então uma música nos invadiu e foi direto para um fato registrado lá no fundo dos nossos sentimentos. Pode acontecer também por um detalhe quase imperceptível como um aroma que surge no cotidiano e nos remete com a mais incrível das velocidades a um passado remoto. Pode ser também que um rosto nos trouxe a lembrança de alguém esquecido no passado, às vezes nem é o rosto inteiro, mas apenas um detalhe. Um tom de voz, um ruído, uma palavra, uma imagem, um cartaz antigo, a capa de um disco, uma peça de roupa pendurada no varal. Enfim, ficaríamos aqui enumerando possibilidades.

É por essas e outras razões que, quando alguém chega ao Consultório dizendo querer esquecer alguém ou de algo, costumo sugerir que a pessoa pare de querer esquecer. Lembrar é, antes de tudo, uma condição da existência, pois fomos de feitos de modo a não esquecer as experiências, em especial as mais marcantes emocionalmente falando. Possuímos memória e ela nos garante as lembranças durante a vida. É bem verdade que há situações de esquecimento, da mesma forma parece que a nossa memória toma a dianteira em nos livrar de certas recordações, em geral para o nosso próprio bem. São as amnésias nas suas diversas formas. Há também os casos de traumatismos que não procedem de experiências do sentir e do pensar, mas vem das vivências em que nos lançamos a ações desastrosas. Esse é outro caminho para outras reflexões.

Podemos pensar que o esquecimento temporário de vidas passadas não são propriamente memórias apagadas, mas sim páginas do livro da vida que foram viradas pelos ventos de uma nova encarnação. A memória continua no espírito e esse livro nós podemos folhear nas entre vidas. Não só podemos fazê-lo como deveremos fazê-lo, pois na verdade, somos a nossa história. Não há como fugir desta circunstância. A nossa história nos possui, pois contém a nossa identidade mesmo que seja imatura ou em algum tempo ainda mal formada. Não existe a possibilidade de não possuirmos a nossa história, nem de não pertencermos a ela. É o próprio existir.

Parece que foi ontem tem a propriedade de nos fazer pensar no verbo parecer, e isto acontece porque algum fato registrado na nossa memória está nítido e permanece vívido por causa da fidelidade das memórias que nos pertencem para sempre. Essa expressão nos dá a condição da fazer a experiência de esquecer e lembrar. Como a criança que deixa de ver quando cobre os olhos com suas mãozinhas e depois se alegra em desvendar os olhos e gritar alegremente “achou!” é o treino que a existência nos proporciona e também a evolução o faz generosamente conosco.

O verbo “parecer” tem outra função muito importante para a nossa memória e consciência como todo. Ele nos traz discernimento sobre o que já vivemos para que a sequência das experiências da vida não se remontem no tempo. É isto que faz parecer que o tempo existe cronologicamente. Não fosse o fato de algo parecer que foi em algum tempo passado, ficaríamos confundidos em meio aos fatos. Literalmente poderíamos nos fundir com eles, nos confundirmos nas vivências de ontem e de hoje. O parecer nos presta o benefício de desmisturar os acontecimentos e ainda nos possibilita compará-los.

Nas comparações dos fatos é que podemos passar para o estágio da avaliação e dos aprendizados. Ao comparar os acontecimentos de ontem e hoje estamos habilitados a ir e voltar dentro da nossa história. Desta forma conseguimos a proeza de ser continente da nossa existência. Existir é consciência. Se “penso, logo existo” que é uma conclusão matemática e filosófica de Descartes (1596-1650) nos leva a pensar, ser e existir, então pensar e verificar os acontecimentos é uma possibilidade permanente nas nossas vidas, mais do que permanente, talvez a constatação maior seja a de existir absolutamente.  Melhor para os que, como nós, acreditamos no fluir sempiterno da vida. Do contrário, a existência seria temporária e finita. Não fosse assim crer, o existir seria fortuito, casual, espasmódico. Só restaria saber quem ou o quê haveria de ter tais espasmos.

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