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Pobre Kardec: O Homem Prefere a Prisão a Responder Pelos Seus Atos

Pobre Kardec: O Homem Prefere a Prisão a Responder Pelos Seus Atos

Imagino que Kardec, ou talvez Chico (que dizem, é o próprio), deva ter muitos
pesadelos com este seu irmão, o homem. Bem mais recente, é claro, como
escreveria José Saramago, é o sofrimento do nosso querido guia, porém penoso não
menos, que, este antigo e provavelmente já monótono, o de Jesus, mestre
principal e eterno, desta difícil gente, a nossa, isto para do pai nosso, Deus,
não falar. Comecemos por nosso mestre.

Jesus, que com poucas palavras e muitos exemplos ensinou tudo do que deve ser
feito e compreendido pelo homem, no que diz respeito à sua evolução moral e
espiritual, teve (e tem) de agüentar séculos de assassinatos, guerras, ódio,
sofrimentos incontáveis, indizíveis, em nome do céu ou, talvez mais correto, do
inferno. Pior: a assinatura de Deus, falsificada é claro, aparece em todas as
permissões que a Igreja forneceu para os funestos propósitos. Com certeza ele,
Jesus, previa, por isto deixou de prontidão seu braço direito, se é que assim
podemos dizer, o Consolador, que o homem ainda custaria muito a entender, se é
que um dia compreenderá, mas mantenhamos a esperança (exceto quando este for o
nome de sua sogra), seus ensinamentos eternamente válidos. Peço desculpas pela
pequena piada, mas não posso evitar o aspecto cômico desta persistente teimosia
deste ser (in)teligente, como vemos presunçoso por assim se considerar, o homem.
Continuemos.

Depois de séculos do que já dissemos antes, finalmente nos chega o
Consolador, assim auto-intitulado, embora por poucos aceito, por intermédio de
nosso abençoado, este também, guia, Allan Kardec. Como podemos ver, é Jesus que,
depois de dar tempo bastante para que o homem demonstrasse o quão, peço
emprestado este termo coloquial, pedra bruta é, resolve que é hora de facilitar,
tornando ainda mais compreensível seus ensinamentos e a obra divina, a ascensão
de seus protegidos, fique claro, falo de nós mesmos, eu inclusive.

Fato interessante é que, se os ensinamentos de Cristo já libertavam os que
nele realmente criam, o Consolador, fazendo jus ao nome, nos traz informações
que possibilitam muito mais liberdade no nosso viver cotidiano, social. Sem
tomar emprestado, desta vez isto saiu de minha própria mente – ou não, poderiam
dizer com propriedade alguns espíritas – utilizarei um exemplo trivial, pois que
assim talvez me faça compreensível pela maioria das pessoas, umas não têm mesmo
jeito, para explicar melhor como tal proeza é possível (me refiro à maior
liberdade que nos trouxe o Consolador).

Imaginemos um pai que, vendo seu pequeno filho intentar tocar uma tomada
elétrica, destas comuns mesmo, como esta que alimenta este computador de que
fazes uso, o toma nos braços amorosamente e diz, “Sabes que seu pai o ama, meu
filho? Então, confias no que digo, não toques esta tomada e venha brincar com
teu pai”. Assim fez Jesus, ao dizer, aqui fazendo uso de minhas próprias
palavras, “Ama nosso Pai sobre todas as coisas e a teu próximo como a ti mesmo,
pois que o Pai só quer o teu bem”. Se repararem bem, verão que Jesus não se atém
a explicar as conseqüências do não agir desta forma, bem como o porque de agir
assim. Apenas pede que, se acreditas no amor de Deus para com ti, vivas segundo
aquelas duas simples, porém essenciais, leis. Isto em si, encerra uma liberdade
extrema! Podemos fazer tudo que quisermos, desde que respeitemos apenas estes
dois preceitos.

Então, vai-se Cristo, fica o homem, se bem que um outro ponto de vista também
é válido, a saber, segue o homem, ficando Cristo, abandonado ao relento com seus
valiosos ensinamentos e exemplos incrustados na sua cruz, aquela mesma que
carregou até o Gólgota, que, mesmo depois de tudo o que já sabemos sucedeu,
ainda carrega, pois que o homem definitivamente não é fácil. A partir daí, entra
em cena o que chamo, definição que me ocorre neste exato instante, de
necessidade hipócrita da auto-santificação por negação, parece confuso mas
explico melhor. O homem de posse da autoridade conferida por Deus, que por
dedução, levando em conta fatos anteriores e posteriores, é falsificada, começa
a proibir isto e aquilo outro, baseado em sua própria dificuldade em lidar com
tais situações, isto não revela ele a ninguém, achando que, vejam que irônico,
esconde até de Deus, o que tudo sabe e vê. Daí, basta dar uma conferida em nossa
história de lá para cá, para ver até onde chegou o homem, na manutenção de tão
infeliz postura. Este comportamento conduziu, entre muitas outras infelicidades,
desde a condenação a morte de mulheres que exteriorizaram sua lascívia e
sensualidade (ditas bruxas) até às famigeradas guerras santas, originadas da
intolerância às diferenças culturais.

Eis que, afinal, surge Kardec, apresentando-nos o prometido, por Cristo,
Consolador. Neste momento, introduzo a segunda parte de meu trivial exemplo,
tentando esclarecer tão somente a essência da interferência deste Consolador em
nossas vidas, aqui me refiro, claro, aos que se identificam com esta doutrina,
embora eu prefira vê-la como uma escola filosófica, bem como aos que tenham
curiosidade em conhecê-la.

Alguns anos mais tarde, o pai, percebendo que seu filho ainda insiste em
querer tocar a tomada elétrica, resolve explicar, já que nesta fase seu filho já
tem condições iniciais de compreender, como funciona a tomada elétrica e o que
decorre do ato de se encostar o dedo nela. Diz ele, “Meu filho, uma tomada
elétrica conduz energia, a mesma que faz funcionar a TV, a geladeira, a luz do
seu quarto. Quando entramos em contato com esta energia, ela faz com que
sintamos choques em nossos músculos, que podem doer ou não, e ainda pode causar
queimaduras em nosso corpo, podendo até nos matar. Ao encostar o dedo na tomada,
podemos entrar em contato com esta energia”.

Reparem que o garoto poderia viver sua vida toda sem esta explicação e não se
ferir na tomada elétrica, desde que confiasse em seu pai. Esta explicação não
lhe faria falta alguma. Porém, embora explicando a situação ao seu filho, o pai
em nenhum momento o proíbe de tocar na tomada, bem como não sugere que a toque.
Ele simplesmente deixa a cargo do filho fazer sua própria escolha, neste momento
sabendo claramente, baseado nas informações passadas. Se ele achar que o risco
de se ferir é insignificante ele pode testar, caso contrário, pode simplesmente
seguir sua vida sem nunca tocar uma tomada elétrica, esquecendo até a explicação
do pai. É justamente nesta maneira de ensinar, que identifico o maior grau de
liberdade que se pode oferecer ao ser humano, ao espírito. O Consolador, veio
nos libertar de vez, nos tornando ainda mais conscientes da obra divina, da qual
somos parte, para isto apenas explicando o reflexo que cada ato ou pensamento
nosso, terá. Em nenhum momento de sua mensagem, se encontram proibições, mas tão
somente elucidações.

Enfim, temos a oportunidade de viver plenamente conscientes de nossas vidas
e, então, surge o homem, de novo. Surpreendentemente, podemos encontrar no meio
de pessoas que se dizem Espíritas, novos seguidores da supracitada necessidade
hipócrita da auto-santificação por negação. Vemos centros, instituições e
pessoas que proíbem vestimentas, manifestações artísticas e outras iniciativas
que não são aprovadas por Deus, e neste caso, também pelos guias espirituais.
Desta vez pergunto a você, serão estas desaprovações, um meio de fugir à própria
fraqueza ou, o que no mínimo absurdo é, Deus, se não me engano, puro amor, ser
perfeito, realmente seria capaz de julgar algo profano?! O julgamento é a
exteriorização do que se pensa, nada mais. Mas, claro se figura, prefere o homem
fugir à prova, que sua fraqueza extirpar. Isto nem é tudo, pois que voltarei a
escrever-vos sobre desatinos outros, estes piores, por mais sutis, que
dificultam muito a vida de nossos benfeitores. Kardec, tu que nos trouxe a
filosofia da libertação, em que a baliza fundamental é viver nosso
livre-arbítrio, crescendo sim conforme nossa própria capacidade, descanses e se
recarregue, pois que longa e lenta, embora imprescindível, é a luta que travas.

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