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Preparando o Médium e a Mediunidade

Preparando o Médium e a Mediunidade

Tem-se observado que, embora o Espiritismo esteja conosco há quase cento e
cinqüenta anos, ainda hoje as práticas mediúnicas são bastante atrasadas na
maioria dos centros. Quando falamos desse atraso, não queremos com isso
desmerecer os médiuns que de um modo ou de outro vêm procurando dar o melhor de
si. Porém, se tivermos o cuidado de examinar o conteúdo do que fazemos, vamos
verificar que produzimos bem pouco.

É pequena a quantidade de desobsessões que conseguimos; quase não dispomos de
mensagens que possam ser examinadas racionalmente; trabalhamos com médiuns
improdutivos durante anos e se precisamos de uma comunicação do plano espiritual
no sentido de nos orientar, até pouco tempo só recorríamos a Francisco Cândido
Xavier, na cidade de Uberaba, MG. Não temos confiança nos medianeiros de nossos
centros.

Qual seria o motivo de conseguirmos tão pouco com a mediunidade? Allan
Kardec, o codificador da Doutrina Espírita, demonstrou que se pode conseguir
mensagens instrutivas do plano espiritual com relativa facilidade. Ele
trabalhava com uma equipe séria de médiuns e solucionava 70% das obsessões.
Hoje, quase nada conseguimos e as práticas espíritas, em face da fraqueza nos
serviços de ordem espiritual, tiveram a atenção voltada para a assistência
social.

Existem adeptos que acreditam estar cumprindo com suas obrigações, mesmo não
tendo atividades mediúnicas mais ostensivas. Vemos isso com naturalidade. No
movimento espírita não existem determinações ou imposições de quem quer que
seja. Mas, o mesmo direito que assiste estas pessoas que querem continuar como
estão, assiste outras que desejam melhorar-se.

Nossos estudos têm a finalidade de discutir idéias junto aos que crêem poder
fazer progredir as práticas espíritas. Para isso, acreditamos ser necessário um
diálogo em torno do que é a mediunidade, seu significado, sua utilidade e suas
práticas diárias nos centros espíritas. Se assim procedermos, estaremos revendo
conhecimentos e criando oportunidade para efetuarmos a reforma das atividades,
neste delicado campo da relação com os espíritos.

O que é a mediunidade?

No Brasil é muito comum haver confusão em torno do que seja a mediunidade.
Isto acontece em face de que, entre nós, há um hábito quase comum, de nos
apegarmos a frases feitas, lançadas por espíritos, médiuns ou escritores.
Existem no meio espírita variadas definições a respeito do que seria a
mediunidade. Um dos erros comumente encontrados, é aquele em que ela é tida como
“uma abençoada oportunidade de se fazer caridade”. Com isso, tomou corpo em
torno do movimento, a idéia de que o indivíduo deve trabalhar com sua
mediunidade para ser salvo.

Dizia o Codificador, que a mediunidade é uma faculdade que o homem possui,
por intermédio da qual recebe influência dos espíritos. Afirmava que todos somos
mais ou menos médiuns, porém, que considerava médiuns somente aqueles que fossem
capazes de produzir fenômenos patentes. Vejamos suas próprias palavras, no seu
“Estudo sobre os médiuns”, publicado na Revista Espírita de março de 1859.

“Como intérpretes das comunicações espíritas, os médiuns têm um papel de
extrema importância e nunca seria demasiada a atenção dada ao estudo de todas as
causas que os podem influenciar; e isto não só em seu próprio interesse, como
também no daqueles que, não sendo médiuns, deles se servem como intermediários.
Poderão assim julgar o grau de confiança que merecem as comunicações por eles
recebidas.

Todos, já o dissemos, são mais ou menos médiuns. Mas, convencionou-se dar
este nome aos que apresentam manifestações patentes e, por assim dizer,
facultativas. Ora, entre estes, as aptidões são muito diversas: pode-se dizer
que cada um tem sua especialidade. Ao primeiro exame, duas categorias se
desenham muito nitidamente: os médiuns de efeitos físicos e os médiuns de
efeitos inteligentes”.

Preparando o médium

O primeiro passo para se preparar um médium numa casa espírita é o de
identificá-lo como tal, saber distinguir quem deve ou não praticar a
mediunidade. Para evitar erros além do normal, é preciso deixar de pensar como
pensa todo mundo: que todos são médiuns ostensivos; que praticar mediunidade é
fazer caridade; que as perturbações espirituais são provenientes de mediunidade
a ser desenvolvida e outras idéias comuns. Tudo isso são interpretações pessoais
de criaturas que pouco sabem da Codificação.

Meditando sobre as palavras de Kardec, que foram ditas acima, não é difícil
identificarmos os médiuns. Consideremos médiuns só aqueles em que a faculdade se
manifestar de forma patente, os que sentem facilmente a presença dos espíritos.
Os outros, em quem o nível de influência é muito baixo, ou quase ausente, não
devem ser colocados como médiuns, segundo o real significado da palavra.

Os primeiros, são os médiuns de acordo com a definição do Codificador. Os
últimos, possuem aquilo que se chama mediunidade natural, que não serve de ponte
entre os planos visível e invisível.

As obsessões

Dentre os que sentem de modo ostensivo a presença dos Espíritos, existem
aqueles que estão perturbados pela obsessão. Estes, não devem ser orientados
para o desenvolvimento, mas sim, encaminhados para um tratamento no centro
espírita.

Quando se submete um paciente obsedado ao desenvolvimento da mediunidade,
corre-se o risco de vê-lo mergulhar num estado de profundo desequilíbrio. O
médium enfermo sofrerá maior agressão do obsessor no exercício da mediunidade,
principalmente se sua obsessão apresentar um caráter de gravidade. Por esta
razão, não devemos enviar obsedados para as sessões de desenvolvimento
mediúnico.

O sensato é tratá-los pelo Espiritismo, acompanhados de tratamento médico se
for necessário. Depois, se a sensilidade permanecer aberta a um nível elevado,
essas pessoas poderão ser encaminhadas para a educação da mediunidade, se houver
disposição para isso.

Estudos

Um dos grandes males que hoje afetam a prática do Espiritismo é a falta de
estudos da Doutrina. Se de um lado há centros espíritas que desenvolvem cursos
tão complexos como os de uma escola, dificultando o ingresso dos iniciantes, por
outro, há casas que se abstêm completamente de qualquer esforço neste sentido.
Em resumo: uns estudam demais; outros, de menos.

Perguntado se o exercício da mediunidade pode provocar numa pessoa a invasão
dos maus Espíritos e suas conseqüências, Kardec responde demonstrando a
importância dos estudos:

“Jamais dissimulamos os escolhos (obstáculos) encontradiços na mediunidade,
razão por que multiplicamos, em “O Livro dos Médiuns”, as instruções a tal
respeito e não temos cessado de recomendar o seu estudo prévio, antes de se
entregarem à prática. Assim, desde a publicação daquele livro, o número de
obsediados diminuiu sensível e notoriamente, porque poupa uma experiência que os
noviços muitas vezes só adquirem às próprias custas. Dizemo-lo ainda, sim, sem
experiência a mediunidade tem inconvenientes, dos quais o menor, seria ser
mistificado pelos Espíritos enganadores e levianos. Fazer Espiritismo
experimental sem estudo é fazer manipulações químicas sem saber química”.

O Codificador, já em seu tempo, alertava para o cuidado que se deve ter,
quando se vai submeter uma pessoa ao contato com o mundo invisível. Recomendava
instrução e a assistência de alguém com experiência. Por isso devemos
estabelecer em nossas casas espíritas uma metodologia capaz de iniciar novatos
na prática sadia da mediunidade.

Primeiro, devemos levar em conta se a pessoa tem alguma noção do que é a
Doutrina Espírita. E, se já tem, se não está distorcida, misturada com aquilo
que se chama “Espiritismo popular”. No grupo onde trabalhamos, desenvolvemos um
cursinho rápido, destinado aos iniciantes, onde eles aprendem os princípios
elementares do Espiritismo. É o livro publicado por nós, chamado “Espiritismo
para Iniciantes”. O curso tem uma duração de dois meses, com uma aula semanal.
Estuda a Criação; Deus; a origem da Doutrina Espírita; a Reencarnação; a
Mediunidade; os Fluidos; os Passes e a Obsessão. Serve para dar uma noção básica
aos que ingressam nos quadros de serviços da casa espírita, inclusive aos que
vão lidar com a mediunidade.

As casas podem ministrar orientações já existentes em livros, ou criar seus
próprios métodos.

Depois disso, os neófitos devem ser assistidos por alguém habituado às
relações com o invisível, num estudo em “O Livro dos Médiuns”. Deve-se dedicar
especial atenção aos capítulos que falam dos cuidados que se deve ter com os
desencarnados. Só após este procedimento, deverá se dar início ao preparo da
mediunidade.

Preparando a mediunidade

Uma das fases mais delicadas do preparo do médium é aquela em que o novato
vai exercitar sua mediunidade. A maioria dos que se dedicam ao intercâmbio com
os espíritos possui grande ansiedade para “receber” as manifestações. Mas, as
coisas não são tão simples quanto parecem. O exercício da mediunidade é uma fase
de aperfeiçoamento psíquico, onde o indivíduo se submeterá à disciplina de
muitas faces de sua personalidade, uma espécie de autoconhecimento, um pouco
difícil de ser feito.

Os espíritos inferiores são excitadores das paixões do médium, e acabam por
mostrar-lhes os defeitos de sua personalidade, que deverão ser corrigidos. Não
há serviço mediúnico sem que o equilíbrio pessoal se dê pela ação dos
contrários. O medianeiro chega ao bem pelo conhecimento do mal. Por esta razão,
as mesas de desenvolvimento devem contar com pessoas maduras, dotadas de
experiência capaz de orientar com segurança. Se não for assim, a prática da
mediunidade poderá trazer prejuízos à vida psíquica, coisa que vem sendo muito
comum na atualidade.

Citaremos neste trabalho, os pontos que julgamos serem as bases de um
exercício mediúnico sadio e esperamos que contribuam de algum modo para ajudar
os iniciantes do Espiritismo quanto às relações com os Espíritos.

Animismo

O animismo é a influência que a alma do médium exerce sobre as comunicações.
Nos medianeiros onde a faculdade é mais intuitiva, a fator anímico é bem mais
elevado, chegando, em alguns casos, a tornar o sensitivo improdutivo. O animismo
se apresenta intenso na maioria dos principiantes e vai diminuindo com o
desenvolvimento.

Os encarregados de dirigirem os trabalhos práticos precisam demonstrar que a
presença ostensiva dos pensamentos do médium nas comunicações é uma coisa
natural e, com o tempo, esta influência diminuirá. Os problemas anímicos do
sensitivo, que afloram no transe mediúnico, podem ser orientados como se faz em
qualquer situação de desarmonia. Todos os iniciantes devem ser esclarecidos que
o mais importante fator de transformação e ajuste virá da reflexão evangélica.
Falando do animismo, Kardec disse:

“O médium, tendo consciência do que escreve (ou fala), é naturalmente levado
a duvidar de sua faculdade: não sabe se a escrita (ou mensagem) é dele mesmo ou
de outro Espírito. Mas ele não deve absolutamente inquietar-se com isso e deve
prosseguir apesar da dúvida. Observando com cuidado a si mesmo, facilmente
reconhecerá nos escritos (ou nas palavras) muitas coisas que não lhe pertencem,
que são mesmo contrárias aos seus pensamentos, prova evidente de que não
procedem de sua mente.

Que continue, pois, e a dúvida se dissipará com a experiência”. – Allan
Kardec (O Livro dos Médiuns, item 214).

Os Espíritos inferiores

Em “O Livro dos Médiuns”, o Codificador afirma que o maior obstáculo às
práticas espíritas é a obsessão, o domínio que alguns Espíritos inferiores podem
adquirir sobre certas pessoas. Nenhum médium está livre desta influência
perniciosa, principalmente quando inicia seu mandato mediúnico. Nesta fase, suas
imperfeições morais mais grosseiras são verdadeiros atrativos para as entidades
atrasadas e, por esta razão, deve-se estar alerta com a conduta da equipe que
trabalha no intercâmbio.

O medianeiro deve cuidar-se com uma disciplina o mais sadia possível, para
que não seja vítima dos seres malévolos do mundo invisível. Toda alteração
emocional ou psíquica considerada estranha e persistente deve ser comunicada ao
orientador da mesa. Se houver suspeita de obsessão, o principiante deve ser
afastado dos trabalhos mediúnicos, submetido a um tratamento e depois
reconduzido às atividades.

Quando se detectar pessoas impressionáveis, de raciocínio confuso,
sistemático ou excêntrico, elas devem ser afastadas definitivamente dos
trabalhos práticos, conforme recomenda o Codificador.

Aos novatos:

“A dificuldade encontrada pela maioria dos médiuns iniciantes é a de ter que
tratar com os Espíritos inferiores, e eles devem se considerar felizes quando se
trata de Espíritos apenas levianos”. ( – Allan Kardec – O Livro dos Médiuns,
item 211).

Aos mais velhos:

“Suponhamos agora a faculdade mediúnica completamente desenvolvida. Que o
médium escreva com facilidade, que seja o que se chama um médium feito. Seria um
grande erro de sua parte considerar-se dispensado de novas instruções. Ele só
teria vencido uma resistência material, e é então que começam as verdadeiras
dificuldades. Mais do que nunca necessitará dos conselhos da prudência e da
experiência, se não quiser cair nas mil armadilhas que lhe serão preparadas. Se
quiser voar muito cedo com suas próprias asas, não tardará a ser enganado por
Espíritos mentirosos, que procurarão explorar-lhe a presunção”. ( – Allan Kardec
– O Livro dos Médiuns, item 216).

A vida moral

As faculdades mediúnicas estão ligadas a uma disposição orgânica. O mesmo já
não se dá quanto ao seu uso, que depende da condição moral do médium. Se tudo
depende da moral, nossos grupos necessitam tê-la em alta conta, como uma espécie
de farol orientador. Muitas decepções advindas da prática mediúnica são frutos
da má orientação dadas aos iniciantes pelos que administram as mesas de
desenvolvimento.

Na atualidade, há uma complascência excessiva em torno dos vícios das
pessoas. Médiuns, passistas e membros dos grupos alimentam vícios grosseiros
como o fumo, a bebida alcoólica e, nos casos mais graves, o adultério, a
desonestidade, a sensualidade exagerada e o orgulho.

Se estamos dispostos a reformar as práticas do centro espírita que
participamos, temos que cuidar dos aspectos morais dos componentes da casa. São
eles que sustentam as atividades em todos os sentidos, mormente as mediúnicas.

Recomendamos o estudo regular nas sessões, e fora delas, de “O Evangelho
Segundo o Espiritismo”. Com isso, se conseguirá elementos morais destinados à
auto-reflexão.

Leitura excessiva

O trabalhador espírita estuda sempre. Lê livros teóricos e práticos para o
seu enriquecimento doutrinário. Mas, deve evitar a poluição mental por obras
espíritas. Há médiuns que não conseguem trabalhar em face de sobrecarregarem
suas mentes com leituras.

Assistência material

Não se pode conceber a atividade mediúnica sem o trabalho material. O serviço
na seara dos sofredores auxilia o médium a compreender a dor e lhe dá suporte
para os embates próprios do mediunato. Todo médium deve ter atividades de
assistência material regularmente.

É importante considerarmos a prática da mediunidade como um trabalho que não
dispensa o serviço do médium na assistência material. Por acharem que a
mediunidade é caridade, apareceu um grande contingente de médiuns que só vão ao
centro “receber” espíritos e crêem já estar com seus compromissos cumpridos.

Disciplina

Por fim, a disciplina. Dominar-se é uma das coisas mais difíceis de se fazer.
No entanto, aqueles que vão lidar com os espíritos precisam ter um certo domínio
sobre si. Se não levarem em conta este fator, o melhor é afastar-se do
ministério. Deixar o cigarro, a bebida, a freqüência em ambientes mundanos,
melhorar a vida familiar, profissional, adquirir uma conduta regular frente à
prece, tudo isso é disciplinar-se. Conhecer a si mesmo e trabalhar as próprias
imperfeições é o caminho para uma prática mediúnica sadia.

“Antes de nos dirigirmos aos Espíritos, convém, pois, encouraçarmo-nos contra
o assalto dos maus, assim como se marchássemos em terreno onde tememos picadas
de cobras. Isto se consegue, inicialmente, pelo estudo prévio, que indica a rota
e as precauções a tomar; a seguir, a prece. Mas é necessário bem nos
compenetrarmos da verdade que o único preservativo está em nós, na própria
força, e nunca nas coisas exteriores; que nem há talismãs, nem amuletos, nem
palavras sacramentais, nem fórmulas sagradas ou profanas que tenham a menor
eficácia se não tivermos em nós mesmos as qualidades necessárias. Assim, essas
qualidades é que devem ser adquiridas” Allan Kardec (Revista Espírita, número de
janeiro de 1863, no Estudo sobre os possessos de Morzine).

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