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Uma Escola de Outro Planeta

Este trecho pertence ao livro O REINO DE TAUS, ainda inédito, que deve sair
neste ano. Trata-se da história de um jornalista brasileiro, Celso Panetti, que
vai a um planeta chamado Taus, numa missão secreta. Lá descobre ele uma
sociedade mais evoluída, apaixona-se por Lessa, uma tausiana, e vive situações
curiosíssimas. E também, é claro, visita uma escola muito diferente:

Celso pretendia partir o quanto antes. Por isso, apressou-se a visitar tudo o
que ainda não tinha visto em Taus. Achava que nada mais poderia impressioná-lo,
mas enganou-se. Até o último instante, os tausianos o surpreendiam. Há muito,
Meon o havia convidado para conhecer uma escola. Lessa não podia deixar de
acompanhá-lo; adorava crianças.

Como tudo em Taus, a escola não tinha portões ou grades. Era um edifício no
meio de bosques, canteiros e hortas. Alguns animais tausianos – mansos e
simpáticos – compunham também a paisagem bucólica. Logo apareceram algumas
dezenas de crianças de todas as idades, correndo ao seu encontro. Não eram
diferentes das crianças da Terra. Vinham coradas, risonhas, gritando. Pararam,
ofegantes. Celso sentiu mil olhos espetados nele.

– É você o homem do planeta azul? Perguntou um garotinho, puxando a roupa de
Celso.

– Sou eu mesmo.

– Mas você não é azul! Disse, desapontada a menorzinha da turma.

Foi uma gargalhada geral. Celso já estava encantado. Lessa pegou a menina no
colo e deu-lhe muitos beijos de consolação.

– Você pode nos contar como são as coisas na Terra? Nos temos filmes, livros
.. mas nunca é como falar com alguém que é de lá.

Era um rapazinho de seus doze anos que dizia isso, com ares de jornalista.

– Respondo qualquer pergunta que vocês fizerem, mas também quero ver
direitinho como é essa escola.

Várias vozes se levantaram, excitadas, se oferecendo para guiá-lo.

– Espero não estar atrapalhando as aulas, Meon!

– Você é a aula de hoje, Celso!

– Vai apresentar as crianças um exemplar vivo da espécie primitiva da Terra?

– Os terráqueos não são primitivos – protestou uma menina adolescente. Falta
só um pouco para serem como nos!

– Você acha?

A menina fez que sim com um gesto, enquanto um colega concordava:

– Justamente estávamos discutindo isto ontem! Quem sabe se você não poderia
contar às crianças da Terra sobre o tipo de mundo que temos em Taus. Duvido que
elas não queiram fazer uma coisa parecida no planeta azul!

– As crianças da Terra são alegres e felizes? Perguntou um menino pequeno.

– São alegres como vocês. Mas se são felizes, não sei. A maioria nunca viu um
jardim como este, nem sabe como as sementes viram árvores. Milhões não comem e
são mais magrinhas do que uma planta seca. Tenho certeza de que todas elas
gostariam de Taus.

Celso se emocionara. Lembrava-se dos pivetes nos faróis de São Paulo e dos
trombadinhas da Praça da Se. As crianças estava surpresas. Havia compaixão e
interesse em todos os rostos. Com um olhar, Celso perguntou Meon se podia ir
mais longe.

– Aqui, nada e oculto das novas gerações – respondeu ele.

Celso não escondeu a tristeza:

Na Terra, existem muitas e muitas crianças que não tem casa, não vão à escola
e vivem assim, vagando pelas ruas, as vezes com frio e sempre com fome. A cidade
onde eu nasci é uma das maiores do mundo. E lá as crianças passam na frente dos
carros e pedem ajuda. Na Terra, as pessoas tem carros só para elas. As vezes,
ate três ou quatro por família. Acontece também dessas crianças pobres roubarem
alguma coisa das pessoas que comem bem, tem carros e moram em casas riquíssimas.
Com dinheiro… vocês sabem o que é dinheiro?

– Eu sei – disse um menino que estivera calado. Li numa enciclopédia de
Historia que dinheiro é um valor de troca, que serve para adquirir coisas.

– Muito bem! Sorriu Celso. Pois, com o dinheiro que essas crianças roubam,
geralmente elas compram coisas que as crianças ricas tem ou dão ajuda aos pais,
que também passam fome.

– Então roubar é normal na Terra?

– E bem normal, apesar de ser contra a Lei. Mas essas crianças são
castigadas. Ficam presas em prédios e casarões, centenas delas, amontoadas. Há
quem diga que elas são maltratadas, até com torturas.

Celso viu choque e emoção em todas as fisionomias. A pequenina, que ficara
decepcionada com sua cor, estivera ouvindo atentamente. Por fim, falou:

– E as pessoas que roubam a escola e a comida das crianças também ganham
castigo?

Celso murmurou um não, com os olhos baixos. Houve exclamações de espanto e
revolta. Transformaram-se todos os rostos, há poucos minutos tão sorridentes. A
adolescente, que começara o assunto, estava vermelha. Disse, muito enérgica:

– Acho que eu estava errada! Vocês estão a milênios longe de nós!

Celso também estava surpreso com a reação das crianças. Achegou-se a Meon e
cochichou:

– E incrível como criaturas que nunca sofreram, nem sequer viram uma única
insatisfação tenham tanta sensibilidade… Elas estão realmente indignadas. – –

– Não esperamos aqui que a injustiça desperte a sensibilidade, desenvolvendo
desde cedo a sensibilidade que impedirá a injustiça.

Enquanto falava com Meon, Celso notou que as crianças combinaram alguma coisa
entre si e logo voltaram à alegria anterior. Alguém sugeriu passarem a visita e
Celso, curiosíssimo, acompanhou o grupo. Havia alguns professores esperando por
eles num caramanchão florido. Giza, Tion, Val e Zuzu se apresentaram
sorridentes. O grupo passou por hortas e pequenos jardins com deliciosos bancos,
para depois entrar no edifício central da escola. Ai, Celso viu, deslumbrado,
laboratórios, computadores, salas de música, biblioteca, teatro, salas de
artesanato e pintura. Todas as dependências espaçosas, de cores aras . As
janelas dando sempre para os jardins. Em toda a parte havia trabalhos começados,
livros espalhados. Fora tudo abandonado, para receber o homem do planeta azul.

Saíram do edifício e Celso estava espantado:

– Vocês não me mostraram o principal. Onde estão as salas de aula?

Um ar de interrogação, pairou em todos os olhares.

– O que você entende por salas de aula?

Ora, é onde os alunos assistem à aula. Na Terra, são salas com cadeiras,
carteiras e uma lousa. Em frente dos alunos sentados, os professores expõem as
lições. As outras salas – de arte, biblioteca, laboratório etc. são
complementares. E a maioria das escolas não as possui.

Um garoto muito sério, que ainda não dissera uma palavra, retrucou:

– Pelo visto, vocês não gostam mesmo de crianças no planeta azul. Que coisa
mais horrível deve ser ficar sentado, ouvindo alguém falar…

– Aqui nos não fazemos esse tipo de tortura – sorriu Giza, uma professora
ainda muito jovem. Já li sobre os sistema de ensino na Terra e não creio que
produza bons resultados Em Taus, as escolas são livres. Não há atividades fixas,
predeterminadas. Há o que os professores sugerem de acordo com o momento e de
acordo com o temperamento dos alunos e há o que as crianças querem fazer. Elas
tem acesso a todo tipo de conhecimento e atividade. Escolhem aquilo por que
sentem atração. Só não podem ficar o tempo todo ociosas. Se um grupo, por
exemplo, se interessa por estudar as estrelas, estudamos as estrelas em
conjunto, ate esgotar o assunto. Outros alunos podem estar curiosos a respeito
de Historia, então o professor se dedica com eles, durante um certo tempo, a
essa matéria. E todos os métodos são válidos: pesquisas, debates, encenações,
música. Vamos inclusive inventando novas maneiras de estudar. Exposição pura e
simples, nunca. É entediante e autoritário!

Celso estava admiradíssimo.

– Mas essa liberdade não leva a grandes falhas na cultura geral?

– De jeito nenhum – interveio Tion. Em vários anos de escola, o aluno tem
tempo e recebe estimulo para se interessar por todas as áreas do conhecimento.

– Alem do mais – disse Meon – não importa o quanto de informação a escola
transmite. E sim ate que ponto ela desenvolve a capacidade de aprender,
pesquisar e criar… Se estudamos a matemática, não é para que o aluno decore
formulas, mas para que saiba pensar sozinho por esse tipo de raciocínio.

As crianças entraram na conversa, com entusiasmo. Um grupo de adolescentes
contou dos debates de Filosofia, que estavam promovendo no caramanchão florido,
com Giza, Val e Meon. Outros disseram da peça de teatro antigo que estavam
encenando. Até a menorzinha falou das flores que plantara com Zuzu, no jardim
central. Todos pareciam contentíssimos com a escola, como se ela fosse – e era –
uma iniciativa dos mesmos. A tarde já envolvia Taus, quando Celso pensou em ir
embora. O dia fora esplêndido. As crianças eram adoráveis. Mas na hora da
despedida, uma delas lembrou:

– Faltou uma coisa para você ver, Celso… A casa da prece.

Todos concordaram. Atravessaram vários jardins e chegaram a uma casinha de
uma sala só. Entraram em silêncio. Não havia nada lá dentro. Apenas algumas
almofadas e uma música suave. Mas Celso sentiu-se bem. Como se tivesse chegado a
um recanto diferente. Meon explica:

– Essa casa é um retiro para quem quiser meditar e orar. Permanece sempre
assim, impregnada de paz.

A despedida foi entre abraços e beijos e Celso saiu carregado de flores e
frutas, dadas pelas crianças. Ao dobrar a esquina, disse a Lessa:

– Fiquei muito impressionado com tudo. Mas essa casa de prece me chamou
atenção É a primeira coisa relacionada com Religião, que vejo, desde que aqui
cheguei.

Celso já se adaptara tanto a Taus, que se desacostumara a ver o sorriso
benevolente dos tausinos. Mas foi exatamente o que Lessa exibiu ao ouvi-lo. Ele
percebeu que algo lhe escapara.

– Celso, Celso, tudo em Taus e Religião… Não Religião no sentido primitivo
que vocês entendem na Terra, mas Religião na sua essência.

– O que ?!

– A fraternidade é nossa Religião. E não precisamos falar em Deus ou
construir templos, porque vivemos Deus a cada instante!

Celso calou-se, emocionado. As palavras de Lessa lhe rasgaram um clarão.
Alguma coisa doce e oculta veio-lhe a superfície da alma e foi obrigado a
enxugar uma lagrima.

Fonte: Jornal Espírita – julho 1998

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