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500 Anos de Brasil

500 Anos de Brasil

Agora que já se assentou a poeira dos festejos dos 500
anos da descoberta do Brasil, posso redigir este artiguete, não para polemizar,
mas a fim de que a fé raciocinada seja posta em funcionamento pelos diletos
companheiros de ideal comum.

Quem quer que conheça meio palmo de nossa verdadeira história sabe que são
500 anos de exploração, de espoliação: primeiro por parte dos portugueses que,
em nome da fé católica (que nada tem a ver com o autêntico Cristianismo de
Jesus), exterminaram os silvícolas e escravizaram os negros africanos. Quando
Tiradentes contra isto se insurgiu, eis que merece a forca. Quem diz a verdade –
merece castigo. Não sei que destino terei, depois de este artigo sair publicado
em jornal.

Pois bem, a exploração prosseguiu por parte da Grã-Bretanha que, se antes nos
empurrou para a guerra imperialista contra uma nação que estava se destacando no
seio da América Platina (e isto incomodava os ingleses); se antes a Grã-Bretanha
nos empurrou para a Guerra do Paraguai, na qual morreram os mais pobres, agora
esta mesma Grã- Bretanha obriga a Princesa Isabel a libertar os negros, aos
quais não foi até hoje oferecida uma forma de se incorporarem na distribuição de
oportunidades e de renda como convém a um país que se diz democrático e cristão.

Por fim, o que vemos é a exploração dos nossos recursos humanos e naturais
pelo Fundo Monetário Internacional com aquiescência das autoridades eleitas pelo
povo por influência da mídia, raramente expondo o que se passa realmente por
detrás dos bastidores. A mídia aliena o público com o futebol e as telenovelas.

Não sou formado em História. Licenciei-me em Biologia. Mas leio autores que
esclarecem o que tem sido a História de meu pobre país rico!

E para fazer-me mais aturdido notei que se deu uma ênfase exagerada ao livro
do Espírito Humberto de Campos, escrito pelo incansável Chico Xavier, na
profecia de que o Brasil seria o Coração do Mundo, a Pátria do Evangelho. Ora,
convenhamos. Mais do que ninguém nos arraiais espíritas admiro o poeta, o
cronista, o articulista do Maranhão. Graças aos seus esforços
extraordinariamente hercúleos e aos exemplos de sua mãezinha, ele se impôs por
seu valor. Posso assim me pronunciar porque li os seus livros como Humberto de
Campos e como Conselheiro XX. Li, mais tarde, seus escritos como Irmão X. Com
ele (e com Rubem Braga) aprendi a difícil arte de redigir crônicas em estilo
suave sem ser piegas.

Entretanto, o livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, é, a meu
ver, a obra menos indicada para ser tão baladamente indicada pelos espíritas nas
comemorações dos 500 anos de Brasil! A começar pela alusão que Humberto faz a
Roustaing. A começar por aí. Trata-se de uma punhalada cruel contra Kardec!

Além disto, neste livro, nas páginas iniciais, Jesus não conhece Geografia;
pergunta a Hilel onde é que está o nosso Brasil, como se Jesus não fosse aquele
Espírito que modelou a Terra desde os seus primórdios. Mais ainda: então o clima
torna melancólico com algumas expressões de Jesus e cabe mais uma vez a Hilel a
tarefa de desanuviar o ambiente. Não estou inventando nada. Os leitores que
leiam com atenção a obra e, na hora de seus sofrimentos (porque pelo menos eu os
tenho em razão de meus erros passados), orem a Hilel e não a Jesus.

Como esperantista, até que poderia ficar alegre porque, segundo consta, Hilel
iria reencarnar na Polônia, como Zamenhof. Todavia, procuro diferenciar a emoção
da razão. E é por isso que leio livros não-espíritas a fim de ter uma visão mais
clara das coisas. Não me limito a confiar apenas em páginas mediúnicas, não!

E obediente à recomendação de Erasto, contida em O Livro dos Médiuns, prefiro
rejeitar dez verdades a admitir uma mentira só!

O espírita deve ler de tudo com senso crítico, com discernimento. Jamais
colocar-se diante do fato mediúnico numa postura mística, devocional. Deolindo
Amorim sempre recomendou isto. Está lá no livrinho que escrevi com ele, de
título Ponto de Encontro, editado pela Ed. Mensagem de Esperança; e que não teve
ampla penetração por não ser um romance, uma novela. Ali analisamos com coragem
alguns descaminhos em que se enveredou certo segmento do nosso meio!

Para completar, Humberto encarnado era simpatizante do fascismo. Basta que se
leia com atenção o seu Diário Secreto, publicado em 1955 pela revista O
Cruzeiro. E leremos o que ele anotou no dia 9 de outubro de 1930. Pois bem,
desencarnado, em Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, defende o regime
de exceção conhecido como Estado Novo, durante o qual Getúlio Vargas tortura e
massacra muitos brasileiros. Lamentavelmente não posso passar uma borracha na
História, gente!

Entendo que um livro deste conteúdo não fornece boa recomendação do
Espiritismo. Ao contrário, uma pessoa que conheça, repito, meio palmo de nossa
verdadeira História, em o lendo, acaba simplesmente não querendo saber mais nada
acerca do Espiritismo, considerando- nos, a nós os espíritas, um bando de
fanáticos que vivem no mundo da Lua. Como reconheceu Grieco, Humberto sempre foi
poeta!

Finalizo pedindo que se ponha a funcionar a razão, como tanto preconizava e
exemplificava Allan Kardec. Admiro, repito, o esforço hercúleo de Humberto cujos
sofrimentos atrozes nos últimos anos de vida comoveram toda a nação. Admiro
também a sua verve de escritor. Nada obstante, não posso omitir alguns aspectos
menos primorosos de seu livro mediúnico, cuja leitura crítica sem dúvida levará
à descrença da Doutrina Espírita, a começar – insisto – com as referências
amáveis ao trabalho de Roustaing. Foi assim que se transformou o Cristianismo em
Catolicismo no fim da Idade Antiga e durante a Idade Medieval.

Não quero mesmo destino para nossa Doutrina. Foi um filme a que assisti e do
qual, sinceramente, não gostei.

(Publicado no Correio Fraterno do ABC Nº 357 de Outubro de 2000)