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A Página de Rosto da Segunda Edição de O Livro dos Espíritos

A Página de Rosto da Segunda Edição de O Livro dos Espíritos

Silvio Seno Chibeni

Página de rosto, ou folha de rosto, é a página inicial de um livro, onde devem aparecer as informações básicas sobre a obra: o título e subtítulo, nome completo do autor, tradutor (se houver), edição, local de publicação, editora e ano de publicação. As convenções acadêmicas atuais estabelecem também que no verso dessa página sejam registradas informações mais detalhadas, como a data da primeira edição, o título original, o copyright e o ISBN (International Standard Book Number), além de dados para indexação e catalogação bibliográfica.

Atualmente, há muito pouca preocupação no meio espírita com essas normas, sendo freqüente que nas obras espíritas não se forneçam vários desses dados importantes, dificultando trabalhos de pesquisa mais refinados. Allan Kardec, porém, sempre cuidou com bastante zelo do aspecto formal de seus livros. Além de conterem todas as informações bibliográficas básicas, suas páginas de rosto apresentavam um aspecto gráfico sóbrio e claro. Vale a pena, pois, reproduzirmos abaixo (mantendo, aproximadamente, os tipos e espaçamentos do original) a página de rosto da 2a edição de O Livro dos Espíritos, de 1860, edição esta que estamos comentando nesta série de artigos (ver resenha em Mundo Espírita, … de …).

PHILOSOPHIE SPIRITUALISTE

––––––––

LE LIVRE

DES ESPRITS

CONTENANT

LES PRINCIPES DE LA DOCTRINE SPIRITE

SUR L’IMMORTALITÉ DE L’ÂME, LA NATURE DES ESPRITS ET LEUR RAPPORTS
AVEC LES HOMMES; LES LOIS MORALES, LA VIE PRÉSENTE, LA VIE
FUTURE ET L’AVENIR DE L’HUMANITÉ

Selon  l’enseignement  donné  par  les  Esprits  supérieurs
à  1’aide  de  divers  médiums

RECUEILLIS  ET  MIS  EN  ORDRE

PAR  ALLAN  KARDEC

––––––––

SECONDE EDITION

Entièrement refondue et considérablement augmentée

PARIS

DIDIER ET Cie, LIBRAIRES-ÉDITEURS

35, QUAI DES AUGUSTINS

LEDOYEN, Libraire, Galérie d’Orléans, 31

AU  PALAIS-ROYAL

1860

Réserve de tous droits.

Faremos agora a alguns comentários acerca do conteúdo dessa página, indicando todas as alterações com relação à página de rosto da 1a edição, de 1857.

1. Filosofia espiritualista. Essa frase não constava da 1a edição. No primeiro parágrafo da Introdução de ambas as edições, no entanto, Kardec forneceu esclarecimentos preliminares básicos sobre a natureza da disciplina que o livro estava inaugurando: o Espiritismo. O termo ‘Espiritismo’ é um neologismo criado por Kardec exatamente para distinguir a nova disciplina da doutrina geral do espiritualismo, cujas origens remontam a épocas imemoriais. O Espiritismo é uma forma especial e bem delimitada de espiritualismo. A frase inicial da página de rosto indica, num par de palavras, que a obra insere-se no escopo do espiritualismo.

A palavra filosofia, por outro lado, indica a metodologia da nova disciplina. Contrariamente ao que se entende popularmente por esse termo, e mesmo contrariamente a um sentido mais especializado que assumiu contemporaneamente no meio acadêmico, por filosofia entendia-se, à época, qualquer disciplina que abordasse de forma sistemática e racional uma área do saber. Esse significado remonta à Antigüidade. Para os Gregos, que conceberam tal enfoque racional e criaram o termo, filosofia era o amor do conhecimento, em suas múltiplas áreas. O que hoje chamamos ciência era, por exemplo, parte da filosofia. No tempo de Kardec esse sentido original da palavra ainda prevalecia, e foi geralmente empregado por Kardec em suas obras. Assim, ao dizer que o Espiritismo era uma filosofia, não estava excluindo seu caráter científico, muito pelo contrário. Além disso, como a ética ou moral é uma das áreas da filosofia – e isso até hoje –, aquela designação também não excluía o aspecto moral do Espiritismo.

2. Quanto ao título do livro, procura refletir o fato de terem sido os Espíritos a fonte de onde se originou o Espiritismo, primeiro pela produção de fenômenos que mostraram a existência deles, e depois pelas informações detalhadas que forneceram sobre sua natureza. Elaboradas por Kardec, tais informações vieram a constituir o corpo de princípios básicos da filosofia espírita. Sendo o livro, como se afirma nos Prolegômenos, o “repositório” do ensino dos Espíritos, a denominação de O Livro dos Espíritos era inteiramente apropriada, mesmo que ele não tenha sido fornecido pronto pelos Espíritos.

3. A afirmação de que o livro “contém os princípios da doutrina espírita” é igualmente justa. Embora não tenha, nem pretenda ter, um caráter final, fechado, dada a progressividade do novo ramo do saber, o livro certamente contém os seus “princípios”, ou seja, os fundamentos teóricos sobre os quais deve assentar todo o desenvolvimento ulterior da disciplina. O reconhecimento da existência desses princípios, e o seu emprego efetivo nas pesquisas ulteriores é de suma importância, segundo as análises filosóficas contemporâneas. É exatamente o que ocorre com as ciências acadêmicas maduras. (Veja-se, a respeito, nossos artigos “A excelência metodológica do Espiritismo” e “O paradigma espírita”, cujas referências bibliográficas são fornecidas no final.)

4. Vem, em seguida, a indicação sumária dos tópicos acerca dos quais versam esses princípios: “a imortalidade da alma, a natureza dos Espíritos e suas relações com os homens, as leis morais, a vida presente, a vida futura e o porvir da humanidade”. Essa enumeração é bastante fiel ao que de fato existe na obra. É interessante observar que o primeiro item da lista, a imortalidade da alma, foi introduzido na 2a edição. Não se trata, na verdade, da indicação de uma expansão do escopo da obra, mas simplesmente da explicitação do segundo item. O esclarecimento espírita da natureza dos Espíritos evidencia que são nada mais nada menos do que as almas dos homens, e que estas são imortais. Kardec certamente julgou conveniente explicitar isso já na página inicial do livro.

5. “Segundo o ensino dado pelos Espíritos superiores, com o auxílio de diversos médiuns, recolhidos e organizados por Allan Kardec”. Essa frase indica sucintamente a fonte da doutrina espírita (os Espíritos, no sentido explicado no item 2, acima), o modo específico da obtenção das informações deles provenientes (as comunicações mediúnicas), e o papel que coube a Kardec. Fica, assim, claro o caráter geral da obra. Aparentemente, Kardec estimou que havia lugar para alguma confusão na frase equivalente da 1a edição, que era: “Escrito sob o ditado e publicado por ordem de espíritos superiores”. A compreensão correta pressupõe certa familiaridade com a área, e isso naturalmente não podia ser assumido. A expressão “escrito sob o ditado” poderia dar a impressão de que a obra foi dada pronta – o que está muito longe da realidade. Vale a pena transcrever, acerca desse ponto, o item 13 do capítulo 1 de A Gênese, capítulo em que Kardec faz uma lúcida análise do caráter do Espiritismo:

Por sua natureza, a revelação espírita tem duplo caráter: participa ao mesmo tempo da revelação divina e da revelação científica. Participa da primeira, porque foi providencial o seu aparecimento e não o resultado da iniciativa, nem de um desígnio premeditado do homem; porque os pontos fundamentais da doutrina provêm do ensino que deram os Espíritos encarregados por Deus de esclarecer os homens acerca de coisas que eles ignoravam, que não podiam aprender por si mesmos e que lhes importa conhecer, hoje que estão aptos a compreendê-las. Participa da segunda, por não ser esse ensino privilégio de indivíduo algum, mas ministrado a todos do mesmo modo; por não serem os que o transmitem e os que o recebem seres passivos, dispensados do trabalho da observação e da pesquisa, por não renunciarem ao raciocínio e ao livre-arbítrio; porque não lhes é interdito exame, mas, ao contrário, recomendado; enfim, porque a doutrina não foi ditada completa, nem imposta à crença cega; porque é deduzida, pelo trabalho do homem, a observação dos fatos que os Espíritos lhe põem sob os olhos e das instruções que lhe dão, instruções que ele estuda, comenta, compara, a fim de tirar ele próprio as ilações e aplicações. Numa palavra, o que caracteriza a revelação espírita é o ser divina a sua origem e da iniciativa dos Espíritos, sendo a sua elaboração fruto do trabalho do homem.

Por outro lado, a expressão “e publicado por ordem de espíritos superiores” poderia sugerir uma relação de comando entre os Espíritos e Kardec, e talvez a subserviência deste – o que também de modo algum corresponde à realidade. No texto introdutório da segunda parte das Obras Póstumas Kardec salienta:

Um dos primeiros resultados que colhi das minhas observações foi que os Espíritos, nada mais sendo do que as almas dos homens, não possuíam nem a plena sabedoria, nem a ciência integral; que o saber de que dispunham se circunscrevia ao grau, que haviam alcançado, de adiantamento, e que a opinião deles só tinha o valor de uma opinião pessoal. Reconhecida desde o princípio, esta verdade me preservou do grave escolho de crer na infalibilidade dos Espíritos e me impediu de formular teorias prematuras, tendo por base o que fora dito por um ou alguns deles.

(…) Vi logo que cada Espírito, em virtude da sua posição pessoal e de seus conhecimentos, me desvendava uma face daquele mundo, do mesmo modo que se chega a conhecer o estado de um país, interrogando habitantes seus de todas as classes, não podendo um só, individualmente, informar-nos de tudo. Compete ao observador formar o conjunto, por meio dos documentos colhidos de diferentes lados, colecionados, coordenados e comparados uns com outros. Conduzi-me, pois, com os Espíritos, como houvera feito com homens. Para mim, eles foram, do menor ao maior, meios de me informar e nãoreveladores predestinados.

Tais as disposições com que empreendi meus estudos e neles prossegui sempre. Observar, comparar e julgar, essa a regra que constantemente segui.

A frase “escrito por ordem e sob ditado de Espíritos superiores” aparece nos Prolegômenos, em ambas as edições, mas ao encontrá-la o leitor já terá passado pela Introdução, e disporá de esclarecimentos mais extensos nos parágrafos adjacentes. Para figurar na folha de rosto a nova frase da 2a edição é mais apropriada, por ser mais precisa e menos propensa a confusões.

6. Em seguida, a página de rosto informa que se trata de uma “segunda edição, inteiramente refeita e consideravelmente aumentada”. Esse dado é importante. Primeiro, por prevenir o leitor de que é uma obra revista; depois, por indicar o dinamismo do projeto kardequiano: a busca constante de aperfeiçoamento.

7.Por fim, temos os dados da edição: o local de publicação, os editores, a data e a reserva de direitos. Quanto aos editores, houve uma mudança com relação à primeira edição. Aquela fora publicada por E. Dentu, libraire, Palais Royal, Galérie d’Orléans, 13. Dentu havia, por sinal, sido o editor de pelo menos uma das obras pedagógicas de Kardec, ou melhor, Rivail: o Plan Proposé pour l’Amélioration de l’Éducation Publique, de 1828 (ver fac-símile da página de rosto em Textos Pedagógicos, obra editada por D. Incontri, que traz a tradução desse Plano e de mais um texto de Rivail). Dentu ainda aparece como co-editor da Instruction Practique sur les Manifestations Spirites, de 1858, do Imitation de l’Évangile selon le Spiritisme, de 1864, e do Évangile selon le Spiritisme, de 1866. Didier e Ledoyen foram editores ou co-editores de quase todos os livros espíritas de Kardec, geralmente de forma conjunta, como no presente caso. Pierre-Paul Didier foi um dos mais dedicados colaboradores de Kardec, membro fundador da Société Parisienne des Études Spirites, tendo nela atuado como médium (ver Allan Kardec, de Z. Wantuil e F. Thiesen, vol. III, pp. 82, 377, 79 e 323); desencarnou em 2/12/1865, mas continuou, como Espírito, diretamente envolvido nas atividades de Kardec (ibid., pp. 85, 92, 289).

8. Na página que faz face à folha de rosto há ainda alguns dados interessantes:

a) Há, no início, uma lista das “Obras do mesmo autor”: Qu’est-ce que le Spiritisme? (1859), Instruction Practique sur les Manifestations Spirites (1858) e a Revue Spirite (lançada em 1858). Ao título das duas primeiras obras seguem os dizeres das respectivas páginas de rosto, o formato e o preço. No caso da Revue, indica-se o subtítulo, “Revista de estudos psicológicos”, e a existência no final do livro de um “prospecto detalhado” sobre o periódico. Possivelmente tratava-se de um folheto avulso, que não foi reproduzido na edição histórica que estamos analisando nesta série de artigos.

b) Vem, depois, o anúncio de uma obra “no prelo, a sair em abril de 1860”, cujo título seria Le Spiritisme Expérimental (O Espiritismo Experimental). Os detalhes que seguem a esse título são, com pequenas diferenças, os mesmos que figuram na página de rosto de O Livro dos Médiuns, inclusive a frase “para dar seqüência ao Livro dos Espíritos”. É, pois, seguro assumir que se tratava realmente do Livro dos Médiuns, e que Kardec mudou o título na última hora! Note-se, a propósito, que a frase Espiritismo experimental aparece no topo da página de rosto do Livro dos Médiuns, apropriadamente indicando a natureza da obra. Segundo informação dada na edição corrente da tradução do Livro dos Médiuns editada pela FEB, o livro saiu em Paris em 15/1/1861, o que mostra a ocorrência de um atraso, relativamente às expectativas de Kardec por ocasião da redação do anúncio. (No próximo artigo desta série veremos que Kardec repete essencialmente o mesmo anúncio no Prefácio.)

c) Por fim, há uma nota dizendo que “as pessoas que queiram se comunicar com o autor do Livro dos Espíritos, e que não saibam o seu endereço, podem lhe enviar suas cartas … por intermédio do Sr. Ledoyen, livreiro, depositário de todas as suas obras …”. Com o crescimento do projeto espírita, Kardec deve ter julgado conveniente desvincular o seu endereço pessoal daquele dos editores dos livros.Aparentemente, porém, a tentativa não foi muito longe: assim como anteriormente com a Instruction Practique, nas páginas de rosto do Imitation e do Évangile o endereço de Kardec voltaria a aparecer. E no caso da Revue nunca houve indicação de nenhum editor, mas apenas o endereço de seus escritórios, que sempre ficaram na residência de Kardec (rue des Martyrs até meados de 1860, e depois passage Ste.-Anne, que desde abril abrigava também a Societé). Isso mostra o extraordinário empenho de Kardec com o projeto do Espiritismo. Lembramos, a propósito, que todas as despesas e riscos da edição pioneira de O Livro dos Espíritos e da Revue foram inteiramente arcados por Kardec (ver a obra Allan Kardec, vol. II, pp. 76 e 257, e vol. III p. 22).

d) No pé da página está o impressor da obra (não confundir com o editor): P.-A. Bourdier et Cie., rue Mazarine, 30, Paris. A informação é repetida na última página do livro (onde costuma figurar em qualquer obra). Essa gráfica não é a mesma da 1a edição, impressa na Imprimerie de Beau, em Saint-Germain-en-Laye.

Referências:

  • CHIBENI, S. S. “A excelência metodológica do Espiritismo”, Reformador, novembro de 1988, p. 328-333, e dezembro de 1988, p. 373-378. (Reproduzido em Mundo Espírita, n. 1384, novembro de 1999.)
  • ––. “O paradigma espírita”, Reformador, junho de 1994, p. 176-80. (Também disponível, junto com a referência anterior, no site do Grupo de Estudos Espíritas da Unicamp:http://www.geocities.com/Athens/Academy/8482.)
  • KARDEC, A. Le Livre des Esprits. Reprodução fotomecânica da 2a ed. francesa, com adendos do Autor. 1a. ed., Rio, Federação Espírita Brasileira, 1998.
  • ––––. Le Livre des Esprits. Reprodução fotomecânica da 1a ed. francesa. 1a ed, bilíngüe, trad. e ed. Canuto Abreu. São Paulo, Companhia Editora Ismael, 1957.
  • ––––. Revue Spirite. Texto eletrônico, Centre d’Études Spirites Léon Denis, http://perso.wanadoo.fr/charles.kempf/
  • ––––. A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. 23a ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s. d.
  • ––––. Obras Póstumas. Trad. Guillon Ribeiro. 18a ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s.d.
  • INCONTRI, D. (ed.) Textos Pedagógicos. 2a ed. Bragança Paulista, Comenius, 1999.
  • WANTUIL, Z. & THIESEN, F. Allan Kardec, 3 vols. 1a ed., Rio, Federação Espírita Brasileira, 1979/80.

(Texto publicado em Mundo Espírita, março/2002, pp. 6-7.)

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