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A Superficialidade dos Ensinos

A Superficialidade dos Ensinos

Vanda Simões

Há tempos temos falado em nossos escritos das esquisitices que se instalaram em nosso meio e da facilidade com que as fantasias encontram eco no Movimento Espírita. Um dia desses uma pessoa abordou-nos na casa espírita, perguntando-nos o nome do guia da casa, pois ela gostaria muito de falar com ele. Respondemos que o nosso guia era Jesus. Pareceu-nos desapontada. De outra feita, recebemos a visita de duas pessoas que, dizendo-se médiuns de “grande experiência” por terem trabalhado por longo tempo em conhecida cidade mineira, vieram se oferecer para receber Espíritos na casa, pois queriam muito “praticar a caridade”. Tivemos que ter uma longa e fraterna conversa sobre a necessidade da disciplina e estudo, além do fato de não fazerem parte do grupo de trabalhadores etc. Temos recebido pessoas completamente perturbadas por estarem em desenvolvimento da mediunidade em casas que não se preocupam com esse aspecto grave da tarefa, que é o entendimento do papel do centro espírita, proporcionando a instrução devida aos seus trabalhadores.

Poderíamos enumerar aqui outras tantas situações esdrúxulas encontradas dentro dos centros espíritas, mas o leitor já está cansado de saber quais são. Sim, estamos vivendo dias de dificuldades em todo o planeta, mas se configura de muita gravidade a situação encontrada nas casas espíritas. Afinal não é onde deveria estar centrada a cátedra do Espírito de Verdade? Não é onde deveria se encontrar a luz do conhecimento que liberta? Não é onde se deve aprender a construir um novo homem, liberto das amarras da ignorância? Mas não é o que se vê. Senão, vejamos.

As casas espíritas, inspiradas pelo espírito de sistema, optaram por navegar nas águas rasas do conhecimento, na superficialidade dos ensinos exarados das obras psicografadas de qualidade duvidosa. É comum, muito comum, os espíritas saberem de cor as histórias romanceadas das vidas de personagens habitantes das colônias transitórias, mas não sabem sequer de onde surgiu a doutrina que professam. Espalhou-se no meio a ideia de que as leituras das Obras Básicas é muito difícil, e que, portanto, é melhor que se comece lendo romances e livrinhos de histórias fantasiosas sobre a vida espiritual, que só convencem mentes imaturas e sem senso de racionalidade.

O resultado disso é que quando a pessoa se interessa de fato pelo estudo da Doutrina, já se embrenhou num mundo irreal, já poluiu sua mente com leituras inadequadas e atrapalhadas, tornando-se muito mais difícil a incursão no conhecimento real do Espiritismo e atrasando sobremaneira o avanço da criatura na estrada da compreensão. Os conceitos que já se formaram em sua mente são de complicada reestruturação e haja tempo para se formar outra mentalidade. São pessoas com um nível de fantasia tão grande acerca da vida terrena e espiritual, que misturam conceitos espíritas com doutrina esotérica, com neurolingüística, terapias alternativas, auto-ajuda e tudo o que pode fazer uma grande confusão nas ideias.

E a realidade disso se constata facilmente. Temos um critério de admissão de trabalhadores em nossa casa. A pessoa faz um breve curso de iniciantes para compreender pelo menos os princípios básicos doutrinários. Costumamos afirmar que quanto mais longe a pessoa inscrita estava dos centros espíritas, mais rápido ela compreende os ensinamentos. Sim, e não é exagero. Mas é sem dúvida um paradoxo. Essa realidade constatada pela experiência, nos dá bem o diagnóstico de uma situação dramática existente nas casas espíritas. Ou seja, os estudos são escassos, e quando existem são realizados pelos que têm pouco preparo, e que, por sua vez, se “prepararam” lendo Luiz Sérgio, Patrícia, Lúcius e quejandos. Conceitos de Espíritos que não devem ser tomados como referência, mas que infelizmente é o que acontece neste combalido Movimento.

Os que entram no curso com anos de leitura e vivência em casas espíritas custam a compreender a essência da Doutrina, por estarem envolvidos num pernicioso espírito de fantasia, idolatria e acima de tudo num grande equívoco acerca do conhecimento espírita. Mas, perguntamos, onde está o erro? Sabe-se que grande parte dos espíritas do país estão nas classes mais favorecidas intelectualmente. Então, qual a dificuldade? O problema está exatamente na maneira como o sistema foi estruturado. Deixando de lado as orientações do Codificador do Espiritismo, desde o início formou-se um clima propício à fomentação do irreal, à medida que foram chegando “notícias” do mundo espiritual pela pena de médiuns que trabalhavam irmanados no ideal daqueles que, do mundo invisível, tinham interesse em divulgar suas idéias. E vierem histórias de todos os tipos, vindas das colônias próximas ao orbe.

Ao longo do tempo, esses ensinos foram sendo sedimentados no meio e a mentalidade espírita foi se formando, totalmente alheia às orientações que um certo Allan Kardec deixara. E assim os núcleos foram se formando, à semelhança de pequenas igrejas com suas cantorias, santos e louvores, ou como terreiros de umbanda com seus guias consulentes, que a tudo determinam, desde a hora de iniciar os trabalhos até a decisão de começar ou não um trabalho assistencial por menor que seja. Além, é claro, de servir para endeusar médiuns vaidosos e que fazem questão de manter o status e a idolatria criada em torno deles. Ao lado disso, os espíritas convenceram-se de que fazendo obras mereceriam as benesses de viver em “Nosso Lar”, colônia espiritual que transformou-se numa espécie de céu dos espíritas. E tem ainda a ilusão criada em torno da fantasiosa história do anjo Ismael, que seria o guia espiritual deste sofrido país, que afinal é o coração do mundo e pátria do Evangelho. Sem comentários.

É hora de se fazer algumas reflexões em torno dessa situação. A Doutrina Espírita, na verdade, tem sido uma grande desconhecida nos centros espíritas. O que se ensina está muito longe da realidade. Enquanto se estiver dando importância às histórias contadas pelos oradores de cátedra, que divulgam suas próprias experiências ou as daqueles que escolheram como ídolos, não se chegará à compreensão do que seja a Doutrina dos Espíritos. Bom lembrar que a Codificação é o pensamento do Espírito de Verdade, enquanto as obras da literatura acessória são opiniões de Espíritos, que embora tenham seu valor, não podem ser tomadas como parâmetro para quem deseja adentrar no conhecimento espírita, quanto mais aprofundar-se em seu estudo.

O problema é grave e merece atenção dos que estão alertas para as mudanças que se avizinham. Os centros espíritas, em sua maioria, não estão em condições de amparar, com o espírito de fraternidade, racionalidade e disciplina que tanto ensinou o Mestre lionês. Estão envoltos na grande ilusão que caracteriza o tempo atual e que avassala a sociedade como uma doença crônica que mina as resistências do organismo para só então mostrar-se quando já causou conseqüências danosas e, por vezes, irreversíveis. O prejuízo causado pela doutrina de superficialidade ensinada pelo sistema oficial e perpetrada pelos seus representantes em congressos, encontros e seminários de toda natureza é enorme e precisa ser combatido. Não se pode mais fechar os olhos a essa realidade sob o pretexto da caridade. Caridade maior é desmascarar a hipocrisia, a idolatria e o atraso decorrentes do espírito de fascinação que envolve a maior parte do Movimento Espírita deste país.

29/10/99

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