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A Cigarra e a Formiga

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Mateus, cap. 7, versos 13 e 14 “Entrai pela porta estreita, (larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz para a perdição e são muitos os que entram por ela), porque estreita é a porta e apertado o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela”.

A fábula da cigarra e da formiga, parece ilustrar bem a questão da porta estreita e da porta larga e espaçosa. Fazendo alusão às facilidades que o ser humano geralmente procura em benefício próprio, o Evangelho comenta sobre o quanto ainda estamos enlevados e mesmo fascinados pelas paixões que nos dominam e nos chamam a atenção. No Evangelho Segundo o Espiritismo, no cap. 18, no item 5, nós temos: “A porta da perdição é larga, porque as más paixões são numerosas, e o caminho do mal é freqüentado pela maioria. A da salvação é estreita, porque o homem que quer transpô-la deve fazer grandes esforços sobre si mesmo para vencer suas más tendências, e poucos a isso se resignam; é o complemento da máxima: há muitos chamados e poucos escolhidos”.  Pensando na fábula da Cigarra e da Formiga, podemos ver ali refletidos, muito dos nossos conflitos, exatamente gerados pelas coisas que mais nos atraem e pelo que mais nós nos deixamos levar. Enquanto a formiga trabalhava e acumulava para o inverno, a cigarra estava frente a apelos contraditórios mas que bem representam os nossos conflitos internos, como por exemplo, trabalho e lazer.

A educação ministrada por nossos pais sempre nos disse que em primeiro lugar vem a obrigação e depois a diversão. Quantas crianças ouvem esse alerta quando querem ir brincar e têm que fazer a lição da escola em casa. A atitude da cigarra foi deixar-se levar pelo prazer, portanto pela opção mais fácil e mais imediatista tanto quanto atraente. Outro conflito muito evidente é o dever e da<b> obrigação versus o haver ou a isenção das responsabilidades. Há uma música genuinamente popular brasileira chamada “De papo pro á”, de autoria de Joubert de Carvalho e Olegário Mariano, que diz, num dos seus versos: “se compro na feira, feijão, rapadura, prá que trabaiá?”. As atitudes da cigarra ainda nos chamam a atenção para outras atitudes e comportamentos que, facilmente adotamos. A questão do crédito versus o débito.

. Em geral, nos julgamos com muita complacência e imputamos aos outros débitos muito pesados. É mais confortável julgarmos aos outros como nossos devedores, e não é incomum ouvirmos frases como “o problema é dele, eu já fiz mais do que devia” por exemplo. A cigarra também não enfrentou bem a necessidade de ser mais tenaz e não querer aproveitar o verão tão somente. A vida jamais nos tira o direito ao lazer e ao prazer, desde que sejamos bons administradores do tempo de que dispomos. A inconstância é muito própria dos Espíritos no estágio atual da evolução em que nos encontramos. A inconstância diz respeito às oscilações de humor e da vontade a que estamos sujeitos. Embora, como nos diz Emmanuel “a vontade é força que nasce com a alma”, freqüentemente nos queixamos de falta de vontade. Um dos por quês está no fato de tratar-se de uma força que precisa ser mantida e cultivada. Nada na natureza subsiste quando não é cuidada e preservada pelas atitudes dos seres humanos. Que o digam os ecologistas do nosso tempo! As atitudes humanas também pertencem a um imenso ecossistema emocional, digamos assim, que precisam ser cuidadas. Outra atitude que a cigarra não teve foi a de prevenção e portanto entregou-se ao descuido.

Ser descuidado consigo mesmo eqüivale a ser alienado, a ser pouco zeloso por si mesmo. Embora a fábula não seja de um filósofo grego da antigüidade, outra coisa esquecida pela cigarra foi o planejamento optando pela improvisação. Bem Brasileira essa atitude. Culturalmente nós acreditamos na nossa capacidade de improvisar e dar um jeito na hora “h” tanto que dizemos “na hora eu dou um jeito”. Nos orgulhamos da nossa capacidade de sair-se bem sem ter planejado sequer coisas mínimas. Somos criativos? É bem verdade que sim, mas pagamos altos custos pela aversão ao planejamento e à previdência. Queixamo-nos facilmente da impaciência quando devemos ser prudentes e cautelosos. Bom seria que aprendêssemos com os felinos que pela suavidade dos seus passos tem nisso uma arma para atacar e se defender do inimigo.

A imprevidência nos faz, muitas vezes, possuir um andar pesado que anuncia, antes de chegarmos ao nosso destino, os nossos descuidos. O meu pai dizia que é muito fácil diferenciar o andar de uma raposa e de um gato sobre o forro de madeira da casa em que vivi na minha infância. Ele dizia “o andar do gato é leve e a gente não escuta, mas o andar da raposa é descuidado e faz barulho e então sabemos que é ela que está sobre a nossa casa”. É muito fácil também, nos entregarmos à anarquia e a <b>insubordinação</b> quando a vida nos solicita tanto a disciplina.

Ser disciplinado não implica ser duro ou intransigente, mas a flexibilidade nos ensina como ter disciplina adotando atitudes oportunas e apropriadas para que cada situação que vivemos. Confundimos disciplina com prisão e optamos pelo comportamento mais fácil da rebeldia ou e da resistência a certas normas que visam organizar as nossas vidas. A cigarra também esqueceu de uma coisa fundamental na vida em comunidade que é o compromisso. Optou pela irresponsabilidade. Não avaliou a necessidade presente e futura e por isso não foi capaz de demonstrar uma atitude responsável. Não soube avaliar as suas necessidades e esqueceu-se de que vivemos no mundo em que todas as nossas atitudes têm implicações com as atitudes alheias e torna-se impossível praticar atos sem nenhuma interface com a vida do nosso semelhante.

Como conseqüência de todas as suas atitudes, quando a cigarra vai bater à porta da senhora formiga, com fome, frio e cansada, depara-se com a sua impotência, com a sua fraqueza, com a sua condição de vítima e do azar que recaía sobre si mesma. Resta-lhe então ver na formiga a força, a sorte e a figura do seu algoz quando a ajuda lhe é negada. Essa atitude é que chamamos comumente de projeção, isto é, depositamos no outro a causa dos nossos males para não olhar de frente para o nosso descuido, quando não, até mesmo para as nossas irresponsabilidades. O nosso sofrimento tanto quanto o nosso gozo decorrem da mesma oportunidade que temos ao viver as nossas experiências de aprendizado ou de provas. Na evolução jamais passamos por experiências que sejam única e exclusivamente para sermos humilhados, diminuídos, desrespeitados ou postos em situações vexatórias perante o criador ou perante os nossos semelhantes. A maneira como encaramos as experiências dizem respeito à qualidade das nossas atitudes com relação às provas. Se ajudamos a conceber o nosso projeto reencarnatório, então os aprendizados são aqueles que julgamos necessários ao nosso desenvolvimento. Não se trata de chamá-los de injustos ou grandes demais ou de os julgarmos como sendo a mão pesada de Deus. Desta forma poderemos compreender melhor uma coisa que a cigarra não foi capaz de entender na sua sina, qual seja, a idéia de castigo versus a recompensa.

Se ainda raciocinamos em termos de castigo e recompensa, ainda estamos pensando nas velhas idéias do céu e do inferno. Como nos ensina a Doutrina dos Espíritos, não existem penas eternas, e portanto, não existem as experiências além daquelas que precisamos fazer para compreender a nossa própria condição. Cultivar o sofrimento ou a tristeza em detrimento da alegria é fazer-se vítima de sofrimentos e, acima de tudo, estabelecer Deus como responsável. O sofrimento termina quando acontece a compreensão da causa da dor. A partir daí, como dizemos numa expressão muito comum, “quando cai a ficha”, seguimos em frente colhendo os frutos da compreensão do que nos aconteceu. A dor passa a existir enquanto memória, enquanto lembrança, o que significa não sentir mais a dor a não ser o seu registro memorial. Mas prantear os acontecimentos como se ainda estivessem acontecendo, é cultivar o sofrimento como a reclamar de Deus ou dos céus a injustiça da dor que sofremos e da cruz que carregamos. A saudade, a lembrança e os nossos pensamentos são as poucas justificativas que possuímos para lembrar da dor que sentimos. Mas velarmos o sofrimento é permanecer em estado de condenação permanente.

A pobreza com que a cigarra se viu depois que, arrependida das suas atitudes passadas faz ver a formiga apenas na sua riqueza e busca conseguir dessa riqueza justamente acumulada o benefício para o seu estado atual. Era ainda uma atitude de raciocinar como antes, isto é, não querendo justificar-se pelas suas atitudes irresponsáveis. Continuava julgando a formiga como co-responsável pela sua falta de dedicação, e por isso espera que a formiga ainda divida com ela parte do que fora capaz de acumular durante o verão, trabalhando enquanto a cigarra cantava. Estas ambigüidades que surgem dentro de nós em situações como nos relata a fábula, requerem a sabedoria e o grau de amadurecimento do livre arbítrio, e é quando surgem dificuldades e limitações para sermos juizes sobre nós mesmos.

O rabino Newton Bonder escreve no seu livro “Código Penal Celeste” que, frente a uma situação de decisão, como a que Adão e Eva enfrentaram no Paraíso, nós temos que enfrentar a nossa Nudez e a nossa Vulnerabilidade. A cigarra não enfrenta nem uma nem outra. No paraíso, o ser humano tinha a chance de ver-se nu e vulnerável, no entanto, procura cobrir a sua nudez e quanto a admitir sua vulnerabilidade, esquiva-se e culpa Eva, depois a serpente, e finalmente Deus. Talvez Deus quisesse apenas saber como Adão e Eva estavam enfrentando a situação. Talvez nas nossas vidas como cigarras cantantes, Deus queira, com o nosso livre arbítrio apenas ter notícias de como vamos indo com os nossos conflitos e como fazemos uso do livre arbítrio.  Para finalizar vale citar uma frase de Nietzsche muito bem analisada no livro “Em busca de Sentido” de Viktor E. Frankl  “quem tem por que viver pode suportar quase qualquer como.”

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