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Comentários Sobre a Bíblia

Comentários Sobre a Bíblia

Não se pode duvidar que os chamados livros sagrados formam o substrato cultural
das atuais nações. As três principais religiões, o Cristianismo, o Islamismo e o
Budismo – com suas variações – possuem todas textos que ainda hoje influenciam ou
mesmo determinam o comportamento das pessoas. Nem todo o furor técnico-científico
pôde interferir na ação desse patrimônio comum a toda humanidade, pois nas horas
difíceis, nos momentos puramente humanos de enfrentar a morte, a doença, a perda
de um ente querido ou adversidades dolorosas, o apelo à religião, qualquer que ela
seja virá, com certeza, como fuga ou consolo.

No caso do Ocidente a influência da Bíblia é inegável. Transparece no comportamento
diário, nas explicações para o que ainda é aparentemente inexplicável (mistérios
de Deus), na conduta familiar, social, política, econômica etc. O Decálogo, atribuído
a Moisés e redigido aproximadamente há 3.220 anos, forma a base de nossa estrutura
jurídica, ao lado da grande contribuição do direito romano.

Mas, afinal, em que consiste a Bíblia? Do ponto de vista puramente materialista
resume-se na história do povo hebreu, de Abraão até pouco depois da dispersão dos
judeus a partir do ano 70 d.C. Uma enormidade de textos dispersos, muitas vezes
contraditórios, passados de geração para geração oralmente e mais tarde escritos
ao sabor do gosto do cronista, sempre numa visão nacionalista e sujeita a alterações
feitas ao longo do tempo, realizadas pelo próprio autor ou por seus pósteros. Com
isso, o texto bíblico não é de leitura fácil para aqueles pouco versados na História
antiga e principalmente na História das religiões. Convenhamos que um livro, tal
como o conhecemos hoje, a chamada Vulgata Latina, com seus 66 escritos, selecionados
a partir dos critérios de um sábio, São Jerônimo, abarcando um período não menor
que 1600 anos, necessariamente traz controvérsias de variado teor. Discute-se desde
a autenticidade dos textos até sua validade como orientadores da conduta.

Apesar de todas essas questões a Bíblia está entre os livros mais publicados
e lidos em todo o mundo, no seu conjunto ou parcialmente. O Velho Testamento – conjunto
de textos anteriores a Jesus – são muito utilizados pelos segmentos protestantes,
enquanto o Novo Testamento, escritos posteriores a Jesus, circulam mais entre os
católicos, espíritas etc. Os Evangelhos, narrativas que contam a vida e a doutrina
de Jesus chegam a 25, segundo alguns pesquisadores, mas são tão confusos e contraditórios
que apenas quatro deles foram aceitos por serem mais concordes entre si. Dentre
eles o mais “histórico” é o de Marcos, escrito por volta do ano 53 d.C. O de João
é considerado o mais “esotérico”, ou seja, o que mais carrega a carga doutrinária
do Cristo, foi escrito entre os anos 96 e 100 de nossa era. Que o leitor não se
espante com esta data. Quando João começou a seguir Jesus era pouco mais que um
adolescente e viveu muito sendo, juntamente com Felipe, o apóstolo que teve morte
natural. Todos os outros foram mortos por ocasião das primeiras perseguições aos
cristãos.

Os textos bíblicos chegaram até nós em cópias feitas em papiro (feito de uma
planta egípcia do mesmo nome) e em pergaminho (feito de pele de animal), dois meios
de conservação bastante frágeis e por isso eram copiados e recopiados freqüentemente,
sujeitando-se às alterações e interpolações, comentários e adições feitas pelos
leitores, autores ou copistas. É curioso observar que nem todos os copistas sabiam
ler, eram apenas bons desenhistas e copiavam os textos como quem desenha. Bastava
um comentário à margem, uma letra a mais ou o que fosse para que eles “arrumassem”
o texto. Com isso não há como duvidar que os textos que nos chegaram não estão exatamente
como foram escritos. Apesar disso os especialistas afirmam que o sentido geral (que
é o que nos interessa) foi mantido ao longo do tempo. Isso serve de alerta para
aqueles apegados mais à letra que ao teor do texto.

Recentemente, em 1947, foi encontrado um escrito de Isaías numa gruta próxima
ao Mar Morto. Ele vem sendo estudado cuidadosamente por ser um texto original e
a sua comparação com os textos dos copistas tem demonstrado que praticamente não
há divergências relevantes. Isso é importante considerando-se o tempo que já  passou,
as inúmeras modificações comprovadas em outras partes da Bíblia, feitas de forma
voluntária ou não e o problema lingüístico.

A região onde ocorreram os acontecimentos narrados na Bíblia constitui o entroncamento
de três continentes, área de grande interesse comercial e estratégico desde o passado.
Muitas línguas eram faladas ali, a maioria dos dialetos de então já não existem
mais e aproveitou-se o que estava em grego e hebraico.

Bíblia significa “rolos de papiro” ou “livros” e realmente é uma coleção de textos,
uma “biblioteca” sobre a história do povo hebreu. Obra preciosa para os estudiosos,
sejam materialistas à procura de dados que expliquem a evolução das civilizações,
sejam espiritualistas à procura de um código moral para sua vida.

(Jornal A
Voz do Espírito
Edição 87: Setembro-Outubro de 1997)

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