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Crônica para Chico

Crônica para Chico

Amigo Chico, busquei inicialmente uma palavra que antecedesse seu nome, e a
melhor que surgiu-me à mente foi a de amigo, título abraçado pelo próprio Cristo
com o calor de seu amor por todos nós.

Nos perdemos tantas vezes no torvelinho das lutas humanas e esquecemo-nos de
contemplar a presença de Deus em nossas vidas. Você sempre o fez com maestria,
admirando o simples vôo de um besouro, o colorido de uma flor, o sorriso maroto
de uma criança, a esperança nos olhos de quem sofre, o brilho na face de quem
sentia de perto o perfume da caridade…

Acostumei-me, Chico, a estar com você todos os dias. Se não podia estar
fisicamente, pelas contingências da vida, estava todos os dias quando, logo após
o almoço, lia uma lição dos livros biográficos acerca de sua vida, hábito que
iniciei há quase dez anos, e cumpro-o religiosamente. Algumas vezes conversei
com você, driblando a natural proteção dos que queriam preservá-lo, e outras
vezes pude sentir-lhe a doce presença nas noites de Sábado do Grupo Espírita da
Prece. E nestas leituras diárias aprendo muito com o exemplo e maturidade de
quem traz na alma a experiência e a sabedoria na ciência da vida; quantas vezes
ri com você, noutras as lágrimas lavaram meus olhos na emoção de sua
simplicidade cristã e seu verdadeiro amor pelas criaturas de Deus…

E Jesus é testemunha de que meu carinho sempre foi direcionado para a
gratidão e admiração pelo espírito heróico que soube tão bem representar o
Evangelho do Cristo, não me permitindo jamais a idolatria e o culto à
personalidade, que tanto combati entre companheiros que se embriagavam por sua
figura, esquecendo de seguir-lhe o exemplo de amor ao semelhante, de fidelidade
aos postulados espíritas, de incentivo e apoio a todos os trabalhadores
espíritas que o procuraram com suas dúvidas e anseios, e você sempre soube
chamá-los à razão, como um pai amoroso e compreensivo das fraquezas de seus
filhos. Enquanto muitos se debatiam por tocar-lhe o corpo passageiro, aprendi
com você a abraçar-lhe a alma eterna, absorvendo-lhe as palavras e atitudes,
estudando sua obra como homem e como médium, divulgando-a, nela falando, dela
escrevendo, multiplicando as mentes, os cérebros e corações amparados por sua
luz, jamais deixando de carimbar com alguma passagem de sua vida ou frases do
amigos espirituais, as minhas palavras faladas e escritas.

Amigo Chico, a uma semana de completar setenta e cinco (75) anos de
apostolado mediúnico, ao iniciar-se o mês em que todos estamos comemorando
setenta (70) anos de lançamento de sua primeira obra mediúnica, Parnaso de Além
Túmulo, você resolveu mudar de endereço…

Quando ouvimos a notícia de seu retorno à Espiritualidade pensamos que fosse
brincadeira, algum alarme falso como tantos outros que nos habituamos a ouvir.
Quantas vezes lhe desencarnaram, amigo, e você continuou firme conosco, fazendo
preces e vibrações por quantos que pensaram que compareceriam ao seu velório…

Mas um dia a notícia teria que ser verdadeira. E como sempre você nos
surpreendeu!

Escolheu um dia cinco estrelas para sair da cena material do mundo.

Esperou um dia em que nossos corações já haviam sido testados, o batimento
cardíaco já tinha sido ajustado, o sorriso se desenferrujara, o canal das
lágrimas fora lubrificado… Um trabalhador cinco estrelas escolhendo um dia
cinco estrelas para receber o diploma de cumprimento do dever. Em meio à festa
humana você iniciou uma festa espiritual, e acredito que mesmo nesta saída
estratégica você não tenha noção do significado desse dia para os nossos
corações. Em sua sincera humildade você não imaginava o tamanho do amor que
sentimos por você. Você escolheu um dia cinco estrelas, mas você, Chico, não é
um homem cinco estrelas, pois é um número muito pequeno para homenagear um
trabalhador verdadeiro do Cristo; você é um homem mil estrelas, pois os que se
devotam com vigor e sacrifício à causa do Divino Mestre alcançam toda a abóbada
celestial, onde constelações inteiras de mensageiros abraçam os servidores que
retornam.

Querido amigo, resolvi escrever-lhe esta crônica pois com certeza dezenas,
centenas de artigos estarão saindo nos jornais espíritas e não espíritas deste
país e do exterior, louvando sua vida, relembrando passagens belíssimas de sua
jornada, fatos diversos que estão com tanta competência narrados nas dezenas de
livros sobre você, sua vida, bem como tantos outros que serão escritos a partir
de agora, festejando sua passagem pela Humanidade, e o que eu poderia
acrescentar a este rico e farto material? Sou um simples operário das letras, um
contador de histórias e estórias, um pequeno servidor, ainda aprendiz, mas algo
em mim já sinto grande, enorme; o meu amor pelo Cristo, pela Doutrina Espírita,
e pelos apóstolos que, após intensos sofrimentos e ásperas caminhadas, não nos
deixam esquecer a figura inolvidável de Jesus, talhando em seu exemplo pessoal,
nas páginas de suas próprias vidas a figura inesquecível do Divino Amigo. Por
isso escrevo-lhe esta crônica, pois apenas quero lhe dar notícias de nossa
terrinha e de como estamos prosseguindo na jornada de amor de construção de um
mundo melhor, fazendo nossa parte, já que a sua você realizou com primor e
esplêndida competência.

Pronto! Já estou eu caindo na trilha dos elogios… Prometi que não faria
isso, mas é inevitável, amigo Chico.

Bem, amigo, você prossegue sua jornada, é verdade. Como é verdade que,
coroando uma vida de esforço, denodo e dedicação, você foi recebido pelo Divino
Mestre, em pessoa, agradecendo-lhe o trabalho bem feito e a recomendação
constante a todos para que jamais se esqueçam d’Ele, Nosso Grande e Celeste
Amigo. Afinal, a vida não pára, é eterna e todos estamos destinados ao bem e ao
amor que emanam de Deus.

Deus o ilumine na nova etapa de sua jornada, Jesus o inspire nas novas
incumbências, que serão muitas devido sua capacidade e o momento que vivemos de
renovação do planeta, em que o Cristo não prescinde de nenhum de seus seareiros…
E por aqui, mesmo que você não queira ser tão lembrado, o será sempre.

Ah, um pedido, amigo. Já que você está colhendo a luminosa e gigantesca
lavoura que plantou, mande para nós inspirações para que consigamos ao menos não
comprometer nossa singela horta, mas que é semeada e regada com amor, com o amor
que você nos ajudou a cultivar na terra ainda árida de nossos corações.

Vá, amigo, siga seu caminho. E já que estou no fim de minha crônica,
permita-me acrescentar outro título, além de amigo; chamá-lo-ei de apóstolo,
pois os que abraçam o Evangelho com tamanho fervor e cumprem o dever com tamanho
amor trazem na alma este título outorgado por Jesus aos que compreendem a
grandeza da obra divina.

Segue, amigo e apóstolo do Cristo, seu destino, e encerrando, quero dedicar
uma frase que por suas mãos veio a lume, pedindo licença ao Mestre Divino para,
modificando-a ligeiramente, parafraseá-la em sua homenagem:

“- Ave, Chico! Os que lhe guardarão para sempre no coração te glorificam e
saúdam!”

Talvez até com frase semelhante tenham te recebido no Plano Espiritual…

08-07-2002

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