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Drogas, o trágico mecanismo de fuga

No estudo AS DROGAS NO MUNDO,montado com depoimentos de vários especialistas,
lê-se o seguinte:

“…é impossível compreender – se o problema da droga isolado do seu contexto
social e cultural, que, entre outras características, comporta hoje uma
consciência aguda da mudança. As populações vêm o seu meio ambiente modificar –
se, suas tradições desaparecerem, as regras não mais se aplicam às novas formas
de vida”.

Estas mudanças têm repercussões imediatas sobre o uso de entorpecentes.

Comecemos uma abordagem semântica do problema, a ver se conseguimos chegar a
um entendimento mais realista. Entorpecente apresenta – se como palavra – chave
e de emprego prioritário sempre que se parte para um exame de problemática das
drogas. Entorpecer é causar torpor, um estado de lassidão, indiferença,
amolecimento, desânimo, do qual resulta uma espécie de anestesia mental, um
desligamento da realidade, sempre difícil, às vezes agressiva e hostil. O
individuo que se sente hostilizado ou rejeitado por uma realidade contundente e
ininteligível, busca na substância que anestesia a sua sensibilidade para essa
realidade dolorosa, o que lhe parece um alívio, ainda que temporário e efêmero,
e de dramáticas conseqüências para a saúde física e mental, a médio prazo, e
fatal a longo prazo.

O ópio, segundo o Dr. Poshiachinda, da Tailândia, é recurso empregado para
combate à depressão, e a heroína, é veículo pra escaparem jovens e adultos às
pressões da vida ou às suas carências afetivas, insegurança ou inconformação.

O Dr S. W. Acuda, do Quênia, atribui a súbita expansão no uso de drogas às
tensões e conflitos gerados pela velocidade de mudança nos países em
desenvolvimento, onde se desintegram as tradições culturais.

A droga surge, assim, como uma anestesia para a sensibilidade, e, portanto,
um claro e inequívoco MECANISMO DE FUGA.

O Dr. D. Robinson, discorrendo sobre o problema do alcoolismo, adota pontos
de vista semelhantes, denunciando a decadência das estruturas tradicionais que
poderiam ajudar a reconfortar o indivíduo. E cita três elementos básicos a essa
estrutura de apoio: a igreja, a vizinhança e a família. Em lugar da palavra
Igreja, eu poria o sentido religioso da vida, mas não discordo da postura do Dr.
Robinson, mesmo porque sabemos que estruturas religiosas, sociais em geral e de
família, em particular, estão apresentando elevado índice de turbulência e
mazelas. Que apoios podem proporcionar ao indivíduo perturbado ante um contexto
que não entende e teme se elas próprias, as instituições, também se encontram
algo perdidas, confusas perplexas?

Para muitos, escreve o Dr. Robinson, o mundo muda depressa, é vasto, e
indiferente às qualidades individuais e às necessidades de compreensão, de
solidariedade, de amizade.

O ser humano reage à nova situação com automatismos atávicos de fuga ante o
perigo. Em vez de fugir ao animal selvagem agressor e esconder – se na sua
caverna, quando não podia eliminá-lo, ele foge agora de perigos mais terríveis
porque indefiníveis e invisíveis, utilizando – se de processos artificiais de
bloqueio da mente.

Apela, portanto, para a droga, que o leva ao torpor da indiferença e do
alheamento, ainda que provisório. E aí estamos de volta à nossa abordagem
semântica.

Quando, porém, a realidade, embora hostil, exige a sua volta, porque o
alheamento é necessariamente um estado transitório, o fugitivo sente a
necessidade de outra droga potente e não menos destrutiva, os estimulantes. É a
vez das anfetaminas que suprimem o apetite, reforçam a atividade e a consciência
e estimulam o sistema nervoso central, criando a falsa euforia.

Na esteira de drogas mais potentes para alienar e entorpecer, ou para excitar
a coagem necessária a enfrentar problemas existenciais, começaram a surgir na
década de 60 os tranqüilizantes, chamados tecnicamente de drogas anxiolíticas,
destinadas a combater estados de ansiedade, ou seja, “para eliminar desordens
psíquicas e problemas emocionais da vida cotidiana”, segundo conceituação da
UNESCO. Uma de tais drogas, o diazepan, tornou – se em 15 anos o medicamento
(?!) mais vendido no mundo.

O dr. Edwards e o Dr. Awni Arif, autores do estudo para a UNESCO, não hesitam
em declarar que o uso indiscriminado de tranquilizantes resulta de uma
defeituosa “visão biomédica do homem”. e prosseguem:

Segundo esta visão filosófica, todos os problemas expostos no consultório
médico se originam no próprio individuo, e por isso exigem soluções biológicas.

é certo, isto, no sentido de que disfunções espirituais estão sendo tratadas
como problemas de saúde física, de vez que na chamada visão biológica predomina,
em toda a sua estreiteza a unilateralidade, o conceito de que o ser humano não
passa de um engenhoso conglomerado celular orquestrado pelo cérebro. É,
portanto, um ser transitório e perecível que tem começo ao nascer sem passado e
fim ao morrer sem futuro.

Ficamos sem saber, contudo, se os autores da expressão aceitariam a realidade
espiritual da preexistência e da sobrevivência como elementos retificadores à
abordagem biomédica que, evidentemente, condenam e com justa razão.
Provavelmente apenas introduziriam no esquema o conceito de mente, sem mais
nítida definição, com o que estaríamos na mesma.

Claro é, porém, que a medicação prescrita segundo a ótica meramente
organicista e biológica só poderá cuidar de sintomas, de efeitos e não das
causas geradoras dos distúrbios, que não se encontram no componente material do
ser vivo e, por conseguinte, não poderão ser corrigidas ou eliminadas por
processos meramente bioquímicos, por mais sofisticados que se apresentem.

Seja como for, ao cabo de mais de duas décadas de intensa experimentação, o
emprego de tranquilizantes começa a ser questionado e já há quem considere que
prescreve – los equivale à clara “admissão de um fracasso terapêutico”. Em suma:
quando não se sabe o que fazer com um doente, recorre – se ao tranqüilizante.
Curioso paradoxo este: exatamente porque nada justifica, do ponto de vista
orgânico, estado de ansiedade, medica – se com drogas artificiais dirigidas ao
organismo. Se o problema não é biológico por que empregar a abordagem biológica?
Parece aquela anedota, seguindo a qual se procura o anel não onde foi perdido,
no escuro, mas alhures, junto do poste de iluminação, porque nada se pode
enxergar lá…

QUE REFLEXÕES TERIAM O ESPIRITISMO A OFERECER PARA MELHOR ENTENDIMENTO DE TÃO
INQUIETANTE SITUAÇÃO?

Como temos repetido, o Espiritismo não propõe soluções específicas,
procurando regulamentar cada atitude ou ditar normas de comportamento do ser
humano. Prefere acatar, em toda a sua amplitude, os dispositivos da lei divina
que asseguram a todos o direito de escolha e a responsabilidade conseqüente pelo
que fizerem. Prefere a atitude do Cristo que condena o pecado, mas oferece sua
ternura e compreensão ao pecador, procurando mostrar – lhe o que precisa fazer
para livrar – se do erro, construindo oportunidades de acerto.

Também não propõe o Espiritismo uma condenação formal ao processo mesmo da
civilização, como vimos ainda há pouco no julgamento de alguns especialistas. É
certo que as estruturas estão mudando e talvez mais rapidamente do que pode
absorver a grande maioria dos seres hoje encarnados na Terra. Tensões,
insegurança, temor, rivalidades e competição entre indivíduos, instituições e
povos criaram um quadro confuso e incompreensível para muitos. O inseto
aprisionado numa sala voa desesperadamente até cair morto de exaustão, de tanto
chocar – se contra o vidro da janela, obstáculo invisível e incompreensível para
ele, contra toda a lógica primitiva e espontânea. Por que não o pode voar rumo à
liberdade se aparentemente nada existe à sua frente que o impeça?

Neste contexto, torna – se difícil enfrentar o medo indiscriminado, a
insegurança generalizada e o desespero existencial sem apoio em uma sólida
estrutura de convicções sem um sistema ético adequado. Daí os apelos a
entorpecentes, estimulantes ou tranquilizantes, que representam, no fundo,
passaportes para a fuga.

Em vez de condenar a civilização pelos nossos equívocos, os Espíritos
ensinaram a Kardec que “condenássemos antes os que dela abusam e não a obra de
Deus” (pergunta n°790). Pouco adiante, na questão 793, documentaram o
entendimento deles acerca das correções necessárias, ao informarem que
reconheceríamos uma civilização completa “pelo desenvolvimento moral”. E
prosseguem:

“Credes que estais muito adiantados porque tendes feito grandes descobertas e
obtidas maravilhosas invenções; porque vos alojais e vestis melhor do que os
selvagens. Todavia, não tereis verdadeiramente o direito de dizer – vos
civilizados, senão quando de vossa sociedade houverdes banido os vícios que a
desonram e quando viverdes como irmãos, praticando a caridade cristã. Até então,
sereis apenas povos esclarecidos, que hão percorrido a primeira fase da
civilização”.

Longe de sr desanimadora, ou mera pregação, a resposta é realista e
programática.

A civilização em si não é um mal e nem pode ser, mas está sendo afetada e
contaminada por mazelas humanas, por turbulências no comportamento dos próprios
seres que a desenvolvem. Conquistas tecnológicas não solucionam problemas
humanos por si mesmas e muitas vezes contribuem para agrava-los, com o controle
da energia nuclear, que está gerando novas tensões individuais e sociais em vez
de novo impulso civilizador pela aplicação pacífica da descoberta.

A receita que a Doutrina prescreve para os males da civilização pode até
parecer óbvia e simples de mais, mas a questão é que a verdade é simples e
óbvia, embora nem sempre atinemos de pronto com ela. Resumem – se tais
prescrições na prática da caridade e do entendimento, em convivência fraterna,
inteligente que dissipe os temores, não identificados alguns e conhecidos
outros, que mantêm uma parte considerável da humanidade em permanente regime de
stress e de angústia. É esse o diagnóstico da ciência, como vimos há pouco.
Encontramos tais aspirações nos documentos que consultamos para este estudo. Ou
seja, especialistas que propõem mecanismos sociais de mútuo apoio e entendimento
para exorcizar o fantasma aterrador do medo generalizado, do qual os mais
desesperados fogem desabaladamente despencando – se em abismos tenebrosos,
empurrados por drogas alienantes. Não faltou ao diagnóstico nem mesmo a
generalizada irreligiosidade.

Cresce assustadoramente a massa de desesperados, criatura desenraizada, a
vagarem sem rumo e sem propósito, arrastados por circunstâncias que não sabem
como superar porque não se empenham em entender a realidade da proporia vida.
Não sabem tais pessoas que são seres espirituais imortais, responsáveis, criados
simples e ignorantes, como nos asseguram os Instrutores, mas programados para a
felicidade. Pensam muitos e muitos que são apenas um corpo físico pressionado
por ânsias que é necessário satisfazer, por temores de que é preciso escapar,
por angústias que tem de ser sufocadas, quando temores e angústias são
conseqüências e não causa da visão deformada da realidade.

Recorrem ao entorpecente, diz – se, os que nasceram em lares desajustados,
mas quem está cogitando aí de investigar as verdadeiras causas do desajuste e o
que fazer, senão para neutraliza – lãs prontamente, pelo menos para promover
atitudes e medidas que as excluam para sempre do futuro que nos aguarda?

Recorrem a drogas de variada natureza os que sofrem de carência afetiva,
certo. Mas o que desencadeou nessas criaturas o doloroso processo de carência?
Não seria porque o afeto que hoje lhes falta, eles próprios recusaram – se a
doar em outros tempos? Se for assim, que correções introduzir para evitar a
recaída futura?

Buscam a alienação da droga os que perderam o endereço de Deus, no dizer de
alguém. Nem sabem que pertence a uma comunidade de seres imortais ligados por
vínculos indestrutíveis e destinados à felicidade em algum ponto na intersecção
espaço/tempo.

Falta, pois, conteúdo espiritual, convicções racionais, confiança nos
mecanismos auto – reguladores da própria vida. falta o senso da responsabilidade
pelos atos praticados, bem como a certeza de que a cada ação num sentido
corresponde uma reação em sentido contrário. Vivemos num universo harmônico e
que restabelece a ordem e o equilíbrio sempre que alguém tenta desestabilizar a
menor de suas leis naturais.

O físico francês Jean Charon declara em L’ESPRIT, CET INCONNU que, ao
contrário do que muitos supõem, o universo evolui no sentido de uma contínua
ordenação e não para a desagregação e o caos.

O problema aflitivo da droga não é, portanto, um caso de polícia ou uma
questão alfandegária,(…………..) é problema espiritual, distúrbio emocional
do ser humano em atrito com as leis divinas. Como comportamento alienador e
mecanismo de fuga, caracteriza – se como sintoma inequívoco de rebeldia ante o
severo sistema de ajustes a que somos submetidos em conseqüência de
transviamentos anteriores.

Isto não quer dizer que devamos condenar aquele que recorre à droga porque
rejeita a realidade. Ele precisa de compreensão e de esclarecimento. Precisa
descobrir sua própria realidade espiritual, sua condição de ser preexistente,
sobrevivente e imortal, a caminho da perfeição, por mais distante que esta se
coloque afugentada pelos desacertos.

Não nos iludamos, porém, de que isto seja viável apenas com uma vigorosa
campanha de doutrinação maciça e compulsória. “O homem não passa subitamente da
infância à madureza” – disseram os Espíritos à Kardec na questão n°90. Para que
amadureçam, os imaturos que recorrem ao processo de fugas proporcionado pelas
drogas, precisam antes do amor que, na sua dinâmica, se converte em caridade.
Envolvidos pela turbulência íntima, o dependente da droga não esta preparado
para ser doutrinado e rejeitará sumariamente qualquer tentativa de pregação com
a qual seja abordado. Não rejeitará, porém, a abordagem do amor fraterno, que é,
precisamente, o componente pelo qual mais anseia, na tormentosa aflição e
solidão em que vegeta.

Quando lideranças políticas e sociais entenderem isto, estaremos começando a
escalada rumo ao saneamento espiritual da civilização.

Não nos iludamos com o problema minimizando suas proporções, nem cometamos
equívoco ainda mais grave considerando – o insolúvel. Só nos resta aqui a
alternativa do realismo consciente, objetivo e otimista. É preciso insistir até
à exaustão no conceito de que o ser humano é espírito que, intermitentemente,
habita um corpo físico.

As multidões que se despedem a cada instante da vida física e retornam ao
mundo invisível continuam vivas, pensantes e atuantes, arrastando problemas que
não conseguiram solucionar aqui, e que, lamentavelmente conseguiram quase sempre
agravar. E multidão desencarnada também exerce suas pressões sobre a que ficou
na carne por mais algum tempo. Temos encontrado Espíritos que nos falam de suas
manobras para levar seres encarnados a drogarem – sae, a fim de que possam
usufruir uma quota de alienação, pois também eles estão tentando aflitivamente
fugir de realidades que lhe são penosas demais para as suas estruturas
desarticuladas.

O problema das drogas oferece, pois, no enfoque doutrinário do espiritismo,
aspectos inusitados, surpreendentes e desconhecidos de muitos. É na exploração
de tais contribuições que encontram os meios para um equacionamento racional do
problema que não é insolúvel, não porém,por um passe de mágica, utilizando – se
de fórmulas secretas,rituais excêntricos ou novas drogas miraculosas, pois nada
disso entra como componente na formulação doutrinária e sim por meio de uma
atitude de inteligente compreensão da realidade espiritual.

O drogado é um doente espiritual, carregado de problemas cármicos e que se
deixa arrastar pelas correntezas da vida na ilusão de que está sendo levado para
longe de uma realidade que o assusta e aflige. Em verdade, porém, para onde for,
aqui ou no mundo ultradimensional em que irá continuar a viver na condição de
espírito, estará sempre ligado à realidade desagradável, que não é exterior e
sim interior, com raízes profundamente mergulhadas no solo íntimo do passado.

Somente através do amor poderá ele ser instruído a cerca dessa realidade, a
fim de que, entendendo – a, fique preparado para aceita – la e vencer os
obstáculos que estão a bloquear seu caminho rumo à felicidade a que todos temos
direito inalienáveis.

Entendimento e amor fraterno é o que nos recomendou o Espírito de Verdade,
com extraordinário impacto e poder de síntese, numa frase que se tornou
antológica.

“Espíritas! amai – vos, este o primeiro ensinamento; instruí – vos, este o
segundo”,

Duas únicas, simples e viáveis propostas, portanto, com as quais somos
advertidos de que o caminho está no amor e na instrução. (Livro O Espiritismo e
os Problemas Humanos,Deolindo Amorim, Ed. U. S. E.).

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