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Eleição, Mulheres e Voto Consciente

O deputado nos fala da necessidade do voto consciente: “quando você
votar e o país tomar o rumo, então você é responsável, porque o rumo que o país
seguir, será o resultado do homem que você escolheu.”

Alguns dizem que o parente não é bom, mas que vão votar nele assim mesmo,
porque pelo menos tirarão algumas vantagens. É o pensamento inconsciente
imediatista incapaz de prever as conseqüências. O mesmo deputado adverte: “Se
você escolheu, porque tinha interesses pessoais e não os interesses da
comunidade, responderá pelo carma histórico e coletivo que virá.”

Na TV duas candidatas discutem e o tema é de seu interesse por
diversos motivos. No final você acaba mudando o voto. É necessário examinar a
vida do candidato, o brasileiro precisa ficar mais bem informado. Cabe lembrar
que se a justiça do candidato não exceder as dos escribas e dos
fariseus
, ele não deve entrar nem na Câmara nem no Senado.

Ouvi, certa vez, uma discussão entre duas mulheres materialistas. Se fossem
candidatas em qual delas você votaria após ouvir o diálogo? O curriculum
das duas era equivalente e nunca foram encontradas ligadas a atos de corrupção,
não sendo do nosso conhecimento nenhum fato que desabonasse suas condutas. Com
esse pano de fundo é pertinente informar que uma delas havia enfrentado, com
muita angústia, um aborto espontâneo. Percebi que, embora fossem do mesmo credo,
apresentavam posições antagônicas.

Sim, eram materialistas. Muitos têm fé no niilismo e acreditam na
inexistência
de vida após a morte, embora esta tese seja defendida sem
nenhuma evidência experimental que a suporte. Até hoje ninguém provou que não
existe vida depois da morte, mas, alguns defendem quase fanaticamente essa
idéia. Aliás, dos fanáticos não sei qual o pior! As pessoas de credo
materialista, acreditam no nada, geralmente se recusam a olhar pela janela
espiritualista, que fica no lado oposto do cômodo. O fanático materialista é
cego às evidências científicas acumuladas e que apontam na outra direção.

“Richet disse que uma boa e completa experiência vale por cem observações, e
acrescentaremos: vale dez mil negações, ainda mesmo quando essas negações
emanassem de sumidades de maior notoriedade, se estas não se dignassem a repetir
as experiências e demonstrar-lhes a falsidade” (Gabriel Delanne, 1893)

Voltemos ao diálogo entre as duas senhoras (candidatas).

Uma opinião apresentada por uma delas, a de que o aborto é um direito, foi o
que me chamou a atenção. Vivemos nos equilibrando entre direitos e deveres!

Disse: “a campanha pela legalização do aborto deve seguir na direção pura e
simples do direito de abortar, não necessitando a mulher explicar que há
problemas com o feto ou que foi estuprada”. “O aborto não deve ser considerado
crime e o argumento que invoco é um só. A mulher pode dizer que não quer este
filho e que seu corpo lhe pertence. Este é o projeto de lei pelo qual anseiam as
mulheres”.

Diz a outra: “mas, aqui o direito de um implica na morte do outro. Não
podemos auto-atribuirmos a decisão e a ação de matar o outro. Isto é questão de
poder acumpliciado a uma licença ética. É exatamente o que se dá com o político
que leva o povo à guerra; dá-se ainda com o terrorista, com o torturador, com os
assassinos de todos os matizes. Poder e não-ética, associados, produzem
todas as lesões ao outro: o roubo, a censura, o seqüestro, a lista é longa”.

Léon Denis, que foi um orador brilhante, fez uma conferência em Tours, na
sala do Cirque e, posteriormente em Orléans, na sala do Instituto, em fevereiro
e abril, respectivamente. A acolhida que lhe foi feita, o convite insistente de
um grande número de ouvintes permitiram que hoje pudéssemos estudá-lo. Nele
Denis diz: “nós que desejamos uma ordem social baseada na Justiça e na
Liberdade, façamos inicialmente, justos e virtuosos a nós mesmos, tornemos
nossos corações livres, as razões esclarecidas, os costumes dignos, as
consciências honestas e marchemos nós, em frente, sem fraquejar.”

Voltemos ao diálogo das duas amigas.

Em defesa de suas idéias, continuou a senhora: “o aborto não é um direito, é
uma possibilidade decorrente do poder e da anestesia da consciência, como
escravizar o negro, matar judeus.”

“A Idade Média foi a idade de ferro, a idade do feudalismo, a idade onde as
fogueiras crepitaram, onde o sangue corria em torrentes nas salas de tortura,
onde as incontáveis forças se erguem com os seus frutos sinistros.”(L.Denis)

Como que se não tivesse escutado os argumentos apresentados, surge a réplica:
“A legislação do aborto não dá à mulher autonomia sobre seu corpo. Precisamos
entrar na modernidade! Estamos atrasados em relação à Itália, Alemanha ou à
França.”

O leitor também já ouviu essa conversa antes, não?

Alguns acreditam que, o que se USA lá, deve-se USAr cá!

Nem nos EEUU a lei é abrangente!

“Sim”, concorda a outra. “Mas, não seria o caso de ampliar a informação sobre
anticoncepção? Usar do direito de não engravidar, nestes dias modernos de Aids,
usar a camisinha e exigir a colaboração do companheiro? Afinal, a eficiência dos
anticonceptivos é próxima de 100%! “

“É, mas um dia a casa cai e você aparece grávida, minha filha!” – disse a
outra.

A resposta veio na ponta da língua: “mas a culpa é do bebê?” O óvulo é seu. O
útero, também, mas o ovo fertilizado é outra pessoa!

“Na alma humana existe um sentimento natural que a eleva acima de si mesma
para um ideal de perfeição no qual se resumem essas potências morais denominadas
o Bem, a Verdade e a Justiça. Esse sentimento, quando está esclarecido pela
Ciência, quando é fortificado pela razão, quando tem por base essencial a
liberdade de consciência, da consciência autônoma e responsável, esse sentimento
é o mais nobre de quantos possamos conhecer.” (L.Denis)

Pudemos ouvir o silêncio, enquanto a outra engolia em seco, embora não se
desse por vencida.

“Sim, mas enquanto os t-e-ó-r-i-c-o-s, como você, discutem se o feto
com duas ou com quatro semanas já é uma pessoa, a mulher engrossa as
estatísticas. Você sabia, minha cara, que nos meados de 1985 o aborto era a
quarta causa de morte? Que o INAMPS gastava 46% do orçamento de obstetrícia em
complicações causadas pelo aborto? Que a Organização Mundial de Saúde indicava,
em 1978, a ocorrência de 3 a 5 milhões de abortos anuais no Brasil e que isso
representava 10% dos casos no mundo? As mulheres pobres vão continuar abortando
com agulha de tricô?

A conversa estava tão quente que resolvi escutar ainda mais discretamente.
Conclui que a intuição mais uma vez havia me favorecido. Afinal poderia sobrar
pra mim. E se uma delas resolvesse olhar na minha direção e me perguntasse: “o
senhor não acha?”

Eu não poderia ser indelicado e responder: “Eu não acho nada, minha senhora!”

De repente a outra, olhando para minhas mãos e, como se quisesse me envolver
na discussão disse: “Espera aí, vamos entrar nessa de que o Ministério da
Saúde adverte… e, gastar fortunas dos recursos públicos, para tratar enfisema
e câncer pulmonar que apareceram por causa de uma droga socialmente aceita?”

“Minha amiga”, falou com tom de piedade, “não seria melhor investir numa
estrutura melhor para gerar filhos? Investir em creches e oferecer orientação
sobre contracepção? O país já tem os sistemas de comunicação bem desenvolvidos é
só questão de vontade política fazer a opção pela educação!” E arrematou: “Isto
não é o mesmo que colocar o aborto na lei e a consciência fora da lei?”

Nesta hora achei que a outra não ia conseguir sair da lona, enquanto eu, o
juiz, contava até dez.

“Há pessoas com nervos de aço.” (Lupicinio Rodrigues)

Como lutador de excelente preparo físico ela ficou de pé, e: “Ora, minha
amiga, estamos discutindo a existência de alguém que ainda nem é uma pessoa. É
apenas um amontoado de células. Eu estou defendendo a mulher e você vai ficar
defendendo um feto!”

“A mulher é sempre ignorada. Essa é a grande questão do nosso século. As
mulheres que abortam, no Brasil, não o fazem por opção. Quando falo no direito
de abortar falo em direito à vida humana, decente e digna. É preciso existir
estrutura para gerar filhos, foi você mesma quem colocou!”

E agora, você já descobriu qual possui a capacidade maior de argumentar e
contra-argumentar? As mulheres que defendem os seus direitos precisam ser
ouvidas. Eu sou a favor da competência, esteja ela de saia ou não.

“Sim”, veio a resposta: “e deve ser aí que devemos gastar a nossa energia e
não tentando desumanizar o outro! Sempre que se quer humilhar, castrar, limitar
ou matar o outro, recorre-se a esta técnica consagrada. O primeiro ato é
des-humanizar.
Se o embrião é um VIR A SER, mas NÃO É ainda por que não
suprimi-lo em favor dos que SÃO?

Hitler e Stálin tinham idéias, até nobres, pelas quais se auto-atribuiram o
direito, e até o dever, de matar judeus, dissidentes, capitalistas, comunistas e
católicos.

O que se quer é “des-humanizar” o embrião para adormecer as consciências
com uma legitimidade.

“A ciência não tem uma definição de vida, portanto não pode justificar um
procedimento tão grave sobre o que desconhece.”

“Há pessoas com nervos de aço, sem sangue nas veias e sem coração.” (Lupicinio)

Eu não sei onde esta conversa foi parar, mas ela me estava fazendo pensar
tanto, que já me sentia cansado. Foi com certa contrariedade que tomei o ônibus
e deixei as senhoras com as suas reflexões. Mas, ainda consegui ouvir: “O Brasil
continua na Idade Média em relação à condição da mulher. Para essas
mudanças chegarem, precisamos de pressão e conscientização.”

Creio que os três concordávamos, aí não tínhamos dúvidas! Pressão de ambas as
partes, favorecendo a reflexão. E, conscientização ampla, geral e irrestrita,
sem escamotear os argumentos espiritualistas.

Este diálogo foi retirado do opúsculo, do mesmo autor, que recebeu o título
“Antes de Votar Pergunte ao Candidato Sobre o Aborto”, que procurou responder as
questões seguintes: como age o cidadão em relação à política? Como vem sendo sua
conduta em época de eleição? Seu voto é realmente consciente? Será que o seu
candidato aceitaria o aborto de uma jovem, gestante HIV-positiva, grávida pelo
estupro? Será que ele se recusa a aceitar uma gravidez que se originou de um ato
violento? Será que ele na TV vai dizer que não devemos permitir que uma mulher
portadora do vírus da Aids fique grávida? Será que sua candidata vai dizer que
seu corpo lhe pertence e que a legislação do aborto deve dar à mulher autonomia
sobre seu corpo? Será que ele vai dizer que precisamos entrar na modernidade no
que diz respeito ao aborto e que o feto é apenas um apêndice da mãe? Que diante
de anomalias fetais graves e incuráveis o aborto seria válido? Válido onde
existem malformações múltiplas ou aberrações cromossômicas graves. Que
argumentos são utilizados para conceder validez moral ao ato da interrupção de
uma gravidez complicada por ausência dos hemiférios cerebrais (anencéfalos)?
Poder-se-ia utilizar os órgãos de um anencéfalo em outra criança? A causa é
nobre, você não acha? Pense na criança que nasceu com uma hipoplasia de
ventrícolo esquerdo e poderia viver com um novo coração transplantado.

Votar não é fácil, apertar botões não deveria ser a única preocupação dos
educadores de época de eleição.

E você, em qual das duas materialistas votaria?

(Revista Internacional de Espiritismo, Ano LXXV, número 5, pág. 349-351,
setembro, 2000.)