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Objetivo do Espiritismo e seu tríplice aspecto

Isto posto, vejamos a seguir, consoante as palavras do próprio Codificador,
como se entende o tríplice aspecto do Espiritismo, ou seja, ciência, filosofia e
religião.

I – Ciência

No Preâmbulo de O que é o Espiritismo, Kardec afirma que “O
Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos,
bem como de suas relações com o mundo corporal”.

Na mesma obra, Kardec acrescenta:

“O Espiritismo tem por fim demonstrar e estudar a manifestação dos
Espíritos, suas faculdades, sua situação feliz ou infeliz, seu futuro; em
suma, o conhecimento do Mundo Espiritual.

“… Essa crença apoia-se sobre o raciocínio e sobre os fatos. Eu próprio
não a adotei senão depois de meticuloso exame, o hábito das coisas positivas,
sondei, perscrutei esta nova ciência nos seus mais íntimos refolhos; busquei
explicar-me tudo, porque não costumo aceitar idéia alguma sem lhe conhecer o
como e o porquê”.

Em O Evangelho Segundo o Espiritismo logo na Introdução, item II,
Kardec declara:

“Uma só garantia séria existe para o ensino dos Espíritos: a concordância
que haja entre as revelações que eles façam espontaneamente, servindo-se de
grande número de médiuns estranhos uns aos outros e em vários lugares”.

Também, no livro A Gênese (Introdução) diz:

“Generalidade e concordância do ensino, tal é o caráter essencial da
doutrina, a própria condição de sua existência; do que resulta que todo
princípio que não recebeu a consagração do assentimento da generalidade não
pode ser considerado parte integrante desta doutrina, mas simples opinião
isolada da qual o Espiritismo não pode assumir a responsabilidade”.

No prefácio do livro O Fenômeno Espírita Gabriel Delanne afirma: “O
Espiritismo é uma ciência cujo fim é a dmonstração experimental da existência da
alma e sua imortalidade, por meio de comunicação com aqueles aos quais
impropriamente têm sido chamado de mortos”.

Na obra O que é a Mediunidade, de Celso Martins, consta o seguinte:

“O Espiritismo tem um aspecto científico porque estuda, à luz da razão e
usando critérios científicos, com metodologia específica, os fenômenos
mediúnicos, ou melhor, os fatos que colocam os homens em contato com os
espíritos, ocorrências estas que nada têm de sobrenatural, porque estão dentro
do contexto dos fatos naturais, nada apresentando de milagroso nem de
superstições do povo crédulo e ignorante”.

Muito esclarecedor é o texto abaixo, constante de A Gênese, Cap. I –
item 14, de Kardec:

“Como meio de elaboração, o Espiritismo procede exatamente da mesma maneira
que as ciências positivas, isto é, aplica o método experimental. Fatos de
ordem nova se apresentam, que não podem ser explicados pelas leis, conhecidas;
ele os observa, compara, analisa e, partindo dos efeitos às causas, chega à
lei que os rege, depois deduz as conseqüências e busca as aplicações úteis. O
Espiritismo não estabeleceu nenhuma teoria preconcebida; assim, não se
apresentam como hipótese nem a existência e a intervenção dos Espíritos, nem o
perispírito, nem a reencarnação, nem qualquer dos princípios da doutrina;
conclui-se pela existência dos Espíritos porque essa existência resultou como
evidência da observação dos fatos; e assim os demais princípios. Não foram dos
fatos que vieram posteriormente confirmar a teoria, mas foi a teoria que veio
subsequentemente explicar e resumir os fatos. Rigorosamente exato, portanto,
dizer que o Espiritismo é uma ciência da observação e não o produto da
imaginação. As ciências não fizeram progressos sérios senão depois que os seus
estudos se basearam no método experimental; mas, acreditava-se que esse método
não poderia ser aplicado senão à matéria ao passo que o é igualmente às coisas
metafísicas”.

II – Filosofia

Diz Kardec, no Preâmbulo de O Que é o Espiritismo:

“O Espiritismo é, ao mesmo tempo uma ciência de observação e uma
doutrina filosófica. Como ciência prática ele consiste nas relações que se
estabelecem entre nós e os Espíritos; como filosofia, compreende todas as
conseqüências morais que dimanam essas mesmas relações”.

“A Filosofia Espírita é a interpretação dos fenômenos verificados e
estudados pela Ciência Espírita. Esses fenômenos revelam ao homem a estrutura
do Universo, que é a seguinte, como vemos em O Livro dos Espíritos, de Allan
Kardec: Deus, Espírito e Matéria. Uma vez constatada essa realidade, e
descoberto o mecanismo pelo qual o Espírito se manifesta através da matéria,
cessa o trabalho da ciência, para começar a da filosofia”.

J. Herculano Pires, ainda acrescenta:

” Filosofia Espírita, como disse Kardec, pertence genericamente ao que
costumamos chamar Filosofia Espiritualista, porque a sua visão do Universo não
se prende à Matéria, mas vai até o Espírito, que considera como causa de tudo
o que percebemos no plano material. Englobando na sua interpretação
cosmológica a Ciência Espírita, e tendo como conseqüência a Religião Espírita,
a Filosofia Espírita encerra em si mesma toda a doutrina. É por isso que O
Livro dos Espíritos, obra fundamental da doutrina, não é propriamente um livro
científico ou religioso, mas um tratado filosófico”.

Em Espiritismo Básico Pedro Franco Barbosa afirma:

“O caráter filosófico do Espiritismo está, portanto, no estudo que faz do
Homem, sobretudo Espírito, de seus problemas, de sua origem, de sua
destinação. Esse estudo leva ao conhecimento do mecanismo das relações dos
Homens, que vivem na Terra, com aqueles que já se despediram dela,
tamporariamente, pela morte, estabelecendo as bases desse permanente
relacionamento, e demonstra a existência, inquestionável, de algo que tudo ria
e tudo comanda, inteligentemente – Deus”.

Assevera Celso Martins, em O que é a Mediunidade:

“O Espiritismo tem um aspecto filosófico porque, a partir dos fenômenos, dá
uma interpretação da vida, isto é, responde àquelas perguntas que apresentamos
(…) sobre o porquê da vida. De onde você veio e para onde você vai. A razão
das desigualdades que obervamos entre as criaturas. Trata-se de uma filosofia
espiritualista porque admite, repito, com base nos fatos mediúnicos e
anímicos, a existência de um princípio espiritual no Universo, além do
princípio material. Equivale dizer que o Espiritismo vê no ser humano, não
apenas o corpo material, de carne e osso, de vísceras e sangue, de nervos e
hormônios, mas também aquilo a que as religiões, há séculos, deram o nome de
alma.

“A filosofia espírita aceita que, acima destes dois princípios universais,
o material e o espiritual paira Deus, o Craidos de tudo, a inteligência
primária da Natureza inteira, um Deus que é a suprema perfeição, um Deus que é
Pai de Misericórdia e Bondade, de Justiça e Amor, que criou todos os seus
filhos para todos, sem qualquer exceção, um dia, através de seus esforços, ao
longo dos tempos, sejam, de fato, felizes”.

III – Religião

Há quem conteste o aspecto religioso do Espiritismo. Vejamos o que diz
Kardec. No livro O Espiritismo na sua mais simples expressão, claramente
ele assegura:

“Do ponto de vista religioso o Espiritismo tem por base as verdades
fundamentais de todas as religiões: Deus, a alma, a imortalidade, as penas e
as recompensas futuras, sendo, porém, independente de qualquer culto em
particular. Seu objetivo é provar àqueles que negam, ou que duvidam, que a
alma existe, que ela sobrevive ao corpo e que sofre, após a morte, as
conseqüências do bem e do mal que praticar durante a vida corpórea: o objetivo
de todas as religiões”.

Em Obras Póstumas – Primeira Parte – Manifestações dos Espíritos –
Caráter e conseqüências religiosas das manifestações dos Espíritos, há a
seguinte afirmação de Kardec:

“O Espiritismo, firmado no conhecimento de leis ainda não compreendidas,
não vem destruir os fatos religiosos, mas torná-los mais aceitáveis,
dando-lhes explicação racional. O que ele vem destruir são as falsas deduções
daquelas leis, por erro ou ignorância”.

No Livro “O Evangelho Segundo o Espiritismo” – Introdução, item I,
Kardec esclarece:

“Esta obra é para uso de todos. Dela podem todos haurir os meios de
conformar com a moral do Cristo o respectivo proceder. Aos espíritas oferece
aplicações que lhe concernem de modo especial. Graças às relações
estabelecidas, doravante e permanentemente, entre os homens e o mundo
invisível, a lei evangélica, que os próprios Espíritos ensinaram a todas as
nações, já não será letra morta, porque cada um a compreenderá e se verá
incessantemente compelido a pô-la em prática, a conselho de seus guias
espirituais. As instruções que promanam dos Espíritos são verdadeiramente as
vozes do céu que vêm esclarecer os homens e convidá-los à prática do
Evangelho”.

Nessa mesma obra, Cap. I – item 7, Kardec dispõe:

“Assim, como o Cristo disse: “Não vim destruir a lei, porém cumpri-la”,
também o Espiritismo diz: “Não venho destruir a lei cristã, mas dar-lhe
execução”. Nada ensina em contrário ao que ensinou o Cristo; mas, desenvolve,
completa e explica em termos claros e para toda gente, o que foi dito apenas
sob forma alegórica. Vem cumprir e preparar a realização das coisas futuras.
Ele é pois, obra do Cristo, que preside, conforme igualmente o anunciou, à
regeneração que se opera e prepara o reino de Deus na Terra”.

No Cap. I – item 16 de A Gênese, Kardec afirma:

“Do mesmo modo que a ciência propriamente dita tem por objeto o estudo das
leis do princípio material, o objeto especial do Espiritismo é o conhecimento
das leis do princípio espiritual …”.

No Cap. XII – item 18, acrescenta:

“Não é que o sobrenatural seja necessário às religiões, mas sim o princípio
espiritual, que erradamente se confunde com o maravilhoso, e sem o qual não há
religião possível’.

No discurso proferido na Sociedade Espírita de Paris, em 1º de novembro de
1868 e publicado na Revista Espírita de dezembro do mesmo ano, Kardec faz as
seguintes declarações:

“Dissemos que o verdadeiro objetivo das assembléias religiosas deve ser a
comunhão de pensamentos; é que, com efeito, a palavra religião quer dizer
laço. Uma religião, em sua acepção nata e verdadeira, é um laço que religa os
homens numa comunidade de sentimentos, de princípios e de crenças …”

“O laço estabelecido por uma religião, seja qual for o seu objetivo, é
pois, um laço, um laço essencialmente moral, que liga os corações, que
identifica os pensamentos, as aspirações, e não somente o fato de compromissos
materiais, que se rompem à vontade, ou da realização de fórmulas que falam
mais aos olhos do que ao espírito …”

“Se assim é, perguntarão, então o Espiritismo é uma religião? Ora, sim, sem
dúvida senhores. No sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e nós
nos glorificamos por isto, porque é a doutrina que funda os elos da
fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção,
mas sobre bases mais sólidas: as mesmas leis da natureza.

“Porque, então, declaramos que o Espiritismo não é uma religião? Porque não
há uma palavra para exprimir idéias diferentes, e que, na opinião geral, a
palavra religião é inseparável da de culto; desperta exclusivamente uma idéia
de forma, que o Espiritismo não tem. Se o Espiritismo se dissesse uma
religião, o público não veria aí senão uma nova edição, uma variante, se se
quiser, dos princípios absolutos em matéria de fé; uma casta sacerdotal com
seu cortejo de hierarquias, de cerimônias e de privilégios; não o separaria
das idéias de misticismo e dos abusos contra os quais tantas vezes se levantou
a opinião pública”.

Como se vê, o Espiritismo não é religião no sentido tradicional da palavra
religião.

Concluímos que o Espiritismo não tem culto material exterior nem sacerdócio
organizado, como as religiões tradicionais; no entanto, possui um conteúdo
moral, ligando os homens entre si e seu criador.

Leitura Complementar:

  1. Espiritismo Básico – Pedro Franco Barbosa – FEB.
  2. O que é a Mediunidade – Celso Martins – Leymarie.
  3. Vida e Obra de Allan Kardec – André Moreil – EDICEL.
  4. Recordando Deolindo Amorim – Celso Martins – Gráfica e Editora do
    Lar/ABC do Interior
  5. Kardec, irmãs Fox e outros – Jorge Rizzini – EME.
  6. O Mistério do Bem e do Mal – J. Herculano Pires – Ed. Correio
    Fraterno.
  7. Ciência Espírita – J.Herculano Pires – Ed. Paidéia.
  8. O Infinito e o FinitoCrônicas – J.Herculano Pires – Ed.
    Correio Fraterno
  9. Evolução para o Terceiro Milênio – Carlos Toledo Rizzini – EDICEL.
  10. Religião – Carlos Imbassahy – FEB.

 

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