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Espiritismo: Uma Questão de Atitude?

Espiritismo: Uma Questão de Atitude?

«Quando a Ciência sai da observação material dos factos e trata de
apreciá-los e explicá-los, abre-se para os cientistas o campo das conjecturas;
cada um constrói o seu sistemazinho que deseja fazer prevalecer e sustenta
encarniçadamente. Não vemos diariamente as opiniões mais contraditórias serem
preconizadas e rejeitadas, repelidas como erros absurdos e depois proclamadas
como verdades incontestáveis? Os factos, eis o verdadeiro critério dos nossos
julgamentos, o argumento sem réplica. Na ausência dos factos, a dúvida é a
opinião do homem prudente.»
(Allan Kardec, «O Livro dos Espíritos», edição CEPC, p.40, Lisboa, 1979)

Deixemo-nos de rodeios, o problema de saber se o espiritismo é ou não uma
ciência continua tão actual como antes. Deve, no entanto, ser reformulado. Não
se trata apenas de um problema epistemológico (epistemologia: estudo das
ciências, a disciplina filosófica que estuda as condições em que um saber pode
ser considerado ciência), é sobretudo um problema que envolve questões que vão
da natureza do saber humano às suas condições de verdade efectiva.

Kardec percebeu perfeitamente que o problema envolvia a própria estrutura da
racionalidade humana, e nisso antecipou as principais correntes da epistemologia
contemporânea, em especial de Popper, Bachelard ou ainda Feierhabend. Detentor
de uma racionalidade arguta, experimentado no rigor da exigência do trabalho
científico. Kardec não ignorava que os limites da investigação científica
deveriam ser equacionados, quando se trata de factos cuja natureza ultrapassa a
ordem fixista dos factos materiais, e rompem com as barreiras de um mundo
simplista, positivista, sensível.

Uma nova ordem de fenómenos obriga a novos métodos, em consequência a uma
nova posição da racionalidade. Os laboratórios humanos provaram, no tocante aos
fenómenos espíritas, não serem recursos absolutos, tão-pouco critério de
investigação universal no estudo de acontecimentos que dominavam ao invés de
serem dominados, que ditavam as regras de aproximação à verdade das leis
desconhecidas através das quais demonstravam reger-se. Surge então a primeira
consequência epistemológica de peso: em investigação espírita não é o método que
subordina o objecto em estudo, mas o objecto que dita as condições de adequação
do método; em termos práticos a consequência é esta: o método experimental, tal
como era conhecido ao tempo de Kardec, um método que tinha por principal
objectivo analisar fenómenos em bruto, que os nossos sentidos podem
experimentar, dominar, manipular em laboratório, sem qualquer intervenção da
subjectividade humana, cujos resultados pudessem ser generalizados, e cuja
receptividade fosse evidente, não tem razão de ser para fenómenos cuja natureza
ultrapassa as fronteiras do mundo sensível. Logo, era preciso reavaliar o
método, e criar, dentro das exigências exequíveis deste, um método mais
dinâmico, capaz de oferecer um quadro lógico-racional, científico, sustentado
por uma teoria sólida. Foi o que Charles Richet, Prémio Nobel de Fisiologia,
famoso pela sua teoria Metapsíquica das manifestações paranormais, reconheceu na
forma original de Kardec abordar a investigação dos fenómenos espíritas:
«…rigorosamente científica».

O problema é saber se com tais exigências o objecto de investigação do
espiritismo, o espírito, pode ainda ser considerado positivo a ponto de se poder
submeter a tratamento científico. Na verdade há uma limitação essencial no
objecto da ciência: a ciência não trata da «existência» dos seus objectos, esse
é um problema da ontologia ou da metafísica, domínios específicos da especulação
filosófica. A ciência trata de relações entre os fenómenos, das suas leis ou
regularidades. Por este facto, um cientista pode com efeito deter-se nos
domínios estritos dos fenómenos, compreendendo o seu funcionamento, porém,
quando se trata de alargar o campo das suas conjecturas à essência dos fenómenos
ele perde a sua autoridade como cientista, e torna-se possivelmente filósofo. É
justamente por esta razão que a questão da cientificidade do espiritismo não é
fácil. Kardec percebeu que em certos domínios «…o Espiritismo não é da alçada
da ciência», ele era com efeito o cientista experimentado, nos métodos e no
exame crítico dos pressupostos científicos, levou até onde lhe foi possível o
trabalho científico do espiritismo, mas confrontou-se com algo mais do que meras
relações entre fenómenos, ele confrontou-se com «existências» que apresentavam
essências diversas resultantes das diferenças entre estádios de desenvolvimento
intelectual e moral que os espíritos apresentavam.

A teoria espírita não é apenas o produto de uma mente brilhante que
organizou, comparou, investigou, metódica e sistematicamente, o que as vozes por
detrás de tais fenómenos informavam — é a consequência rigorosa de uma atitude
experimental e dinâmica, precursora da mais recente atitude científica
contemporânea. Pode então dizer-se que o espiritismo é ciência? Creio que pode
dizer-se que a Teoria Espírita é científica no sentido em que se sustenta em
procedimentos rigorosamente científico-experimentais, no quadro admissível do
que hoje é considerado científico, mas completa-se em múltiplos aspectos de
natureza antropológica: éticos, sociais, psicológicos, etc., porque o seu
objectivo fundamental não era constituir-se como ciência autónoma, mas como
sistema integrador de referências culturais que promovessem em todas as
dimensões a realização do espírito humano.

Kardec não chegou à conclusão da existência de espíritos com base em
conjecturas metafísicas. A sua base é rigorosamente metafísica, é a partir dela
que Kardec sustenta a metafísica espírita, procedimento igualmente comum a
físicos e astrofísicos contemporâneos como Kapra, Prigogine, P. Davis, entre
outros, que ao investigar os assombrosos enigmas da matéria e do universo ousam
conjecturar em domínios que ultrapassam ou, quem sabe, aproximam tais saberes à
metafísica. É um procedimento natural à racionalidade humana que insiste em
vencer os seus limites (Kant), mas em Kardec perfeitamente justificado, pois
tais enigmas têm rosto, têm voz, abrem efectivamente as portas do desconhecido
de uma forma surpreendente. A descoberta de novos universos e sobretudo a
desmistificação da morte como fenómeno de aniquilação total do ser são a
consequência doutrinal do tratamento experimental que Kardec deu à fenomenologia
espírita espontânea. Consequências de peso inegável.

Outros princípios básicos da epistemologia espírita sustentam o seu espírito
científico: «Sempre que a ciência provar que o Espiritismo está errado nalgum
dos seus pontos, o Espiritismo o abandonará e seguirá a Ciência» (L.E.) e «…os
espíritos são os homens e as mulheres que viveram na Terra, a sua sabedoria tem
limites, podem enganar-se…»(L.M.), há factores espácio-temporais e de
desenvolvimento intelectual e moral dos espíritos que determinam estes limites,
em muitos casos são inultrapassáveis. Esta abertura ao rigor, esta exigência de
cientificidade destaca o espiritismo de outras doutrinas espiritualistas. É o
seu positivismo e exigência de racionalidade que o torna único entre as demais
doutrinas, facto que, aliás, é relevante na análise de Kardec à fenomenologia
espírita: «aceitar somente o que é racional e logicamente sustentável –
suspender o juízo quando se tratam de revelações que ultrapassam a nossa
capacidade de análise e de compreensão dos fenómenos». Note-se que esta não é
uma atitude de prepotência da razão humana: o espiritismo não nega o mistério, a
fé ou outros pressupostos dos espiritualismos dominantes. Não pode, contudo,
aceitar que os mesmos se constituam como alternativas à ciência,
comparativamente, num mesmo plano de conhecimento – não se trata de prepotência,
mas de prudência.

Na perspectiva espírita não há confusão de planos. Fé aceitável é aquela que
enfrenta a razão «face a face» em todas as épocas da humanidade. Se a Teoria
Espírita negasse a sua raiz científica, negar-se-ia a si própria, seria
seguramente mais uma entre as muitas aventuras da imaginação humana, nunca uma
doutrina de inegável valor e utilidade para o sentido de plenitude a que o homem
aspira. Por tudo isto, ser espírita não é apenas uma questão de atitude, é
sobretudo uma questão de fundamentos, uma posição epistemológica fundada em
critérios rigorosos, positivos, de racionalidade e de lógica do conhecimento
inovadores.

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