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História do Cristianismo XII

 

História do Cristianismo XII

1 – O Período da Escolástica

A invasão dos bárbaros, no séc. V, destruiu no Ocidente a civilização romana
e iniciou a Idade Média. Os bárbaros, que irromperam de todos os lados,
provocaram novas condições políticas e sociais adversas à conservação e ao
desenvolvimento da cultura intelectual. Por isso, os quatro primeiros séculos da
Idade Média são obscuros, um período de estagnação intelectual em que não houve
filosofia propriamente dita, mas houve a preocupação de salvar os restos da
cultura que estava sendo arruinada pelas hordas dos visigodos, suevos,
ostrogodos, francos e principalmente vândalos.

O grande trabalho dos intelectuais dos primeiros séculos medievais, portanto,
não foi criador, mas compilador. E este trabalho se deve principalmente aos
monges, que recolheram em seus conventos muitos manuscritos antigos, que
encerravam as sabedorias dos séculos anteriores. Aos poucos, porém, os bárbaros,
vencedores, acomodaram-se à nova situação política e passaram a aceitar os usos
e costumes dos povos vencidos, convertendo-se ainda ao Cristianismo. Com isso
houve um ressurgimento da cultura e gradativamente as manifestações científicas
e filosóficas apareceram, predominando então a “Escolástica”, como principal
corrente filosófica.

A Escolástica, como dito acima, são doutrinas teológico-filosóficas
dominantes na Idade Média, dos séc. IX ao XVII, caracterizadas sobretudo pelo
problema da relação entre a fé e a razão, problema que se resolve pela
dependência do pensamento filosófico, representado pela filosofia greco-romana,
à teologia cristã. Desenvolveram-se na escolástica inúmeros sistemas que se
definem, do ponto de vista estritamente filosófico, pela posição adotada quanto
ao problema dos universais e dos quais se destacam os sistemas de Santo
Anselmo (anselmiano), de São Tomás (tomismo) e de Guilherme de
Occam (occamismo).

Inicia-se um período de florescimento intelectual, no séc. XIII, o século
clássico da Idade Média e um dos mais importantes da história da filosofia. A
filosofia escolástica cristã, a filosofia árabe e a judaica, mais o
aristotelismo passaram a ser as grandes fontes da Escolástica. É um período de
esplendor em todas as manifestações humanas: na arquitetura, na pintura, na
literatura, nas ciências é o século da introdução da álgebra e dos algarismos
arábicos no Ocidente e do emprego da bússola. É também este o período de
esplendor da Escolástica. Para isso, três foram os fatores fundamentais: a
fundação das Universidades, o estabelecimento das ordens mendicantes dos
dominicanos e dos franciscanos e o conhecimento da obra filosófica de
Aristóteles.

No início do séc. XIII, surgiu a Universidade de Paris, resultado da reunião
das quatro faculdades: de teologia, de artes (filosofia), de direito e de
medicina. Pouco depois, mais ou menos modeladas na de Paris, surgem as
Universidades de Oxford e Cambridge, na Inglaterra; Bolonha e Pádua, na Itália;
Salamanca, na Espanha; Colônia e Heidelberg, na Alemanha, e Coimbra em Portugal.
Nessas universidades, grandes centros intelectuais que perduram até hoje,
mantinham-se vivas as tradições platônicas e agostinianas e cultivava-se o
aristotelismo.

Em princípios do séc. XIII, fundaram-se as duas grandes ordens mendicantes
dos franciscanos e dos dominicanos. Após grandes polêmicas com os seculares,
conseguem estes padres algumas cátedras na Universidade de Paris e acabam depois
dominando o ambiente universitário. Dentre os maiores filósofos franciscanos
apareceram: Alexandre de Halles, o primeiro mestre franciscano; São Boaventura,
Rogério Bacon, Duns Scoto e Guilherme de Occam. Dentre os dominicanos: São
Alberto Magno, São Tomás de Aquino e o mestre Eckehart.

O conhecimento de Aristóteles foi o fator mais importante para o apogeu da
Escolástica do séc. XIII. Nos séculos anteriores, a única obra conhecida de
Aristóteles era o “Organon”. Em princípios do séc. XIII toda a enciclopédia
aristotélica foi divulgada. A princípio, passando por traduções imperfeitas,
oriundas do árabe ou hebraica, foram proibidas pelas autoridades eclesiásticas
em 1215, sendo mais tarde, por volta de 1254, traduzidas diretamente do grego,
sendo incorporadas pela Universidade de Paris.

Depois de uma época de decadência (séc. XVIII e primeira metade do séc. XIX)
o tomismo renasceu sob a denominação de neotomismo. Objeto de condenações da
autoridade eclesiástica, em vida de santo, tornar-se-ia mais tarde, sem excluir
totalmente o agostinismo, a filosofia oficial da Igreja, cujo estudo seria
recomendado pelo papa Leão XIII.

2 – O Tomismo

O Tomismo – doutrina escolástica de Tomás de Aquino adotada oficialmente pela
Igreja Católica – se caracteriza, sobretudo, pela tentativa de conciliar o
aristotelismo com o cristianismo, rompendo com todas as doutrinas que não se
harmonizavam com os princípios da filosofia aristotélica.

A obra de Tomás de Aquino, dividida em partes, tratados, questões e artigos,
objeções e respostas, em rigorosa ordem numérica, reflete, em sua estrutura, a
composição do mundo feudal, dividido em classes e em estamentos rigidamente
estratificados. Expressão do apogeu do mundo medieval, contemporânea dos
castelos e das catedrais, o tomismo é uma catedral de idéias, em que a teologia
do séc. XIII encontrou sua mais coerente e sólida formulação. No entanto, não
foi geralmente aceito pelos escolásticos medievais; os adeptos de Dun?s Scotus
combateram o seu intelectualismo e os nominalistas o realismo. Somente na
segunda metade do séc. XVI foi reconhecido como arma de defesa e ataque da
Contra-Reforma.

Tomás de Aquino apresentou a solução definitiva do problema das relações
entre a razão e a fé. Trata-se de duas ciências: a filosofia e a teologia; a
primeira funda-se no exercício da razão humana; a segunda, na revelação divina.
São duas ciências independentes, mas que apresentam às vezes o objeto material
comum: a existência de Deus, a essência da alma, etc. A distinção entre essas
ciências deriva mais do objeto formal, pois a teologia estuda o dogma pelo
método da autoridade ou revelação, ao passo que a filosofia o considera por
demonstração científica ou pela razão.

Teologia e filosofia não se contradizem, ambas procuram a verdade e esta é
uma só. A revelação é critério da verdade. No caso de uma contradição entre a
razão e a revelação, o erro não será nunca da teologia, mas deve ser atribuído à
filosofia, pois nossas limitações cognoscitivas (1) racionais
se extraviaram e não conseguiram chegar à verdade.

A Teodicéia é a especulação filosófica para provar a existência de Deus.
Tomás de Aquino sustenta que nada está na inteligência que não tenha estado
antes nos sentidos, razão pela qual não podemos ter de Deus, imediatamente, uma
idéia clara e distinta. A fim de provar sua existência, Tomás procede a
posteriori
, partindo não da idéia de Deus, mas dos efeitos por Ele
produzidos. Assim, elege o mundo sensível como ponto de partida, cuja existência
é dada pelos sentidos e utiliza a metafísica Aristotélica, revelando o seu gênio
sintético ao demonstrar a existência de Deus, de cinco modos, que são as famosas
cinco vias, que assim se resume:

1a. – A do “Movimento”– É o argumento aristotélico do primeiro motor.
(“não é possível admitir uma série infinita de seres que se movem, movendo por
sua vez outros seres; logo, é preciso chegar a um motor que mova sem ser
movido.”). O movimento existe e é uma evidência para os nossos sentidos; ora,
tudo o que se move é movido por outro motor; se esse motor, por sua vez, é
movido, precisará de um motor que o mova, e, assim, indefinidamente, o que é
impossível, se não houver um primeiro motor imóvel, que move sem ser movido, que
é Deus.

2a. – A da “Concatenação das Causas”– Tudo está sujeito à lei de causa
e efeito. Há, pois, uma série de causas eficientes, causas e efeitos, ao mesmo
tempo; ora, não é possível remontar indefinidamente na série das causas; logo,
há uma causa primeira, não causada, que é Deus.

3a. – A da “Contingência”– Todos os seres que conhecemos são finitos e
contingentes, pois não têm em si próprios a razão de sua existência, são e
deixam de ser; ora, se são todos contingentes, em determinado tempo deixariam
todos de ser e nada existiria, o que é absurdo; logo, os seres contingentes
implicam o ser necessário, ou Deus.

4a. – A dos “Graus de Perfeição”– Todas as perfeições admitem graus,
que se aproximam mais ou menos das perfeições absolutas. Deve, pois, haver um
ente sumamente perfeito, é o ente supremo – Deus.

5a. – A da “Ordem Universal”– Todos os entes tendem para uma ordem,
não por acaso, mas por uma inteligência que os dirige; há, pois, um ente
inteligente que ordena a natureza e a impele para o seu fim. Esse ente
inteligente é Deus.

Desses conceitos, Tomás de Aquino conclui quanto podemos conhecer sobre a
natureza e os atributos de Deus. Observa, porém, que esse conhecimento é
imperfeito; sabemos que “Deus é”, mas não “O que é”. Apesar disso, podemos
compreender que Deus é eterno, infinito, onisciente, onipotente e em suas
relações com o mundo é Criador e Providência.

A doutrina tomista admite que a alma, princípio espiritual, junta-se ao
corpo, princípio material, constituindo um composto substancial. Assim, tem uma
alma as plantas, é a “alma vegetativa”, com as funções de alimentação e
reprodução; nos animais, é a “alma sensitiva”, com as funções anteriores, mais a
sensação e mobilidade; finalmente, o homem com todas as funções anteriores, mais
a racional. No concernente às propriedades da alma humana, admite o
livre-arbítrio, que é estudado sob todos os seus aspectos e todos os problemas
dele derivados são resolvidos com firmeza e profundidade. Tomás de Aquino
considera ainda a inteligência como a faculdade mais perfeita de nossa alma.

Com sua Ética, também harmoniza a doutrina de Aristóteles aos princípios
cristãos. Assim, a ética é o “movimento da criatura racional para Deus”. Esse
movimento visa a uma bem-aventurança, que consiste na contemplação imediata de
Deus. Diverge da teoria agostiniana e se harmoniza com a aristotélica no que se
refere à teoria do conhecimento. Para Tomás de Aquino, o conhecimento tem dois
momentos: o sensitivo e o intelectual. O conhecimento sensitivo do objeto, que
está fora de nós, dá-se mediante a sensação. Esta é a impressão do objeto
material em nossa consciência. Processa-se pela assimilação das sensações do
sujeito cognoscente com o objeto conhecido. O conhecimento intelectual depende
do conhecimento sensitivo, mas ultrapassa-o, pela abstração e generalização,
formulando os conceitos.

Tomás de Aquino é considerado o maior gênio da Escolástica. Criou um sistema
filosófico sintético, coerente, fundamentado em Aristóteles, e reformulou todo o
pensamento cristão.


(1) Cognoscitivas – Que tem a faculdade de conhecer.


TEXTOS EXTRAÍDOS DE:

  • Enciclopédia Britânica.
  • Enciclopédia Barsa.
  • Coletânea de Textos Filosóficos – ACEEF – U.E.C.
  • Ensinamentos Básicos dos Grandes Filósofos – S.E.Frost Jr.

(Publicado no Boletim GEAE Número 419 de 12 de junho de 2001)

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