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Mecanismo da evolução

“Não andeis solícitos pelo que haveis de comer e de vestir – procurai em
primeiro lugar o reino de Deus e sua justiça, e todas as outras coisas vos serão
dadas de acréscimo”
– Jesus

As palavras acima, no entender do homem prático, inexperiente das questões espirituais,
pouco afeito ao estudo das questões do Espírito, parecem expressão de um grande
idealismo, mas sem sentido para a vida cotidiana. E, aparentemente, tem razão em
não aceitar esse idealismo espiritualista, pois vemos todos os dias que essa focalização
unilateral da consciência espiritual não realiza as coisas materiais das quais temos
incessante necessidade. Raciocina a pessoa envolta em dificuldades de toda ordem
(o pagamento do aluguel, a aquisição dos bens necessários à sobrevivência, enfim
necessidades de todo tipo) e conclui que o mais urgente, o que resolve, é atender
aos deveres da vida material. Há também infinidade de casos de pessoas que não foram
previdentes, não planejaram suas vidas, não cuidaram das provisões necessárias,
e quando vem a dificuldade, como doenças, idade avançada, etc., sofrem falta de
recursos para atendimento dessas necessidades. Em conseqüência, muitas vezes, passam
a depender de terceiros (parentes, ou amigos), ou passam a sobrecarregar a economia
social.

Reflitamos, pois, nos ensinos de Jesus. Ele não nos recomenda o desleixo, o não
cumprimento de nossos deveres no plano físico. E sim nos esclarece que não devemos
cuidar, somente, das necessidades do corpo. Mas isto não implica em ser imprevidente.
Pouco cuidadoso no cumprimento dos deveres da vida humana. Em outra oportunidade,
perguntado, Jesus respondeu que se deve “dar a César o que é de César e a Deus o
que é de Deus”, ou seja, devemos atender aos deveres materiais sem descurar dos
deveres espirituais.

A recomendação para buscarmos em primeiro lugar o reino de Deus nos alerta que
os valores espirituais estão acima dos valores materiais, mas não são os únicos.
Enquanto estamos no plano físico, precisamos atender as necessidades deste plano,
sem descuidarmos dos deveres espirituais. Mesmo porque atendendo as tarefas do campo
material, o Espírito está realizando sua evolução. Quando a pessoa se prepara para
a vida profissional; quando procura desempenhar bem seus deveres no trabalho, na
família, na sociedade está realizando seu aprendizado, seu desenvolvimento espiritual.
Entretanto, poucos tem consciência de que é um Espírito, vivendo temporariamente
na Terra, e que ao voltar para a vida espiritual só levará consigo o que aprendeu,
as experiências, e o resultado de suas ações. A grande maioria se ocupa quase exclusivamente
nas questões materiais, atribuindo a estas o primeiro lugar na escala de valores.
Daí, o alerta do Mestre: O mais importante é o Espírito. Buscar sua evolução e viver
de acordo com as leis divinas é a finalidade da vida.

E quanto aos que se dedicam aos interesses do Espírito, através da oração, do
estudo e da prática do bem, será que os bens materiais para atendimento de suas
necessidades vem como conseqüência?

Para compreendermos esta questão lembremos que somos um Espírito animando uma
carne. E que todas as nossas necessidades estão relacionadas com a carência de evolução
espiritual. À medida que resolvemos o problema do Espírito, pela educação, pela
evolução, todos os outros problemas vão se solucionando naturalmente. Os outros
problemas existem para impulsionar a evolução espiritual. A própria existência no
plano físico, e as dificuldades a ela ligadas, são inerentes à necessidade de desenvolvimento
espiritual. Uma vez desenvolvidas as potencialidades do Espírito, realizada a perfeição
relativa que ele é capaz, não terá mais necessidade de reencarnar, o que só o fará
no cumprimento de missões, ou seja de tarefas importantes a benefício do seu próximo.
Portanto, quando o Espírito atingir essa condição, não haverá mais dificuldades
de ordem material, ou outra qualquer, pois, conhecendo plenamente as leis de Deus,
e vivendo em total harmonia com elas terá uma vida plena.

Huberto Rohden, no livro “Educação do Homem Integral” conta do espanto de certos
indianos primitivos das montanhas quando, em casa de um missionário americano, viram
“sair água da parede”. Eles, os nativos, só conheciam água a sair da terra, no meio
das montanhas ou nas florestas. E agora, como é que água sai de uma parede seca?
É o caso de todos os profanos inexperientes: enxergam o trecho final do conduto,
nada sabem do trecho inicial, de alguma nascente distante, que nunca viram. O homem
profano sabe que o pão vem do cereal e de outros produtos da terra; sabe que esse
cereal tem de ser plantado num solo fértil. Mas o que há além do cereal e do solo?
Será que nesses fatores visíveis e imediatos está a primeira origem do pão?

“Quando o homem descobre que há uma Fonte perene para além de todos os seus canais
intermitentes, que essa Fonte perene é inesgotável e flui dia e noite, então não
há nenhuma necessidade de que o homem deite água nos encanamentos das suas previdências
humanas, porque descobriu a Fonte da Previdência divina; descobriu a Fonte Absoluta
para além de todos os seus canais relativos. E, uma vez ligado à Fonte perene do
Infinito, o canal finito, pode o homem viver na certeza de que nunca faltará água
na torneira. E, pela primeira vez, compreende o homem que o “reino de Deus e sua
justiça” é a Fonte perene do Absoluto e Infinito, e que “todas as outras coisas”,
todas as necessidades da sua vida material, fluem espontaneamente dessa Fonte”.

(Jornal Verdade e Luz Nº 187 de Agosto de 2001)