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O Castigo Será Eterno?

O Castigo Será Eterno?

É comum vermos as expressões: “a Bíblia diz”, “a Bíblia fala”, “porque está na
Bíblia”, “a Bíblia emprega a palavra tal em tal sentido”, etc., como se ela fosse
um ser vivo com capacidade de pensar e até de se expressar. Não entendem alguns
teólogos, principalmente os dogmáticos, que na verdade foram os autores bíblicos
que pensaram e se expressaram, e ao longo do tempo, foi ela, por força da afirmativa
de ser “a palavra de Deus”, adquirindo essa vida própria.

Se tivermos mente aberta, para analisar seu conteúdo, veremos que existem várias
passagens que não podem, de forma alguma, ser atribuídas a Deus. Isso, por outro
lado, colocaria em cheque a questão de ser ela somente a palavra de Deus. Ora, como
ela fazia parte dos rituais religiosos, era lida nos templos, e esses rituais assumem,
em todos os tempos e lugares, um caráter sagrado, assim, a Bíblia, adquiriu também
o caráter de Sagrada, passando a ter, por isso, a denominação de Bíblia Sagrada,
como a conhecemos hoje.

Devemos, para extrair a verdade que ela contém, analisar os fatores culturais
e os de época que, de maneira irrefutável, influenciaram os autores bíblicos. Sabemos
que muitas pessoas não admitem essas coisas, mas não podemos compactuar com a ignorância,
e deixar as coisas como estão. Assim, para o próprio bem dela, devemos mostrar que
determinadas coisas foram mudando de sentido (ou significado) com o passar dos tempos.

De uma maneira geral, para o ser humano, parece ser muito mais fácil acreditar
em algo, mesmo que ele não exista, do que mudar o seu pensamento a respeito de alguma
coisa em que ele já acredita. Assim, com certeza, o que iremos colocar não será
ouvido por muitos. E talvez sejamos execrados por outros, além de aqueles que irão
nos mandar “arder no mármore do inferno”. Mas, nada disso nos fará silenciar diante
do que nossa consciência nos diz para fazer, já que buscamos “a verdade que liberta”,
não a que querem a todo custo nos impor. Achamos isso uma afronta à nossa inteligência,
pois agem como se ninguém, a não serem eles, tivesse capacidade de pensar.

O primeiro mandamento divino dado ao homem, nós vamos encontrá-lo em Gn
2, 16-17: “E Javé Deus ordenou ao homem: ‘Você pode comer de todas as árvores
do jardim. Mas não pode comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque
no dia em que dela comer, com certeza morrerá’”.
Aqui a pena para a desobediência
ao mandamento foi a morte. Relaciona-se, pois, a uma situação presente, e não para
o futuro.

Mas, estranhamente, as penas impostas, é o que se supõe, ao primeiro casal humano
foram: a) mulher: parir com dor, paixão que a arrastaria para o marido (graças a
Deus), e que seria dominada por ele; b) homem: ter que trabalhar até o “suor do
rosto”, para tirar da terra os produtos dos quais deveria alimentar-se, e voltar
ao pó, ou seja, morrer. Devemos observar que todos os castigos impostos estão relacionados
à sua vivência diária, nada de vida após a morte.

Quando o povo hebreu estava no Deserto de Sur, após a sair da escravidão no Egito,
Deus disse: “Se você obedecer a Javé seu Deus, praticando o que Ele aprova, ouvindo
seus mandamentos e observando todas as leis, eu não mandarei sobre você nenhuma
das enfermidades que mandei sobre os egípcios
”. A pena para a desobediência
seriam as enfermidades, ou seja, coisas, também, para uma vida terrena.

Diante do Monte Sinai, é que Deus aparece a Moisés, e lhe entrega as tábuas com
os Dez Mandamentos. Nessa ocasião, Moisés, apresenta ao povo várias outras normas
de conduta, dizendo ser por ordem de Javé, muitas das quais a morte era a pena a
ser aplicada ao infrator, contrariando a determinação de “não matarás”, contidas
nas duas Tábuas que acabara de receber, as quais ainda deveriam estar debaixo de
seus braços, e até aqui não foi estabelecida nenhuma penalidade para os infratores.

Em Levítico, cap. 26, Deus fala das bênçãos e maldições, como conseqüência do
cumprimento ou não dos Seus Estatutos e Suas normas, é aí que são estabelecidas
as penalidades para a desobediência. Podemos observar que todas as bênçãos prometidas
por Deus não é o céu que as religiões dizem ser o destino dos que seguem fielmente
a Deus. Todas as recompensas prometidas estão relacionadas a uma vida terrena, não
a uma vida futura no céu.

Mesmo em relação às penalidades (maldições), os castigos são sempre relacionados
com a vida aqui na terra, ou seja, na vida presente. Apesar das penas serem extremamente
rigorosas, nada de inferno para ninguém. E é até importante ressaltar que, se Deus
dá vários castigos cada vez maiores, se a expressão “sete vezes mais” foi utilizada
por quatro vezes é porque espera a recuperação do infrator, por mais tardia que
seja. E, ao final, ainda diz que “não os rejeitarei, nem os desprezarei até o
ponto de exterminá-los
”, ou seja, mesmo que errem muito, Deus possui uma enorme
comiseração para com os infratores. Excluindo, portanto, qualquer idéia de penas
eternas. É o que também podemos deduzir de Ezequiel 33, 11: “Não sinto nenhum
prazer com a morte do injusto. O que eu quero é que ele mude de comportamento e
viva”.

Em Deuteronômio, cap. 25, encontramos essa interessante passagem: “Quando
houver demanda entre dois homens e forem à justiça, eles serão julgados, absolvendo-se
o inocente e condenando-se o culpado. Se o culpado merecer açoites, o juiz o fará
deitar-se no chão e mandará açoitá-lo em sua presença, com número de açoites proporcional
à culpa. Podem açoitá-lo até quarenta vezes, não mais; isso para não acontecer que
a ferida se torne grave, caso seja açoitado mais vezes, e seu irmão fique marcado
diante de vocês”.

Merecem comentários:

  • “absolvendo-se o inocente”: isto significa que não se deve condenar um inocente.
  • “condenando-se o culpado”: por questão de justiça o culpado deverá ser condenado.
  • “se o culpado merecer açoites”: sinal que pode haver situação especial em
    que o culpado não mereça receber um castigo, uma repreensão poderia, talvez, ser
    mais útil.
  • “o juiz… mandará açoitá-lo em sua presença”: a presença pessoal do Juiz
    indica a necessidade de se ter certeza do cumprimento da pena, se o culpado a
    merecer.
  • “com número de açoites proporcional à culpa”: sendo o castigo proporcional
    à culpa, significa que não poderá haver pena igual para todos os tipos de infração
    à lei.
  • “podem açoitá-lo até quarenta vezes, não mais”: significa, incontestavelmente,
    que tudo tem um limite, que a pena não poderá ser eterna.

No livro de Isaías, lemos: “Se absolvermos o malvado, ele nunca aprende
a justiça; sobre a terra ele distorce as coisas direitas e não vê a grandeza de
Javé”.
A idéia central da passagem vai de encontro ao simples perdão, como pensam
alguns, já que se diz ser necessário “castigar” o culpado, para que ele, efetivamente,
possa aprender a justiça.

Em Eclesiastes encontramos: “Ao sair, eles verão os cadáveres daqueles que
se revoltaram contra mim, porque o verme que os corrói não morre jamais e o fogo
que os consome jamais se apaga”. A mão de Javé se manifestará para os seus servos,
mas se indignará contra seus inimigos. Porque Javé vem com fogo, e seus carros parecem
furacão, para desabafar sua ira com ardor e sua ameaça com chamas de fogo. É com
fogo que Javé fará justiça sobre toda a terra, e com sua espada ameaça o mundo todo:
são muitas as vítimas que ele faz”.
É dessa passagem que as correntes religiosas
buscam sustentar o “inferno eterno”, entretanto, se bem observamos, é apenas uma
figura de linguagem, sendo portanto um simbolismo, não uma coisa objetiva.

O fogo é considerado um elemento purificador. E eterno designar um período determinado
apesar da incerteza de sua duração. Assim, a expressão “fogo eterno” poderia, dentro
da perspectiva de que a “misericórdia triunfa sobre o juízo” (Tg 2, 13),
ser entendida como um período de purificação, do qual não se sabe o fim, nada mais
que isso. Podemos comprovar usando a passagem Salmos 103, 8-9: “O Senhor é misericordioso
e compassivo; longânimo e assaz benigno. Não repreende perpetuamente, nem conserva
para sempre a sua ira”.

Chegamos a uma interessante conclusão: que apesar da palavra inferno constar
da Bíblia, não o podemos aceitar a não ser no sentido de “um longo tempo de purificação”,
o que se confunde com o conceito de purgatório, que somos forçados a aceitar, mesmo
não constando da Bíblia, já que alguém poderia alegar isso.

Jesus ao dizer: “daí não sairá, enquanto não pagar até o último centavo”
(Mateus 5, 26) e “O patrão indignou-se, e mandou entregar esse empregado aos
torturadores, até que pagasse toda a sua dívida”
(Mateus 18, 34) deixa claro
que até pagar a dívida ou o último centavo seria o tempo em que o devedor ficaria
preso ou entregue aos torturadores, não mais que isso, abolindo, portanto, a idéia
do inferno eterno.

As religiões dogmáticas, ao invés de desenvolverem em seus adeptos a idéia de
um Deus de amor, para que cada um passe a verdadeiramente amá-Lo, e assim deixem
de praticar o mal por amor, confundem-nos com ameaças do inferno, num sentido incompatível
com o amor de Deus para conosco, deixando seus fiéis em dúvidas sobre o que mesmo
seguir. Usam de uma psicologia negativa, querendo que Deus seja TEMIDO, isso é puro
TERRORISMO RELIGIOSO.

Paulo da Silva Neto Sobrinho

Abril/2002.

Bibliografia:

  • Bíblia Anotada = The Ryrie Study Bible/Texto bíblico: Versão Almeida,
    Revista e Atualizada, com introdução, esboço, referências laterais e notas por
    Charles Caldwell Ryrie; Tradução de Carlos Oswaldo Cardoso Pinto, São Paulo: Mundo
    Cristão -, 1994;
  • Bíblia Sagrada, Editora Ave Maria, São Paulo, 1989, 68a. Edição;
  • Bíblia Sagrada, Edição Pastoral, Sociedade Bíblia Católica Internacional
    e Paulus, 14a. impressão, 1995;
  • Bíblia Sagrada, Edições Paulinas, São Paulo, 37a. Edição, 1980;
  • Bíblia Sagrada, Editora Vozes, Petrópolis, 1989, 8a. Edição;
  • Novo Testamento, LEB – Edições Loyola, São Paulo, SP, 1984;
  • Dicionário Bíblico Universal, L.Monloubou e F.M. Du Buit – Petrópolis,
    RJ, Vozes, Aparecida, SP: Editora Santuário, 1997;
  • A História da Bíblia, Hendrik Willen Val Loon, tradução de Monteiro
    Lobato, São Paulo, Ed. Cultrix, 1981;
  • Enciclopédia Encarta (Eletrônica).

 

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