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O Espiritismo é uma Ciência?

Paulo Antonio Ferreira

Na Introdução de O Livro dos Espíritos1, item VII, Kardec se pronuncia sobre a Ciência dizendo:

“As ciências positivas repousam sobre as propriedades da matéria, as quais podem ser experimentadas e manipuladas à vontade; os fenômenos espíritas repousam sobre a ação de inteligências que têm vontade própria e que a todo instante provam que se não subordinam ao nosso capricho. (…) A Ciência, propriamente assim chamada, é, portanto, incompetente, como tal, a decidir na questão do Espiritismo; não tem que se haver com ele e seja, qual for a sua opinião, favorável ou não, não poderá ter significação”.

Vemos o mesmo comentário em Einstein3 ao responder sobre se seria hora da fé ser substituída cada vez mais pelo conhecimento:

“Pois o método científico não pode nos ensinar nada mais além de como os fatos se relacionam e são condicionados entre si. (…) O conhecimento objetivo nos oferece poderosos instrumentos para o alcance de certos fins, mas a própria meta máxima e o desejo de alcançá-la devem vir de outra fonte. Aqui nos deparamos, portanto com os limites da concepção puramente racional da nossa existência (…)”.

Mas com isso, quereria Kardec dizer que devemos banir a Ciência do meio espírita? Não, Kardec se referia apenas aos detratores do Espiritismo. Se lermos com mais cuidado, com isenção de ânimos, podemos constatar, neste mesmo item VII de “O livro dos Espíritos”, que Kardec não tinha preconceito contra a Ciência:

“Não somos daqueles que demonstram indiferença na consideração aos homens de Ciência. Ao contrário os temos em alta estima e sentir-nos-íamos muito honrados se contássemos com alguns deles”.

E mais adiante no mesmo item:

“O Espiritismo é o resultado de uma convicção pessoal que, como indivíduos podem ter os cientistas, abstração feita de sua condição de cientistas”.

É mesmo um mau hábito o fazer críticas apressadas e gratuitas, generalizando em vez de analisar, falando de assunto sobre o qual nada conhecem, como as que costumamos encontrar nos jornais e revistas espíritas e em reuniões em Centros Espíritas, quando o assunto é Ciência. Como diria Kardec, agora no item VIII da mesma referência:

“Acrescentamos que o estudo de uma doutrina, qual a espírita, que de chofre nos lança numa ordem de coisas tão nova e tão grande, só seria feito com proveito por homens sérios, perseverantes, isentos de preconceitos e animados por uma vontade firme e sincera de chegar a um resultado. Tal classificação não poderia ser aplicada aos que julgam a priori, levianamente e sem que tivessem visto tudo… tampouco poderia ser aplicado àqueles que, para não diminuírem o conceito em que são tidos como homens de ‘espírito’, se estafam por encontrarem um lado ridículo nas coisas mais verdadeiras”.

Embora ele estivesse falando dos cientistas que procuravam ridicularizar o espiritismo, havia a pressuposição implícita de que os espíritas não possuíam esses vícios. Este o primeiro objetivo deste artigo, eliminar do meio espírita o preconceito que ainda existe contra a Ciência. Como segundo objetivo podemos colocar a questão de se a Ciência está apta a julgar a existência ou não da alma. Como vimos nas duas primeiras citações acima, tanto os espíritas quanto os cientistas estão de acordo que não é da competência da Ciência falar desses assuntos. Significa isso mais um motivo para o espiritismo se afastar da Ciência? É claro que não, e Kardec já dizia isso em A Gênese2 (pág. 20):

“O Espiritismo e a ciência se complementam um pelo outro. A ciência sem o Espiritismo se encontra na impossibilidade de explicar certos fenômenos unicamente pelas leis da matéria; ao Espiritismo, sem a ciência lhe faltaria apoio e controle. O estudo das leis da matéria deveria preceder ao da espiritualidade, porque é a matéria que fere, primeiramente, os sentidos. O Espiritismo, vindo antes das descobertas científicas, teria sido obra abortada, como tudo o que vem antes de seu tempo”.

E assim também Einstein3 em sua famosa frase:

A ciência sem religião é manca, a religião sem a ciência é cega”. (pág.144)

Mas o que dizer de um livro como “A Estrutura da matéria segundo os Espíritos”? Estaria tentando provar a existência da alma? Como poderia um livro ditado por espíritos, transmitindo conhecimentos dados em um curso no plano espiritual, justificar o Espiritismo para a Ciência mais do que o Espiritismo já o faz? Como pode um livro querer provar a existência dos Espíritos mais do que o próprio Espiritismo já o faz para aqueles que ainda não são espíritas? Considero este livro como uma notícia do plano espiritual sobre os estudos que estão sendo feitos por um grupo de Espíritos, constituindo-se numa demonstração do adiantamento de seus estudos, é verdade, mas que de nenhuma forma pode ser considerado uma teoria científica, embora possa servir de fonte de inspiração para cientistas que queiram dedicar suas vidas a isso. Ao invés de provar a existência da alma, ele está, principalmente, contribuindo para trazer os argumentos que faltavam para silenciar os detratores do Espiritismo, que se valem da Ciência para conseguir seus objetivos, ao demonstrar científicamente a possibilidade de outros planos da existência.

E o que dizer dos progressos científicos, poderão um dia tornar o espiritismo obsoleto? É Kardec ainda que responde em A Gênese2 (pág.40):

“O último caráter da revelação espírita, e que ressalta das próprias condições nas quais está feita, é que, apoiando-se sobre fatos, não pode ser senão essencialmente progressiva como todas as ciências de observação. Por sua essência, contrai aliança com a Ciência que, sendo a exposição das leis da natureza em certa ordem de fatos, não pode ser contrária à vontade de Deus, autor dessas leis. As descobertas da ciência glorificam Deus em lugar de diminuí-lo; elas não destroem senão o que os homens estabeleceram sobre idéias falsas que fizeram de Deus. (…) O Espiritismo, caminhando com o progresso, não será jamais ultrapassado, porque se novas descobertas lhe demonstrarem que está em erro sobre um ponto, modificar-se-á sobre esse ponto; se uma nova verdade se revela, ele a aceita”.

Finalmente um último objetivo deste trabalho é responder à questão: – Deve um espírita se preocupar com estudos científicos? Vejamos de novo o que nos falam os espíritos a respeito no Livro dos Espíritos1, na descrição da Escala Espírita, Segunda Ordem – Bons Espíritos:

“109. Quarta classe. ESPÍRITOS SÁBIOS. O que os distingue é, especialmente, a extensão dos conhecimentos. Preocupam-se menos com as questões morais do que com as científicas, para as quais têm mais aptidão; mas só encaram a Ciência do ponto de vista de sua utilidade e não misturam com qualquer das paixões características dos Espíritos imperfeitos.”

“111. Segunda classe. ESPÍRITOS SUPERIORES. Reúnem Ciência, sabedoria e bondade. Sua linguagem só transpira benevolência: é sempre digna, elevada, por vezes sublime. Sua superioridade os torna, mais que os outros, aptos a nos darem as mais justas noções sobre as coisas do mundo incorpóreo, dentro dos limites de conhecimento permissíveis ao homem. Comunicam-se de boa vontade com os que de boa fé buscam a verdade e cuja alma seja bastante desprendida dos laços terrenos para a compreender; mas afastam-se dos que são movidos pela curiosidade ou que, por influência da matéria, se desviam da prática do bem.”

Assim no meu entender, se todos vamos um dia chegar à perfeição, todos teremos de estudar ciência. Alguns o fazem antes de progredir na parte moral e outros primeiro avançam na evolução moral, mas todos devem atingir um nível elevado de moral e conhecimento científico. Portanto, não há razão para discriminarmos agora os cientistas. É verdade que muitos cientistas são ateus, materialistas, e empregam seu conhecimento para o mal desenvolvendo armamentos, vírus mortais, agrotóxicos, poluentes, clones e toda sorte de tecnologias que de alguma forma são contra a ética e a moral como a entendemos. Mas muitos se dedicam à pesquisa de medicamentos, vacinas, seleção de sementes, materiais substitutos biodegradáveis, e tecnologias que facilitam o trabalho humano, aumentam a produção de alimentos e permitirão no futuro um controle ainda maior sobre as doenças. Alguns poucos já são espíritas, tendo abandonado aquele tipo de pesquisa antiética, como condição indispensável para continuar sua evolução espiritual, e hoje podem estar se dedicando à divulgação do espiritismo.

Entretanto esta conclusão não deve nos levar a outra, de que o Espiritismo como doutrina, deva se ocupar dos estudos científicos. As teorias científicas são sempre transitórias e se tornam obsoletas, sendo substituídas por outras mais avançadas. Isto é válido mesmo quando um ensinamento nos for transferido por comunicação espírita, como se pode constatar nesta afirmação em A Gênese2 (pág.43):

“Os Espíritos não vêm para livrar o homem do trabalho do estudo e das pesquisas; não lhe trazem nenhuma ciência pronta; o que pode encontrar, ele mesmo, deixam-no às suas próprias forças; é o que os espíritas sabem perfeitamente hoje. Desde muito tempo, a experiência demonstrou o erro da opinião que atribuía, aos Espíritos, todo o saber e toda a sabedoria, e que bastava dirigir-se ao primeiro Espírito que chegasse para conhecer todas as coisas. Saídos da Humanidade, os Espíritos lhe são uma das faces; como sobre a Terra os há superiores e vulgares; muitos deles sabem, pois, científica e filosoficamente, menos do que certos homens; dizem o que sabem, nem mais nem menos; como entre os homens, os mais avançados podem nos informar sobre mais coisas, dar-nos conselhos mais judiciosos do que os atrasados. Pedir conselho aos Espíritos não é dirigir-se às forças sobrenaturais, mas aos semelhantes, àqueles mesmos a quem nos teríamos dirigido em seu viver: aos parentes, aos amigos, ou aos indivíduos mais esclarecidos do que nós”.

Rio de Janeiro, 28 de Outubro de 1999.

 

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