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O Inadaptado Social e Suas Características

O Inadaptado Social e Suas Características

Revista de Espiritismo nr. 29 – Outubro/Dezembro 1995

No uso popular da linguagem, em constante evolução, tende a confundir-se o conceito de inadaptado como sinónimo de vadio, como delinquente, nervoso ou psicopata. Aplica-se também tal designação ao atrasado ou débil. É a palavra normalmente usada para distinguir ou separar o normal do anormal; o são do patológico; o certo e equilibrado do sujeito imaturo, desequilibrado ou tarado.

A inadaptação qualifica-se, no dizer de um psiquiatra francês (Lagache), segundo a situação de que é correlativa (em relação à criança, em relação ao meio, em relação aos dois: criança e meio). Segundo o mesmo autor, três perigos podem surgir nesta classificação:

1º. O de considerarmos a inadaptação como critério de desenvolvimento ou maturação normal. (Os críticos aderentes ao Lamarkismo (1), Darwinismo (2) ou ainda ao Behaviorismo (3) seriam retomados). Seria normal o que se está a adaptar ou adaptado. Mas a quê? Basta imaginar que dentro de uma sociedade de atrasados, o débil mental não seria um inadaptado. Por isso, se entende que a condição de atrasado não é causa de inadaptação, mas sim um factor diminutivo das faculdades de adaptação e isto no contexto de um meio dado. É evidente que uma definição exaustiva e concreta não se nos apresenta com muita facilidade. No entanto, é preciso ir um pouco mais além.

2º. Dir-se-á que é inadaptado o que não tem sabido ajustar-se às exigências das suas necessidades, rejeitado pelo seu meio de trabalho numa sociedade que não soube colocá-lo no seu lugar ou proporcionar-lhe os adequados meios para o seu desenvolvimento? O furto a estranhos ou domésticos reveste-se de características diferentes, visto que diferentes são os móbiles identificados. Intervindo, assim, a tolerância ou não do meio social, a protecção ou não pelo meio que influenciasse a criança ou adulto no sentido do acto praticado. Assim, o sujeito e seu meio estão interrelacionados (interagem) dentro da mesma aventura, não podendo dissociar-se um do outro. Há, de algum modo, cumplicidade no acto, devido à falta de apoio e exemplificação condigna. Proporcionando-se esquemas de socialização sadios, onde os princípios ético-morais seriam prioritários, favorecer-se-ia, por certo, o desenvolvimento e interiorização do sentimento de responsabilidade no indivíduo, fundamentais a um comportamento ajustado ao respeito pela ordem, justiça e bem do próximo. Todavia, inadaptado em meio de delinquência.

3º. De tal criança caracterial não se dirá que os seus sintomas podem ser precisamente a sua própria maneira de reagir a uma situação traumatizante, recusando, por exemplo, adaptar-se a uma nevrose parental (4), e seria isto por seus sintomas condição de instabilidade e rejeição que permitiria taxá-la de inadaptada e não à família? Tal outro não só se adaptará demasiado bem a esta situação como desenvolverá a base defensiva das traumatizações, tornando-se bem tolerado por todos, encontrando no seu próprio meio o seu próprio equilíbrio. Contudo, cedo ou tarde, tal situação se traduzirá por uma incapacidade para responder às suas exigências pessoais e às condições sociais de uma vida adulta.

Convém, portanto, referir que uma criança dita normal, mas sofrendo a influência de um meio sociofamiliar não conforme às suas necessidades, não desenvolve se não, mais ou menos, no decurso da sua maturação afectiva, traumatizações que mais tarde lhe trarão dificuldades.

Assim, não se pode avaliar o sentido do valor económico para um indivíduo ou ainda da gravidade de uma inadaptação, em função da aparência de sintomas, nem em função do grau de tolerância do meio. Daqui a exigência que resulta como consequência lógica do exposto, de se ir buscar um conjunto de características que definam e permitam enquadrar no conceito de inadaptado determinado indivíduo.

Deste modo, considerando o próprio indivíduo em si, o inadaptado apresenta-se, normal-mente, com certo grau de imaturidade, com equilíbrio instável, falta de autodomínio. O seu potencial evolutivo e dinâmico, nos diversos aspectos, psicológico, intelectual e moral e afectivo, exprime, quase sempre, desníveis acentuados que se traduzem, na prática, pela reduzida capacidade de conter os seus impulsos, dirimir conflitos íntimos e acentuada dificuldade de realização construtiva, nos domínios da ordem, trabalho, disciplina e da dignidade humana. Segundo a Escala Espírita situar-se-ia na terceira ordem («O Livro dos Espíritos»).

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* Director da revista «Visão Espírita». (1) Lamarkismo, referente a Lamark; teoria criada no século XIX pela qual se explica a evolução dos seres vivos por meio da influência das variações do meio sobre o comportamento e sobre os órgãos; o lamarkismo supõe a herança de caracteres adquiridos. (2) Darwinismo, relativo a Charles Darwin; biólogo inglês autor da teoria da evolução das espécies (selecção natural). (3) Behaviourismo, método de observação psicológica que tem por objecto os estudos das relações entre os estímulos e as respostas do sujeito e seu comportamento; autor: John Watson, EUA. (4) Nevrose parental – perturbaçãopsicológica decorrente de acção familiar; o mesmo que neurose.

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