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O Nosso lado sombrio

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Enéas Canhadas

As maiores dificuldades de possuir um lado sombrio, ou falando de outro modo, possuir um lado que nos é desconhecido, é que ele pode influenciar diretamente nas nossas atitudes sem que consigamos dar conta. Em termos psicológicos, estamos falando da SOMBRA. Conceito junguiano para designar o outro lado da personalidade, daquela parte obscura da psique. Uma parte de nós mesmos que ainda não foi incorporada à nossa vida consciente, um lado nosso vulgar, imaturo, primitivo, inadequado e incômodo à nossa vida consciente. Contém qualidades infantis e primitivas que, de algum modo, poderiam vivificar e embelezar a existência humana, se integradas à nossa consciência e desde que passasse a fazer parte da nossa maneira comum e consciente de ser.

É importante lembrar que nesse nosso lado sombrio não estão só as coisas más ou uma espécie de lado ruim. Estão características nossas que não queremos reconhecer e isso acontece por muitas razões. Somos seres misteriosos para nós mesmos, possuímos as nossas incoerências e os nossos contrários dentro de nós mesmos. Somos uma síntese de bem e mau, de força e fraqueza, de calma e ansiedade, apenas para citar alguns poucos exemplos.  Desde o primeiro casal relatado na Bíblia, ali estão o masculino e o feminino, as nossas polaridades, também a razão e a emoção. A crença do casal Adão e Eva residia na observância da ordem divina. No entanto, a serpente simbolizando a sombra de todos nós, o nosso lado contrário, fez com que acontecesse a ousadia da desobediência, nos levando a relacionar ousadia ou outras rebeldias como o mal em nós, e isso nos faz esquecer que tais traços podem representar a nossa capacidade de romper barreiras ajudando a fazer transformações em nossas vidas.  Caim matou Abel. No Caim estavam as más intenções dos seres humanos, a ambição e o desejo de ser preferido, em Abel estava a pureza de coração, por isso a melhor oferta perante Deus. Assim, todos nós temos um lado Caim e um lado Abel, fazendo a síntese.

Quando Moisés sobe ao Monte Sinai e demora em descer com as tábuas da lei, ao voltar encontra o povo adorando um bezerro de ouro, simbolizando que, se possuímos um lado que venera, temos também um lado idólatra, afinal certamente as nossas crenças já foram também primitivas em eras passadas.

A sombra pode nos engolir ao longo das nossas vidas quando resistimos ou insistimos em não reconhecê-la. Podemos ser tragados por nós mesmos, pelo nosso lado obscuro e desconhecido. É o que nos ensina a inteligência emocional fazendo-nos ser seqüestrados pelas nossas próprias emoções. Quando somos seqüestrados por uma espécie de irracionalidade emocional é quando o nosso lado desconhecido toma conta de nós. Isso aconteceu com Jonas que foi engolido por um grande peixe, porque na verdade estava resistente a ir pregar. O seu lado oculto e sombrio estava resistente, e então ele foge, mas foi engolido pela sua própria negligência.

Quando Jesus pergunta a Pedro três vezes se o discípulo o amava, buscava alertar o apóstolo para o fato de que todas as confissões incondicionais de amor ao Mestre, nada mais eram do que um ocultamento do lado traidor de Pedro, isto é, a sombra. Melhor teria sido para Pedro se reconhecesse desde logo, que se fosse colocado contra a parede sobre o seu amor e dedicação ao Mestre, talvez fosse capaz de sentir tamanho medo que o levasse a até mesmo traí-lo, como de fato acabou acontecendo.

O apóstolo Paulo, de perseguidor de cristãos passa a ser o defensor fiel e dedicado dos cristãos. Quem o havia tornado antes o perseguidor de cristãos era a sua sombra. Neste caso temos um exemplo de alguém que estava totalmente seqüestrado pela sua própria sombra, obtendo consciência depois da sua conversão ocorrida na estrada de Damasco.  Maria e Marta, as duas mulheres irmãs de Lázaro que receberam Jesus em sua casa, uma preocupada com os afazeres da casa e com a comida e em receber bem ao Mestre e a outra preocupada com o aprendizado e as coisas do Espírito, também simbolizam os nossos dois lados: aquele que se preocupa com o corpo, podendo nos levar a excessos escondendo a espiritualidade em nós, e de outro lado à desregrada preocupação com o lado espiritual poderá nos conduzir ao fanatismo, por exemplo, enfim sombra e luz.

Quando Jesus afirma às pessoas que condenavam a mulher adúltera dizendo “quem não tiver pecado, atire a primeira pedra”, estava denunciando a sombra existente em cada um dos seres humanos. Com a afirmação de Jesus, o Mestre revela a todos que somos possuidores de um lado obscuro que pode nos condenar quando estamos condenando a alguém. Jesus transitava tranqüila, segura e serenamente pelo lado sombrio e pelo lado iluminado quando estava num almoço, comendo com os pecadores, segundo ele, como médico de almas visitando os doentes. A integridade e a elevação do espírito consistem em transitar do lado iluminado da alma para o sombrio e ser capaz de retornar, reconhecendo esse lado sombrio para não ser tragado pelas próprias emoções contraditórias.

Quando Jesus é tentado no deserto, o anjo mal simboliza o nosso lado sombrio que, frente aos fascínios terrenos pode trocar toda a sua moral e todas as suas virtudes pela ambição. Quando a ambição nos engole, nos seqüestra frente às escolhas que temos de fazer, estamos sendo engolidos pelo nosso lado sombrio.  Judas simboliza a sombra dos apóstolos. Assim como Pedro, na verdade todos os apóstolos bem poderiam ter feito o papel de Judas, pois se temos um lado que pode gozar de toda a confiança, temos outro que pode ser o da falsidade a ponto de trair. Confiança e desconfiança são os dois lados da mesma moeda.

 

Os dois ladrões crucificados, um à esquerda e outro à direita de Jesus, simbolizam também o nosso lado capaz de arrependimento e o outro capaz de impropérios mesmo frente aos nossos erros e até mesmo à morte, sem admitir uma situação óbvia. Tudo o que detestamos ou repudiamos, em especial quando o fazemos extremadamente, devemos olhar para ver e reconhecer que ali pode estar oculto o nosso outro lado, a nossa sombra.

De que nos vale conhecer a sombra e saber que temos esse nosso outro lado obscuro ou completamente desconhecido?  Jung, criador do conceito de sombra, nos ensina que ao final das nossas vidas, devemos aprender a conciliar os nossos contrários. Essa síntese será sinal do nosso amadurecimento e do autoconhecimento aprimorado levando-nos a ser mais sábios, mais conhecedores de nós mesmos e um pouco mais evoluídos de quando chegamos a esse plano. A trajetória evolutiva de cada Espírito implica em ser cada vez mais um melhor conhecedor de si mesmo. Podemos citar André Luiz em “Obreiros da Vida Eterna” quando diz que, em momentos de impaciência sentia emergir dentro dele o velho homem.  Numa linguagem evangélica podemos pensar que somos seres criados simples e ignorantes, mas que, ao longo da evolução, buscando o nosso progresso, devemos atingir o estado de plenitude, de integridade, reunindo os nossos lados claro e escuro, iluminado e sombrio.

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